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domingo, 28 de abril de 2019

I am currently Out of the Office

S. - Olá, J 

J - Tudo bem, S ?

S. - Sim.  Tive uma epifania.

J - Então ?

S - Uma revelação, sei lá, transcendental. Estacionei longe. Eu não evoluo, pá, viajo. (ris-se) Enquanto caminhava para cá ouvi o melro, entre os barulhos dos carros e destes aviões que parecem que vão aterrar no Rossio. O gajo está apaixonado outra vez e não quer que a mulher saiba. Por isso assobia aquela canção dos Beatles. O Blackbird.  Depois passei pelas pessoas na avenida e cumprimentei apenas a árvore. É tão simpática e disponível, parece aquela velhota lá do prédio. Entrei no escritório, vi os colegas, mas abracei a planta do hall do escritório. Está mais alta.

Sabes o que percebi, J ?



Que afinal não estou louco.

(Toca o telefone)

S. - Bom dia. doutor. Subo já, Doutor. (Falando com o j.) O K quer falar comigo.


(K. mandou-o chamar, como se tornara hábito. S. bateu à porta e pediu para entrar como se fossem desconhecidos ou dançassem um ritual de poder.)

K. - Entre, entre, S. Como se tem sentido ?

S. - Razoalvelmente assim assim.

K. -Você é boa pessoa.

S. - Obrigado.

K. - Até o considero um homem inteligente.

S. - Obrigado, senhor K.

K. - Mas não é MALUCO !

S. - Como disse, senhor K. ?

K - Disse e volto a dizer-lhe: Você é  maluco.

(S. encolheu os ombros e olhou-o com um misto de medo e compaixão.)

K. - Nós não podemos ter nas nossas equipas um maluco, como deve compreender ?

S. - Não podem (desconfiado) !? Está bem...está bem.

K. - Você não grita com os outros.

S. - Com quem ?

K. - COM OS OUTROS! Chiça que é surdo.

S. - Já gritei, mas só em casos extremos, realmente.

K. - Um chefe tem de ter uma postura de chefe.

S. - Uma máscara, uma espécie de mania ?

K. - É mais ou menos isso, S. Vê como  reconhece a sua fraqueza. Você não está bem, não está bem, não está bem.

S. - De facto, não tenho muito a mania. Tenho-me esforçado bastante para armar-me em bom, mas passado algum tempo esqueço-me e volto à humildade e à cortesia.

K. - Admita S. que precisa de ajuda médica. Tem tomado a medicação ?

S. - Tenho, sim, Sr.K, É a única forma de me aguentar.

K. - Você não tem perfil. Já me tinham avisado, aliás. Não vê a forma vingativa  e desconfiada com que os outros se olham entre eles, ou berraria machista que fazem ou histerismo da Sra.F ? Aquilo é profissionalismo, só um bom profissional consegue chegar a qualquer destes estados. Você aje de forma natural às coisas, homem. Como pode mudar ou dirigir as coisas com naturalidade e delicadeza ? Hã...Diga-me? Não consegue imitar pelo menos  a frieza emocional do Sr. T. ?

S. - Eu faço tudo o que me pedem. E muitas vezes tento ser empreendedor. Fazer para além do que me pedem.

K. - Faz o que lhe pedem....Lá está...Pedem e você faz. Não percebe... não percebe... que não pode fazer o que lhe pedem ? Nem acreditar em tudo o que lhe dizem.(Pausa). Nem dizer o que pensa. Nem ser verdadeiro...seja lá o que isso fôr. (Pausa) Quanto quer ?

S. - (fazendo parece não perceber) Quanto quero para quê, Sr. K. ?

K. - Você é boa pessoa, S.

S. - Não me faça chorar, Sr.K. Eu sei...eu sei...

K. - Não julgue que nós lhe vamos montar armadilhas ou conspirar nas suas costas para ...

S. - Nunca me passaria uma coisa dessas pela cabeça, Sr. K.

K. - Isso nunca. Nunca ouviu. Os nossos valores estão acima disso.

S. - Claro, Sr. K. Eu sei disso. Tenho ouvido discurso a discurso, intervenção a intervenção, todas as suas palavras ao longo deste anos  e sei disso muito bem. Que outros valores, vos movem.

