A aspereza da vida é interromper "O Vale Abraão " do Manoel de Oliveira por estar na hora da fisioterapia. São estes momentos que reforçam a subjugação do espírito às leis da condição animal.
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
domingo, 5 de agosto de 2018
"Conto de Verão" de Éric Rohmer
O "Conto de Verão" de Éric Rohmer fala da fragilidade das relações que se estabelecem entre jovens numa estância balnear na Normândia - França. Gosto deste filme, porque gosto de princípios, de ver nascer, dos primeiros passos ainda que todas estas coisas sejam incipientes e algo atabalhoadas. O que faz andar a história (a peripécia) é a hesitação de um rapaz que divide a sua atração por três raparigas: uma amizade-colorida, uma com "nariz-arrebitado" - a namorada oficial - e, por último, uma outra que transpira erotismo e diversão. Como é sabido nestas coisas do amor ninguém gosta de repartir nada e o rapaz acaba por ficar sem nenhuma delas. Ele porém não se mostra especialmente aturdido com o desenlace e regressa à sua cidade mais interessado em comprar uma nova guitarra do que resolver aquele nó-górdio. Alguns filmes de Rohmer são assim. Imitam a vida no que ela tem de mais descartável. Tudo parece muito importante enquanto decorrem os diálogos - e os diálogos franceses são tipicamente tensos e argumentativos - mas tudo é afinal como a espuma dos dias. E como dizem os jornais, o verão é uma estação tonta. Talvez por isso é que gostamos dela.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Em silêncio
Encontro, no meu dia-a-dia, muitas pessoas apaixonadas por Jesus Cristo, bem como pela ética e mística cristãs, mas que continuam teimosamente a afirmar-se ateus.
Pergunto: Não terão eles a omitir a sua conversão, para manterem o seu status quo na hierarquia política ou social que os colocou no lugar que ocupam ? Da mesma forma que faziam aqueles padres que - no final do livro e filme "Silêncio" de Shusaku Endo e Martin Scorsese, escritor e realizador, respetivamente - sobreviviam como apóstatas, resguardando em silêncio a sua devoção por Cristo.
Pergunto: Não terão eles a omitir a sua conversão, para manterem o seu status quo na hierarquia política ou social que os colocou no lugar que ocupam ? Da mesma forma que faziam aqueles padres que - no final do livro e filme "Silêncio" de Shusaku Endo e Martin Scorsese, escritor e realizador, respetivamente - sobreviviam como apóstatas, resguardando em silêncio a sua devoção por Cristo.
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terça-feira, 12 de setembro de 2017
O barqueiro
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| Cena do filme "Dead Man" de Jim Jarmush com Gary Farmer e Johnny Deep |
Os poemas não se explicam, sempre ouvi dizer e de certa forma concordei. O que não quer dizer que não tenham explicação. Neste caso, sinto-me na obrigação de explicar que este barqueiro que nos fala o poema que acabei de escrever e abaixo transcrevo é uma personagem do filme de "Homem Morto" de Jim Jarmush. O filme fala-nos de um barqueiro índio que conduz um homem perseguido e aparentemente condenado ( o ator Johnny Depp) dado o poder dos seus perseguidores, rio abaixo, até ao reino dos mortos. O barqueiro confunde o homem com o poeta inglês William Blake. Mais uma vez, Jim Jarmush não perde a oportunidade para relembrar os seus grandes poetas, como o fez relativamente a William Carlos Williams no seu mais recente trabalho "Paterson". Mas regressando à sabedoria da aceitação da morte personificada pelo barqueiro que nos leva serenamente ou não pelo rio abaixo até ao ocaso da vida, apenas tenho a dizer que a aceitação da condenação é absoluta liberdade. O barqueiro neste processo toma o lugar do pedagogo, um facilitador para esta enorme experiência que é a aceitação da morte.
O barqueiro
Ao homem (quase) morto
é preciso encaminhá-lo
ao seu destino nupcial
onde aquele silêncio
que só a eternidade entoa
apazigua o ruído mecânico e nervoso
das rodas dentadas de viver sol após sol
Assim faz o barqueiro
levando nas suas presas
gentilmente
o homem morto
pelo doméstico rio até ao indistinto mar
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Dois docs, duas mulheres, duas formas de rebeldia
Acabei de ver dois docs comoventes. Um baseado na biografia da pintora Paula Rego. O outro, na cantora norte-americana Janis Joplin. Ambas marcadas pela sua condição de mulheres muito especiais. Têm histórias de vida absolutamente pungentes. A americana brilha e explode, com a velocidade previsível de uma estrela pop nos States dos anos 60. A portuguesa tem uma atitude introvertida e transforma as suas ansiedades, forças e subjetividades num longo percurso pictórico. Não vive tão intensamente como Janis Joplin e frequenta meios mais serenos. