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domingo, 30 de junho de 2019

O eucalipto

Passei pelo sítio exato  onde os meus avós viveram. A casa desapareceu há muitos anos atrás. Também já não vejo o grande eucalipto que lhe dava abrigo e enquadramento. Apenas o imagino como um foguetão, um cipreste dos cemitérios pronto  a descolar rumo aos céus numa noite qualquer, estrelada de preferência. Agora, resta apenas um prado de ervas altas, onde as carriças fazem os ninhos e criam a prole.

Ainda assim venho aqui sempre que posso, como aquela cria de veado que não se afastava do resto da carcaça da mãe, devorada por uma alcateia de lobos. Vi isto num documentário da National Geographic, gravado no parque natural de Yellow Stone e nunca mais o esqueci.

Felizmente, consigo reconstruir em palavras a memória deste lugar. Que outro animal o faria ?

Se calhar somos mesmo filhos de Deus ou trôpegos aprendizes para a criação de mundos. 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A história de um cão que dava um pequeno conto de Natal

Conheço um cão há muitos anos, desde cachorro. É uma daquelas raças apuradas para amarem os homens. Não ladram aos ladrões, não mordem e por mais maltratados que sejam perdoam sempre. Ontem reencontrei esse cão. Estava sozinho em casa. Os donos separam-se. Cada um seguiu o seu caminho, os filhos cresceram e o cão ficou sem dono de verdade. Os donos alimentam-no , dão-lhe cuidados de supermercado, como ossos de substâncias processadas para os dentes, passeiam-no todos os dias, mas  é como  vos dizia, aquele cão pertence a uma raça apurada para amar o Homem. Se ele fosse um lobo, não teria hoje aquele problema da solidão, porque para um lobo a solidão às vezes faz sentido. Agora, para ele, não. Ele sofre de uma imensa solidão, porque quer amar e como cão que é, não consegue criar simulacros de amor, não consegue amar em abstrato, fazer poemas ou simplesmente escrever cartas de amor. Amar para aquele cão, é brincar, correr, tocar e cheirar coisas novas e surpreendentes. O amor para ele é abocanhar-nos os braços,  levar chapadas e ralharetes,  correr para apanhar o pau que lhe atirámos, mas passa os dias sozinho, a querer amar e não tem a quem. Ontem, depois de um passeio que fizemos, ele - que sempre mostra  aquele ar jovial, alegre, quase desmiolado - confessou-me a sua profunda solidão. Depois de umas correrias, fugas, mijadelas e caganças, o sol pôs-se. E como dois amigos, no final de uma aventura alucinante, ele encostou o seu focinho nas minhas pernas. Tinha por momentos recordado, o que é para ele o amor, a vida verdadeira, o que ele gosta mesmo de fazer. Ficou nostálgico, melancólico. Disse-lhe, olhos nos olhos  - os dele estavam cerrados, como quem lembra algo distante e ideal - que o entendia, que sentia a sua solidão como se fosse a minha, porque no fundo também eu era um animal ensinado para amar - é isso que recebemos dos nossos pais nos pueris anos da  nossa vida - mas que felizmente ainda me sentia amado. "Entendo-te", disse-lhe. "Entendo a tua profunda solidão". Ele ficou mais aliviado com a minha comiseração. Foi um momento intenso. Três segundos fortes. Depois brincámos mais um pouco. Ele foi buscar a bola. Eu atirei o pau para ele ir buscar mais duas ou três vezes. Depois fui-me embora. Fechei a porta do jardim. Se eu soubesse que ele se podia tornar outra vez um lobo, teria a deixado aberta, ainda que me seria difícil explicar aos donos a hipotética decisão. Mas eu sabia que ele jamais seria um lobo. Como eu jamais serei um homem incivilizado. Afinal nós que temos tanta coisa, amigo cão, é pena que nos falte, às vezes ou tantas vezes, o amor do outro e a floresta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A casa que honra os avós

Insondáveis pulsões, habitam a cave da casa. E só pelas estreitas janelas assomam a cor das labaredas que insistem em sobreviver na lareira antiga -  o verdadeiro coração da família. Pelas portas entra e sai o pão, o vinho e esculturas clássicas, onde ainda se notam algumas imperfeições de um cinzel cansado do fim do dia. Os jardins vestem a casa de flores e abelhas. Um gato  caminha cauteloso não vá algum ruído melindrar os anjos que por aqui persistem em cantar e tanger violas.  Por detrás das grades do jardim, a história passa e fica empedernida nas colinas da cidade. Mas a casa, não. A casa já não é história. Transcendeu-se. Os deuses  olham para ela como um lar do verbo “ser”. Depois descem até ela e deixam-se ficar suaves e inteiros como só eles sabem viver.

(Texto escrito no jardim da casa Roque Gameiro na Venteira Amadora)


Casa Roque Gameiro (Venteira - Amadora)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O instante absoluto

Celebra o tempo como se te entregasses ao momento com uma nudez mística que procura a eternidade num segundo apenas. Celebra o tempo, sentindo-o correr por entre os dedos. Agarra-o convicto da inexistência de ontem ou amanhã.

Só o instante se parece com o infinito se o olhares na vertical, porque nesse ponto único e fixo sobre a tua consciência, está a tua vida da inteira.




terça-feira, 7 de outubro de 2014

Outubro

Qualquer coisa de ouro velho e abstrato invade o ar através do lento vapor desta manhã de outubro. As gotas da chuva miudinha desfazem-se nas folhas dos arbustos mais rasteiros, tornando-as tristes e vivas como seres pensantes, quando se detêm diante de um tom magoado de luz.  Os pássaros prometem-nos que não há pressa. Entre eles, nunca a houve verdadeiramente. A primavera está outra vez demasiado longe do horizonte e as sementes preparam as suas camas de orvalho nas veias do húmus sobrevivente da última estação quente. O poema, omnipresente e impotente, escreve-se no voo curto e débil  das primeiras folhas caídas. Em cima dos lábios, cantilenas sombrias entreabrem  frestas no peito do mais distraído pastor de máquinas.  


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

E agora ?


Desço ou subo ? Se desço, não chegarei e todo o esforço despendido será um farrapo lançado aos cães. Para subir é preciso mais coragem e eu estou atónito, gelado e pétreo como a montanha que me segura e empurra.

Atiro-me ou rezo ? Atirar-me era fácil. Como era fácil, ó meu Deus. E para rezar é preciso espaço. Não há altar mais sagrado que esta paisagem que se espraia a meus pés, porém a minha fé  é menor que a minha descrença. É tarde demais, para encontrar o divino dentro de mim, por que não Lhe conheço o rosto, nem sei ao certo que rasto devo seguir na floresta mística da minha esperança.

Espero ? Mas por quem ? De que vale gritar, se os meus gritos se misturam entre tantos outros, que todos os apelos do mundo não são mais que uma massa informe que passa indiferente entre este zumbido continuo que é a voz humana escutada por um penedo.

Eu sei que não devia ter tomado este caminho, mas tomei. E agora ?

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A arca

Vieram dos quatro cantos do mundo e dos cinco oceanos que  banham esses cantos feitos de praias e arribas solenes. Eram milhares, milhões. Enchiam as pradarias, as planícies e o lombo dos vales. Nenhum deles sabia ao que vinha, mas nem por isso deixaram de caminhar como se um imenso íman os atraísse. Alguns chegaram à esplendorosa arca feita por Noé. Com eles se renovou o ciclo que gira entre os pólos do desespero e da esperança.

Foto do livro "Génesis" de Sebastião Salgado


  
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