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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Evocação de um mirabe

Olho de Deus.

Porta das almas.

Parede avessa do infinito.

Boca dos que oram para dentro.

Miragem convergente dos que comem o criador.

Rio vivo e clamoroso, que num silêncio indiscreto, 
faz ranger porta perra do mistério.

Cântico das fontes fieis
cujas águas serpenteiam ininterruptas
as colinas de Granada.

Aragem cálida dissolvendo a vontade humana
numa cisterna sem fundo.

Sopro agitando as teias
que seguram eternamente os ossos do coração.


Nota:  Mirabe ou Mihrab (em arábe) é uma abside dentro de uma mesquita, com a função de indicar a direção de Meca aos orantes. Escrevi este poema em Granada, no bairro Albaicín, depois de ter visitado a mesquita-catedral de Córdoba, onde contemplei um magnifico mirabe e compreendi a sua função dentro do templo.


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O viajante

Segues curioso
um atalho fronteiriço ao espanto
e ao exotismo do que nunca hás-de ter

Alivias-te dessa dor que tanto te cansa

Entregas o peito às balas   traças brancas
que no caminho da noite atravessam teu raio de visão

Já nada  é sereno
a não ser o reflexo da lua no dorso dos cavalos
que pastam ainda pequenas rosas pelos campos

O resto são animais agitados por dentro também

Nada substitui o teu leito quente e materno
mas tu insistes na estrada como alívio da dor


Viagem a Andaluzia e Sotavento Algarvio em Agosto de 2019

terça-feira, 30 de julho de 2019

Como Lorca

Recorrentemente, regresso a García Lorca, à Andalucía, a um som de guitarra e flamenco. Fico toldado pela sua leveza e liberdade e não consigo impedir que a sua poética se entranhe. Sus gacelas, poemas de amor com uma estrutura de origem árabes, são muito bonitas, quase cantabilis. Assim escrevo eu como se fosse Lorca:

Tudo é derradeiro
Não há último, nem primeiro
Tudo é frágil e suspeito
E homem nenhum suspenderá 
O vento que embala as árvores
E as faz cantar como loucas
Nem a chuva que me traz à boca
Os novos rebentos do teu semblante
Recortado numa língua de água e fogo

De quem são estes campos de centeio ?
De quem são estes peitos de rola e giz ?

Ai, Ai, Ai, Ai...se o quis, porque o não fiz
Ai, Ai, Ai, Ai...se o cantei, porque o não disse
Bastavam palavras, 
Palavras  de gesso e firmamento
Palavras de riachos e aloendros



segunda-feira, 22 de julho de 2019

Ler

Leio, ó que prazer, como se vivesse vidas infinitas ou uma infinita vida. Leio como se a própria vida fosse água a correr entre as pedras, peripécias calcárias de personagens insustentáveis ao sol de julho.

O tempo abranda sempre que o livro se abre e prepara o voo. Coloco os óculos de mergulho e, agitando as pálpebras, percorro as palavras-corais. Logo a realidade foge como um cardume assustado pelo rumor crescente da fantasia.

Humildemente, peço tudo. Ambicioso, não peço mais que nada. Nada mais que a mentira verídica.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Natureza humana

Afinal somos filhos do erro sublime
e da máquina resplandecente.
Sábios e dementes.
Em mistério, entramos, vida a vida, rio adentro.
Casualmente, perguntamos pelo milagre do início
e pelo castigo do fim.
Nada.
A mais pequena coisa, impele-nos a este caminho surdo ou mudo.

E neste silêncio, os mais capazes contemplam apenas.

domingo, 30 de junho de 2019

O eucalipto

Passei pelo sítio exato  onde os meus avós viveram. A casa desapareceu há muitos anos atrás. Também já não vejo o grande eucalipto que lhe dava abrigo e enquadramento. Apenas o imagino como um foguetão, um cipreste dos cemitérios pronto  a descolar rumo aos céus numa noite qualquer, estrelada de preferência. Agora, resta apenas um prado de ervas altas, onde as carriças fazem os ninhos e criam a prole.

Ainda assim venho aqui sempre que posso, como aquela cria de veado que não se afastava do resto da carcaça da mãe, devorada por uma alcateia de lobos. Vi isto num documentário da National Geographic, gravado no parque natural de Yellow Stone e nunca mais o esqueci.

Felizmente, consigo reconstruir em palavras a memória deste lugar. Que outro animal o faria ?

Se calhar somos mesmo filhos de Deus ou trôpegos aprendizes para a criação de mundos. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Margem

É por aqui que me perco
para encontrar musas e anões dourados.

Agora, anónimo e transparente
sei afinal onde estou e sou realmente.

E sem nada pedir, tudo me é dado outra vez,
como se regressasse ao silêncio uterino.

Os pés levantam-se um pouco acima do chão,
onde já não há terra, onde não agarro ainda o céu.

Os sinos tocam chamando de longe,
o que está perto, interior.

Falta-me aqui o vinho, mais pão,
um ombro talhado para o meu ombro.

Ainda assim estou do lado de cá,
no lado de dentro.

Rente à fronteira ambiciosa das coisas
e do caos que cresceu com o fim das estações,
ando pela margem da alegria
e finjo que não tropeço.




domingo, 2 de junho de 2019

À vela

Com a segunda mão, agarras o leme
da penúltima barca do rio.

Segues à bolina contra os anjos do desejo.

A montante, a memória.

A jusante, aquele mistério que se adensa
no olhar tenso dos gatos
quando  fixam o nada.

As velas enredam-se na história
e a barca pára.

No casco,
acumulam-se as chagas típicas do marasmo.

Os caranguejos trepam à gávea, mudos.

Baixas a âncora
até à profundeza estelar.

Pelas narinas secas,
arribam breves lembranças de salsugem.

Com os maxilares dormentes
de tremor, desembarcas
e, de calça arregaçada, caminhas
sobre  rochas e  limos ternos
até à praia onde por hábito terminas a viagem
antes do poema.




quinta-feira, 30 de maio de 2019

Cantiga do nada

Estação da CP do Rossio (Linha de Sintra, 2019)
Não sabemos nada de memória, nem do amor
Não sabemos do nada, nem do tudo, do antes ou do depois
Não sabemos de Deus, quem o arrumou e em que gaveta
Não sabemos quem fomos, somos ou seremos
Não sabemos dos mortos, nem dos vivos, nem de nenhum outro estado intermédio
Não sabemos dos filhos, nem dos pais, muito menos do Espírito Santo
Não sabemos construir, nem destruir, por isso vivemos entalados entre coisas
Não sabemos que coisas são, não podemos dar-lhe um nome efectivo, nem afectivo
Não podemos explodi-las para as reconstruir

E era tudo tão simples e acessível
Era tudo tão nosso e deles

E agora não sabemos nada, nada

quarta-feira, 22 de maio de 2019

O círculo

O tempo intemporal
É que é o verdadeiro tempo

Esse lugar  imprevisível
Onde o Apocalipse copula com a Génese

domingo, 19 de maio de 2019

Um cão sem pensamento

O cão agita a cauda,
marcando o compasso
da sua alegria. 
Olho-o de soslaio.
Feliz, ladra e abana-a.
Pudesse eu ser tu, sendo eu.
E com a cauda enxotar os pensamentos.
Porque para o homem que pensa, domingo é já segunda-feira.
O princípio traz logo o fim.
E o sol que o abraça
é um  poente pressentido.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Antes da Páscoa

Antes da Páscoa
sou carbono sem asas
sem chefe sem esperança
que ultrapasse o fim do mês

Três mastins à porta
e uma mulher na cozinha
são insuficientes para ressuscitar
o cadáver disperso pelo quintal

