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| "Sissi" - Foto de Luís Palma Gomes |
06/05/2024
04/05/2024
Variações sobre a gata que espera
(Todas as manhãs, a gata espera que eu lhe abra a porta da rua)
I
A gata espera todos os dias diante da porta fechada.
Entendo-lhe o tédio e a (im)paciência.
Porém, como faria o Criador, tranco a porta à chave,
não vá o caos entornar-se sobre as suas frágeis patas.
II
A gata leu as cartas da Soror Mariana
e agora espera atrás da porta a vinda do cavaleiro francês.
Depois salta e empurra-a com as patas, vezes sem conta.
O desejo enlouquece-a, faz-lhe perder o sentido doméstico da vida.
Soletro-lhe eu em gatês para que ela, ainda que a custo, perceba:
"Também Eva queria sempre mais e lixou-se."
"Para mim, ela atirou-se da ponte abaixo para a vida",
responde-me a bicha com o seu súbito alfabeto de olhares.
III
Espera, gatinha, espera.
Se te abrisse a porta ias perder toda essa esperança
que te alumia (e devora).
07/05/2022
Fantasmas
Afinal, há fantasmas, passeando no hall, imperturbáveis no seu caminhar deslizante de passerelle. São nobres frágeis, espadachins assustados, os gatos. Mesmo mortos, continuam no mesmo passo e jeito a andar por aqui. Os seus espectros são, porém, mais reais que muitas outras coisas da casa. Sofás, tapetes, armários, portas, janelas devem parte do seu significado a esses pequenos felinos.
Deitam-se ao nosso colo e lambem-nos as feridas invisíveis. Assim escondidas, as feridas ganham uma intimidade connosco que pode durar anos, uma vida até. Se há palavra que os gatos percebem, é essa mesma: «Intimidade». Só mesmo eles — pacientes, compassivos — conseguem esperar que as nossas feridas difusas se revelem autênticas, sob a luz amarelenta de um candeeiro de cabeceira, para as lamber depois.
20/04/2018
Poemas de graça - A gata
e uma fragilidade insubmissa.
Quanto se cansa de descansar,
descansa.
23/10/2014
15/09/2014
18/08/2014
06/06/2014
26/02/2013
07/08/2008
Gatos & Gatos
Titulo: "Gato que brinvas na rua" de Fernando Pessoa
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedars e gentes,
Que tens instintos gerais
E sente só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.