K. - Tenho uma reunião às três. Vou ter de sair.

S. - Até amanhã, Sr.K.

K. - Até amanhã, S. As suas melhoras...sinceramente.

S. - Obrigado, Sr.K.








quarta-feira, 27 de março de 2019

Dia Mundial do Teatro


Primeiro era o verbo. E para o articularmos criou-se a sintaxe, a semântica,  a ortografia, a gramática.  Porém, nada tornou a palavra tão precisa, relacional e intencional como a voz humana. A arte que sublima esse artifício chama-se Teatro. Hoje é o seu dia mundial. Muito obrigado,  amigo Teatro.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Pelo rio abaixo (versão declamada)




Poema escrito para a homenagem a António Borges Lopes (1943-2018) realizada no Auditório de Alfornelos em fevereiro de 2018

Foto de Carla Ferreira da última cena de "A Moura" levada à cena pelo Teatro Passagem de Nível
Cenários de Paulo Oliveira
Figurinos de Francisco Silva
Atores: António Borges Lopes e Luís Palma Gomes


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Pelo rio acima


Este poema foi escrito com a intenção de ser declamado na homenagem efetuada ao amigo António Borges Lopes no "Serão dos Poetas"  (Alfornelos - Amadora, 24 de fevereiro de 2018). As letras maiúsculas significam mais ênfase na dicção.


Às vezes apetece-me um lugar comum, por isso digo-vos

AS LÁGRIMAS COM QUE ESCREVO SÃO DE SANGUE

Não são nada.
São de   ÁGUA, simples ÁGUA

Descem a colina dos PÁSSAROS
Até à serena HORTA DOS FRADES.

As LÁGRIMAS COM QUE escrevo
Trilham as profundas rugas da MONTANHA

E como um cuidadoso FIO DE AZEITE
Perguntam ao RIO se podem entrar na CORRENTE.


Olham para trás, A NASCENTE
Olham para a frente, TANTA GENTE
Gente, Não.
Aquilo, senhores, é a humanidade dos PEIXES.
Peixes que saltam, juntam-se, separam-se e
Comem-se entre eles às vezes.

(Voz da multidão): “MEMENTO MORTI”... “MEMENTO MORTI”
“Lembra-te que és mortal”
Diziam os escravos aos generais romanos
Quando entravam vitoriosos
Na  cidade eterna
“MEMENTO MORTI”
“Lembra-te que és mortal”

Mas os peixes, senhores, NÃO OUVEM
NÃO TEM TEMPO
Ou se ouvem, Não se entendem
Há as correntes, os peixes grandes, as rochas, as represas
E pela frente
Sempre aquela  esperança
Ora ausente ora presente
De um infinito e manso mar
Onde as minhas lágrimas de sangue se diluiem
Porque agora se lembram da tua lição
Da tua forma subtil de dizer:
 Como é bom viver
Em mar aberto e num alegre cardume de peixes
Finalmente FRATERNOS. 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Hoje morreu-me um amigo

Surpreendido hoje pela morte de António Augusto Borges, fiquei mais pobre. Morreu-me um amigo, um amigo do teatro e da vida. Tenho a clara impressão que fiquei-lhe a dever qualquer coisa. Pelo menos, um abraço. Fizemos a "A Moura" juntos. Eu era o Conde e ele, o meu frade confessor.

A primeira frase durante o espetáculo que eu lhe dirigia era: "Ainda bem que vieste." E assim o continuei a cumprimentar cada vez que o via no foyer, nos ensaios, na rua, nos belos almoços que fizemos.

O espetáculo terminava com esta frase dita por ele: "Vou descansar. Foram dias de muito reboliço. Já começo a ficar velho, meu senhor. (Olhando primeiro céu devagar) Hoje está quarto crescente. Um bonito astro, por sinal. Faz lembrar a Oriana – a Moura. A princesa-santa. Boa noite, Conde. ". E fechavam-se as luzes.