E quando subo as escadas de incêndio
ouço ranger os degraus
e fico estático inerte
folha caída num jardim público
naqueles dias sem vento

Antes da Páscoa

domingo, 28 de abril de 2019

Os pássaros de Ruy Belo

Os teu pássaros
eram pedras quentes arremessadas
contra a folhagem das árvores

Daquelas onde os frutos
nascem e crescem das raízes

Têm a forma de bússolas
ansiosas para nos guiar ao mar
onde a maré leva e traz a sombra da mão
que com a areia nos modela e depois nos arrasa
como coisas sempre brandas e amarelecidas
incapazes de resistir à salmoura fria da natureza 

sábado, 27 de abril de 2019

quinta-feira, 18 de abril de 2019

7 haikus do bosque




















Nada fala mais baixo
que o cogumelo castanho
Ele é o segredo do bosque

Pergunto ao bosque porquê
Nenhuma erva o sabe
Quietas crescem com a manhã

A abelha pula entre flores
não há passado ou futuro
apenas pétalas de distância

O charco reflete o céu
tem saudades, eu sei,
de quando era pingos de chuva

Há séculos o caracol avança
Já nem sabe porque partiu
A viagem é o  destino

Pastam pombos pelo trilho
Aliança feliz com os homens
que partiram pensativos

Fertilidade, dor e desejo
escrevem as marcas na oliveira
Tagarelam as mais velhas



quinta-feira, 11 de abril de 2019

Macbeths

Quando pensei na influência excessiva que algumas mulheres exercem sobre os maridos, lembrei-me de um clássico shakespeariano e escrevi:

Com vinho e sangue
se conspiram bodas
entre Marte e a Lua

Os egos rompem
a película da sombra

E logo pela manhã
montam negros corcéis
rumo ao destino do homem-cinza

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Baptismo

Começou a tarde, no Bar Britânico no Caís do Sodré. Comprei um moleskine e uma caneta nova com aquela ponta de diâmetro estreito que tanto gosto, pedi um digestivo e iniciei o livrinho assim:

Aqui baptizo
o registo das espúrias
tardes caídas
na tentação da imortalidade

Não há por aqui fontes
incrustadas à sombra das árvores,
nem caminhos escondidos
por  entre a vegetação pura
dos primeiros poemas

Apenas por aqui passa
um sentido desmazelado
pela pressa de viver,
a última economia dos defuntos
e uma orgia imatura
tatuada nas ruas quase sujas
(mas redimíveis) da velha cidade

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Carta a um jovem poeta

Escrever poesia é antes demais uma necessidade, seguida de uma fruição pessoal. Depois, porque ninguém é perfeito,  surge a necessidade de reconhecimento ou, em casos especiais, da partilha da mesma. É como uma paixão: primeiro sofres, depois gozas o amor e se este  amadurecer a tal ponto que o aches digno de o tornar um modelo, uma referência ou apenas uma longa história de amor eterno, resolves contar aos outros que afinal é  possível duas pessoas sentirem aquilo. O mesmo se passa com os poemas, em ciclos temporais mais curtos, porém.

sábado, 23 de março de 2019

Perpétuo olhar

                                                         ao Duarte Belo

Tudo é novo quando de novo olhas

como se uma claridade atrevida

iluminasse a gruta esquecida 

e retocasse aqui e ali 

com enlevo e espanto

a maquiagem das pedras

que jazem prematuras

 na lembrança dos vindouros

quarta-feira, 20 de março de 2019

Primavera tardia

Deito-me ao sol, indiscreto. Reajo sem pudor aos transeuntes. Sou um resto lançado à praia
pela juventude serôdia que me assola, como um copo de vinho entornado sobre alvura de mundo.

Escuto-me assim por dentro, sem remorso de mim mesmo.  Estou cansado. Andei por ai meio século  e só por que uma breve brisa se levantou, acho que devo regressar mais cedo à vossa noite.
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