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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
A história de um cão que dava um pequeno conto de Natal
Conheço um cão há muitos anos, desde cachorro. É uma daquelas raças apuradas para amarem os homens. Não ladram aos ladrões, não mordem e por mais maltratados que sejam perdoam sempre. Ontem reencontrei esse cão. Estava sozinho em casa. Os donos separam-se. Cada um seguiu o seu caminho, os filhos cresceram e o cão ficou sem dono de verdade. Os donos alimentam-no , dão-lhe cuidados de supermercado, como ossos de substâncias processadas para os dentes, passeiam-no todos os dias, mas é como vos dizia, aquele cão pertence a uma raça apurada para amar o Homem. Se ele fosse um lobo, não teria hoje aquele problema da solidão, porque para um lobo a solidão às vezes faz sentido. Agora, para ele, não. Ele sofre de uma imensa solidão, porque quer amar e como cão que é, não consegue criar simulacros de amor, não consegue amar em abstrato, fazer poemas ou simplesmente escrever cartas de amor. Amar para aquele cão, é brincar, correr, tocar e cheirar coisas novas e surpreendentes. O amor para ele é abocanhar-nos os braços, levar chapadas e ralharetes, correr para apanhar o pau que lhe atirámos, mas passa os dias sozinho, a querer amar e não tem a quem. Ontem, depois de um passeio que fizemos, ele - que sempre mostra aquele ar jovial, alegre, quase desmiolado - confessou-me a sua profunda solidão. Depois de umas correrias, fugas, mijadelas e caganças, o sol pôs-se. E como dois amigos, no final de uma aventura alucinante, ele encostou o seu focinho nas minhas pernas. Tinha por momentos recordado, o que é para ele o amor, a vida verdadeira, o que ele gosta mesmo de fazer. Ficou nostálgico, melancólico. Disse-lhe, olhos nos olhos - os dele estavam cerrados, como quem lembra algo distante e ideal - que o entendia, que sentia a sua solidão como se fosse a minha, porque no fundo também eu era um animal ensinado para amar - é isso que recebemos dos nossos pais nos pueris anos da nossa vida - mas que felizmente ainda me sentia amado. "Entendo-te", disse-lhe. "Entendo a tua profunda solidão". Ele ficou mais aliviado com a minha comiseração. Foi um momento intenso. Três segundos fortes. Depois brincámos mais um pouco. Ele foi buscar a bola. Eu atirei o pau para ele ir buscar mais duas ou três vezes. Depois fui-me embora. Fechei a porta do jardim. Se eu soubesse que ele se podia tornar outra vez um lobo, teria a deixado aberta, ainda que me seria difícil explicar aos donos a hipotética decisão. Mas eu sabia que ele jamais seria um lobo. Como eu jamais serei um homem incivilizado. Afinal nós que temos tanta coisa, amigo cão, é pena que nos falte, às vezes ou tantas vezes, o amor do outro e a floresta.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
"A palavra" de Carl Dryer
Pelo significado do Natal na cultura ocidental e da sua inspiração judaico-cristã, recomendo a todos a visualização do filme de Carl
Dryer, “A palavra”.
O objectivo da minha recomendação tem um sentido critico e
um objectivo pedagógico. Recentrar a consciência em dois aspectos que parecem
esquecidos e são fulcrais na ética ocidental: O milagre e Jesus Cristo. O filme
reflecte sobre o regresso espiritual de Jesus Cristo à terra (Um estudante de Teologia que fala como se fosse Jesus Cristo), bem como do cariz sua mensagem e
da importância do milagre, como último reduto da esperança humana. O milagre é o herdeiro natural do Deus Ex Machina das peças da antiguidade clássica, ou seja, o momento em que um Deus aparece para mudar a vida dos mortais.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Sol Invictus
Os dias duravam cada vez menos. Jau sabia-o. reparou que a sombra da ponta da estaca estava cada vez mais prolongada.O sol estava cada vez mais baixo. Todos os dias, Jau esperava pelo ponto máximo e riscava, no chão, o limite da sombra (ao meio-dia).Quando terminaria aquela descida progressiva ? Jau não informara ainda a sua tribo, mas desconfiava que o sol estava doente. Mais dia, menos dia, o sol deixaria de aparecer como habitual por detrás dos montes. Até que certo dia, Jau teve uma agradável surpresa. A sombra estava agora menor. Ao meio-dia, o sol estava mais alto que no dia anterior. O sol afinal não queria morrer. Apenas adormecia durante um período para se reerguer depois. Jau contou, aliviado, a boa nova à sua tribo. E a partir desse dia, todos os anos, se celebraria o renascimento do sol (depois do solstício de Inverno).
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que o Nada retome a cor do Infinito
David Mourão-Ferreira (in "Obra Poética: 1948-1988")
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Aparente contrasenso
Era uma vez um homem tão pobre, tão pobre, que só tinha muito dinheiro.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Pormenor de Presépio

Quando li a Biblia, fiquei com a impressão de que o Jesus apelava à revolução e à mudança. Mais do que palavras mansas de amor e compaixão, o seu discurso era forte e agressivo. Por isso, aproveito uma sugestiva foto da Nica Paixão para representar um pormenor do idílico lugar onde Jesus nasceu. Afinal, não era um pequeno burrinho, mas um trunculento cavalo de trabalho, que aquecia o Menino.
sábado, 15 de dezembro de 2007
A mais linda canção de Natal
Ladies and gentlemans, THE POGUES
A mais linda canção de Natal cantada pelo mais feio cantor irlandês. Não será este o verdadeiro do espírito de Natal ?
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Natal e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio,num presépio, num prédio, num presídio,no prédio que amanhã for demolido...Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,duzentos mil, doze milhões de nada.Procuremos o rasto de uma casa,a cave, a gruta, o sulco de uma nave...Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,talvez seja Natal e não Dezembro,talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira
Entremos e depressa, em qualquer sítio,porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,duzentos mil, doze milhões de nada.Procuremos o rasto de uma casa,a cave, a gruta, o sulco de uma nave...Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,talvez seja Natal e não Dezembro,talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira
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