Até sempre, frade. Provavelmente, num ou noutro momento de sensatez, humor ou boa disposição, vou lembrar-me de ti, António.


António Borges Lopes (frade) e eu (conde) em A Moura 2015/2016 



sexta-feira, 3 de março de 2017

Dramatizar, segundo Bloom

Enquanto lia uma apresentação sobre a avaliação no ensino, deparei-me com o verbo "Dramatizar". A função de dramatizar encontrava-se entre  outras derivadas do verbo "Aplicar".

Aquém de "Dramatizar" estavam o "Conhecer" e o "Compreender". Para além, ficavam os verbos "Analisar", "Sintetizar" e "Avaliar".

Quem escreve para  teatro deve ter esta escala verbal em conta: Para "Dramatizar" deve aplicar o que se conhece e compreende e deixar as tarefas de analisar, sintetizar e avaliar para quem  aborda o guião, esteja esse elemento envolvido na criação do espetáculo ou apenas na sua contemplação.




sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Teatro-Filosofia-Homem/Mulher

Escreveu Jean Paul Sartre em 1974 e resolvi-o plantar  no blogue, porque  se trata-para mim de uma declaração de princípios, um ideia fundamental que não me quero esquecer nunca:

"Hoje em dia, penso que a filosofia é dramática pela própria natureza. Foi-se a época de contemplação da imobilidade das substâncias que são o que são, ou da revelação das leis subjacentes a uma sucessão de fenómenos. A filosofia preocupa-se com o homem – que é ao mesmo tempo um agente e um ator, que cria e representa seu drama enquanto vive as contradições de sua situação, até que se fragmente sua individualidade, ou seus conflitos se resolvam. Uma peça de teatro (seja ela épica, como as de Brecht, ou dramática) é, atualmente, o veículo mais apropriado para mostrar o homem em ação – isto é, o homem ponto final. É com esse homem que a filosofia deve, de sua perspectiva própria, preocupar-se. Eis por que o teatro é filosófico e a filosofia, dramática."


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Teatro de excelência na Amadora

Recomendo vivamente que assistam a dois espetáculos de teatro que tive já o privilégio de assistir:

"O urso" de Anton Tcheckov no Auditório de Alfornelos (Amadora) no dia 10 de setembro pelas 21:30 (4 euros) e "Variações à beira de um lago" de David Mamet nos dias 16, 17 e 18 de setembro nos Recreios da Amadora (Junto à estação da CP) 

São dois textos incríveis e excelentemente encenados e interpretados. Não perca, porque vai lembrar-se deles para o resto da vida.



"Variações à beira de um lago" - Teatro dos Aloés 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Ouvindo o mestre Hélder

No lançamento do meu livro "A Moura", convidei o mestre Hélder Costa para o apresentar. Foi um prazer ouvi-lo e conversar com ele antes e depois do lançamento. Uma lição de história e de coragem, a sua vida.

Obrigado, Hélder,

Eu e Hélder Costa no lançamento de "A Moura" no Auditório de Alfornelos

terça-feira, 29 de março de 2016

o teatro e os humanos

“Há 15.500 atrás, à luz da fogueira, um caçador conta aos outros membros da tribo, com palavras e gestos, as peripécias da última caçada. Desta forma simples, permite que todos os outros experimentem aqueles acontecimentos por ele vividos ou imaginados. Este hipotético espetáculo revela-nos a natureza vital e primordial do teatro. Ele abriga-se na cultura e nos genes dos sobreviventes – aqueles que tiveram o arrojo de contar uma história e os que tiveram a humildade da presenciar. O teatro é uma arte tão permanente quanto a espécie humana." 

Breve texto da minha autoria publicada em https://espalhafactos.com/2016/03/27/dia-mundial-do-teatro-2/

terça-feira, 8 de março de 2016

"Pessoa"

"Pessoa", um dos espetáculos em cartaz do Teatro Passagem de Nível,  foi baseado na obra "Pessoa contado às crianças adultas" de Jorge Chichorro Rodrigues e  adaptado e encenado pelo Porfírio Santana Lopes para teatro.

