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04/05/2024

Variações sobre a gata que espera


 (Todas as manhãs, a gata espera que eu lhe abra a porta da rua)


I


A gata espera todos os dias diante da porta fechada.

Entendo-lhe o tédio e a (im)paciência.

Porém, como faria o Criador, tranco a porta à chave,

não vá o caos entornar-se sobre as suas frágeis patas.


II


A  gata leu as cartas da Soror Mariana 

e agora espera atrás da porta a vinda do cavaleiro francês.

Depois salta e empurra-a com as patas, vezes sem conta.

O desejo enlouquece-a, faz-lhe perder o sentido doméstico da vida. 

Soletro-lhe eu em gatês para que ela, ainda que a  custo, perceba:

"Também Eva queria sempre mais e lixou-se."

"Para mim, ela atirou-se da ponte abaixo para a vida",

responde-me a bicha com o seu súbito alfabeto de olhares.


III


Espera, gatinha, espera.

Se te abrisse a porta ias perder toda essa esperança

que te alumia (e devora). 


07/05/2022

Fantasmas




 Afinal, há fantasmas. E ainda bem. Vêm-nos buscar à porta quando chegamos cansados do trabalho a que nos submetemos — maldito século cheio de máquinas mais furiosas que trinta Godzillas irados no topo dos arranha-céus de Manhattan. 

Afinal, há fantasmas, passeando no hall, imperturbáveis no seu caminhar deslizante de passerelle. São nobres frágeis, espadachins assustados, os gatos. Mesmo mortos, continuam no mesmo passo e jeito a andar por aqui. Os seus espectros são, porém, mais reais que muitas outras coisas da casa.  Sofás, tapetes, armários, portas, janelas devem parte do seu significado a esses pequenos felinos. 

Deitam-se ao nosso colo e lambem-nos as feridas invisíveis. Assim escondidas, as feridas ganham uma intimidade connosco que pode durar anos, uma vida até. Se há palavra que os gatos percebem, é essa mesma: «Intimidade». Só mesmo eles — pacientes, compassivos — conseguem esperar que as nossas feridas difusas se revelem autênticas, sob a luz amarelenta de um candeeiro de cabeceira, para as lamber depois.



23/10/2014

15/09/2014

O cão, o gato e o fotógrafo



Enquanto uns roem sem critério e alguns tiram fotografias "porque sim", outros tentam perceber qual o sentido de tudo isto. 

07/08/2008

Gatos & Gatos

Gatos: Quase ninguém fica indiferente aos bichanos. Para alguns, são falsos e não conhecem o dono. Para outros, são calmos e sensuais. O Prof.Agostinho da Silva, que tinha muitos gatos e ao que parece não lhe punha nomes, tem uma frase singular: " O Gato é um animal que se cumpre". Esta frase entende-se melhor quando lemos e/ou escutamos este poema de Fernando Pessoa (O Professor era também um Pessoano assumido):




Titulo: "Gato que brinvas na rua" de Fernando Pessoa


Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.


Bom servo das leis fatais

Que regem pedars e gentes,

Que tens instintos gerais

E sente só o que sentes.


És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.