14/12/2025

A casa temporal




Sou, por agora, mistério em bruto,
sortilégio ainda incandescente.


São assim as manhãs de inverno,
quando o sol aparece sem avisar, 
para almoçar.


Se apenas existisse esta manhã,
seria suficiente:
o passado reconstituído
em filigrana,
o futuro coisa mínima,
carpa a nadar, previsível,
num lago semi coberto de folhas.


É isso o que faço:
exercito até ao meio-dia
a contenção do tempo.


Alguém, porém, bate
na porta grossa de carvalho
que construí para esta casa temporal.
Bate e insiste
com mãozinhas delicadas, 
afiadas e subtis;
insiste, insiste.

“Deve ser uma criança”, penso.

Quando abro a porta, ninguém.
Só uma sombra desce as escadas, apressada,
e deixa no tapete
uma carta fechada.
Prefiro não a ler, por enquanto.



Fotografia manipulada digitalmente
 ©Jeffery C. Becton, EUA
@jefferybectonstudio


3 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom

Graça Pires disse...

Há sempre uma casa nos caminhos da memória que esclarece o passado. Se fosse eu abria a carta.
Aproveito para lhe desejar um Natal cheio de amor e um ano de 2026 com saúde e conforto para si e para a sua família.
Um beijo.

Aleatoriamente disse...

Luís,

Este teu poema cria um tempo suspenso, delicado e interior. A manhã de inverno basta, inteira, e o gesto de “conter o tempo” transforma o presente em morada. A batida na porta, a sombra e a carta não lida introduzem um mistério sutil, sem pressa de resposta. O poema termina onde a inquietação começa e é justamente aí que ele permanece em sons

Abraço
Fernanda