O espetáculo funciona como um ritual sagrado em redor da vida e da consciência literária pessoana. Os seus três principais heterónimos são personagens da peça, bem como, a sua mãe e a sua namoradinha Ofélia Queiroz. O espetáculo tem a duração de uma hora e está nomeado para sete prémios do CONTE 2016 (Concurso Nacional de Teatro).

Ensaio geral de "Pessoa" no Theatro Club - Póvoa do Lanhoso 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Slava

Sabemos que estamos na presença de um grande palhaço quando, durante o seu desempenho, alternamos entre a vontade de chorar e de rir.

Slava






domingo, 27 de setembro de 2015

1 ato

(Neblina.)

(Os cavaleiros chegam a trote.)

Druida: "Esperai!
que o tempo dos deuses cai naturalmente 
como uma pedra
malhando a superfície do lago.

Essa pedra que lhe agita 
uma inquietação centrífuga, quase plana,
molhando amiúde 
os pés descalços das ervinhas de Chamelot"

Coro: "Molhados, os pés da erva
movem-se para a esquerda 
e, sem saberem,
mudaram já a rota do mundo."

(Os cavaleiros saiem a galope.)

(O sol some-se também 
virgem e sem dote.)






quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O mito de Cassandra


Cassandra era um dos dezoito filhos  do rei Triamo e da rainha Hécuba, monarcas da cidade Tróia, na época em que ocorria o confronto entre  esta cidade - actualmente fica na Turquia - e uma liga grega. Cassandra era bela e tinha o dom da adivinhação, porque os seus ouvidos tornaram-se tão sensíveis que podiam escutar as vozes dos Deuses. Cassandra recusou o convite do deus Apolo para dormir com ela e, como vingança, o deus da beleza e da razão lançou-lhe a maldição de jamais alguém acreditar na suas profecias.

Quando o Cavalo de Tróia entrou na cidade, Cassandra avisou os habitantes que aquele engenho era uma ameaça. Ninguém acreditou nela. Em vez disso, escarneceram-na e apelidaram-lhe de louca.


Ulisses e os seus companheiros saíram do Cavalo de Guerra  e, quando o Rei Tríamo se apercebeu do embuste, já era tarde demais e a cidade acabou por ser conquistada pelos gregos.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

O prenúncio

Sereno, o ator perscruta um tempo diferente, um tempo fantástico. Ele vai partir e regressar da viagem, duas horas depois. Entretanto, escuta, escuta-se e sobem as cortinas. Os sonhos materializam-se (E às vezes a plateia dorme. Mais uma razão que é de sonho que falamos.). O ator completa o homem por debaixo da máscara e sobretudo brinca ao "faz-de-conta" imbuído na santa nostalgia da sua infância.

Foto de Duarte Belo na peça "A moura"

segunda-feira, 2 de março de 2015

Porfírio Lopes, o "senhor teatro" da Amadora

Entrevista a Porfírio Lopes (encenador de "A moura") conduzida por Luis Mendes , ambos do Teatro Passagem de Nível abordam a sua experiência teatral numa belíssima entrevista ao programa "Arestas de Vento" na Popular FM


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"‘A Moura': A verdade do milagre"

Autora: Rita Mata-Seta (Crítica de Teatro do EspalhaFactos.com)

No passado dia 25 de janeiro, Alfornelos parou para conceber um milagre em terras de Ourém. O Teatro Passagem de Nível recuou até ao século XIV, ao reinado de D. Pedro I, para testemunhar, através da história de uma moura, aquilo de que é feito o povo português. Numa tarde de casa cheia, celebrou-se a História de Portugal e o teatro amador, e oEspalha-Factos não poderia deixar de assistir. Se queres ter o prazer de o fazer também, A Moura voltará a ser representada já no próximo dia 30 de janeiro, nos Recreios da Amadora, no âmbito do XIV Fórum Permanente de Teatro, com entrada livre!
Apesar de não ser dia de estreia, a sessão de A Moura a que assistimos, estava totalmente lotada. Não se avistava um único lugar vazio no Auditório de Alfornelos, lar do Teatro Passagem de Nível, instituição de referência no panorama cultural do concelho da Amadora, que completa este ano 34 primaveras. Um ambiente acolhedor e familiar reina neste espaço, onde dezenas de pessoas vão chegando e convivendo à medida que a hora do espetáculo se aproxima.
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A peça teatral a que estamos prestes a assistir é original, mas trata-se de uma saga, uma sequela, segundo o autor Luís Palma Gomes, de uma produção do Teatro Passagem de Nível. Em 1995, o TPN levou a palco Pedro, o Cru, uma peça sobre o trágico romance de D. Pedro e D. Inês de Castro. Agora, em 2015, em A Moura, encenada por Porfírio Lopes, D. Pedro passa a personagem secundária, para ceder o protagonismo a Fátima (ou Oriana, como é chamada em terras cristãs), uma jovem moura, filha de um poderoso sultão. Fátima encontra-se agora enclausurada num convento, na condição de espólio de guerra, aguardando pelo desenrolar das negociações entre cristãos e mouros. Vive rodeada de noviças atrevidas e endiabradas, cuja atividade predileta será pregar-lhe partidas incessantemente.
Mas desengane-se quem deduzir que esta é mais uma história de uma rapariga inocente. A protagonista de A Moura é uma rapariga diferente das demais. Ao contrário do que transparece no convento, não é ingénua nem pura. É corajosa e atrevida. É inteligente, estuda as ciências, leu toda a biblioteca do seu pai, rica em obras filosóficas da Grécia Antiga.
A situação de Fátima transforma-se e a trama intensifica-se por meio dos dramas românticos que a envolvem, ao Alcaide D. Rodrigo, ao Conde D. João Afonso e à nobre D. Beatriz. Fátima apaixona-se por D. Rodrigo, que por sua vez mantinha um caso com D. Beatriz, uma mulher casada. D. Rodrigo pretende recuperar as terras do condado das mãos do seu tio, o Conde D. João Afonso, o qual também está romanticamente interessado em Fátima, e que conspira um plano para expor D. Rodrigo e D. Beatriz como traidores aos olhos de el-rei D. Pedro.
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Embora os dramas da fidalguia tragam o seu grau de entretenimento, aquilo que de maior valor nos traz A Moura é a encarnação do povo. O povo português do século XIV, que em pouco é dissemelhante do povo português contemporâneo. Na taberna, nas ruas ou mesmo em busca dos maridos e pais perdidos para prisioneiros de guerra… Onde quer que o povo apareça, traz verdade, genuinidade, coragem, esperança, boa-disposição,… O povo é a alma d’A Moura. Até ao fim, é ele quem impulsiona a história e lhe confere sentido.
Em última instância, será o povo quem atribui à moura a concretização de um milagre e o título de santa – “a primeira aparição de Fátima”, designação que é nem mais nem menos que o primeiro nome pensado para a peça por Luís Palma Gomes. Julgo ser adequado dizer que a bravura do povo português acaba por se transformar num dos heróis da história e roubar protagonismo aos próprios protagonistas.
Mas a história d’A Moura pode se vista por muitos outros horizontes, tocando temáticas como: a verdade, a compaixão e o amor (nas suas mais variadas formas), em oposição ao poder da intriga, da ganância e do ódio, ou ainda, a dialética ciência/fé.
Nesta peça, as opções técnicas e de encenação (direção de atores, luzes, cenário e sonoplastia) são bastante simples: a ação centra-se nos diálogos – ela decorre nestes e destes. Os figurinos, por sua vez, são um elemento com recurso ao vintage: herdados da produção de Pedro, o Cru, nesta peça são envergados trajes com cerca de 20 anos de história!
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Quantos às interpretações, perante um elenco tão rico em número e em diversidade, houve matéria para todos os gostos: atuações mais dramáticas ou mais naturais e desempenhos mais fortes ou mais fracos. Mas, sabendo que a maior parte do elenco não tem o teatro como atividade profissional, somos levados a reconhecer o grau satisfatório das performances, a um nível geral. Tal tem, em grande parte, que se dever ao esforço coletivo e amor ao teatro com que esta peça foi, notoriamente, construída.
No Teatro Passagem de Nível ama-se representar, ama-se o Teatro. A quantidade de gente que se juntou em palco, para atuar, e na plateia, para assistir, comprova-o! O calor e a união que se sentem mesmo antes da entrada na sala de espetáculos, só por si, já valem a viagem, sejas às terras de Ourém ou de Alfornelos – assiste-se ao milagre do Teatro.

Fotografias de Carla Ferreira cedidas pelo Teatro Passagem de Nível

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"a moura" estreia dia 24 de janeiro

"A Moura", de Luís Palma Gomes, estreia dia 24 de janeiro, às 21h30, no Teatro Passagem de Nível, no Auditório de Alfornelos. Estará ainda em palco dia 25 de janeiro, às 16h00, no Teatro Passagem de Nível, no Auditório de Alfornelos e no dia 30, pelas 21h30, na abertura do XIV Fórum Permanente de Teatro, nos Recreios da Amadora.

Reserve o seu bilhete através de teatropasagemdenivel@gmail.com

Esta 36ª produção do TPN, com encenação de Porfírio Lopes, remonta a 1362, onde num Convento entre Alcobaça e a Vila de Ourém permanece refém uma princesa moura, Fátima ou Oriana, à espera do desfecho do seu destino incerto, enquanto “uma intriga política cresce entre um clima de feitiçaria e um calor feroz”.



Cartaz: Marina Palácio
Ficha Técnica

Texto | Luis Palma Gomes
Encenação | Porfírio Lopes
Assistência de Encenação | Matilde Matos
Cenografia | Paulo Oliveira
Guarda-roupa | Francisco Pereira ("Pedro o Cru", 1995) e Matilde Matos
Recolha, Produção e Direcção Musical | Ricardo Simões
Interpretação | André Tenente, António Borges Lopes, Cristina Neto, Eduardo Santiago, Fátima Gomes, Fernanda Santos, Isabel Torres, Joana Amoreira, Jorge Couto, José Teixeira, Leonor Galamba, Leonel Nogueira, Lia Nogueira, Luís Gomes, Maria Castelo, Matilde Matos, Pedro Castro, Pedro Lima, Raquel Rosa, Raquel Silva, Ricardo Simões, Rodrigo Rocha, Rúben Nogueira, Sara Duarte, Susana Almeida, Tânia Catarino, Telma Nogueira, Teresa Tenente
Cartaz e Programa | Marina Palácio
Fotografia | Carla Ferreira
Caracterização | Isabel Nunes
Promoção e Divulgação | André Tenente
Operação Técnica | Luis Mendes e Rui Ferreira
Contra-regra | Dina Nunes

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Medeia



Medeia conseguiu três vezes que Jasão vencesse as duras provas que o pai dela engendrara para derrotá-lo. Ao ver-se vencido, o pai de Medeia tentou um golpe final, mas ainda assim Medeia e Jasão fugiram na Nau dos Argos com o irmão dela. Medeia para atrasar o navio do pai que os perseguia, desfez o seu irmão em pedaços lançando-os ao mar, porque sabia que o pai os iria recolher a todos e prestar-lhes no final uma homenagem fúnebre – o que permitiria o sucesso da sua fuga com Jasão. Pelo caminho, foram felizes e tiveram vários filhos. Porém, mais tarde, já em Corinto, o rei Creonte pediu a Jasão para casar com sua filha, Creúza,  Jasão, vitima de intriga, não resistiu ao pedido, informando Medeia que ela era uma simples mulher e não podia perder aquela oportunidade de se tornar um membro da família real. Medeia jurou vingar-se. Enviou um vestido coberto de joias e veneno que matou Creúza. Para além disso, matou os próprios filhos e levou os corpos consigo para que o pai, Jasão, não os pudesse sequer enterrar.

"Medeia matando os filhos" de Eugéne Delacroix

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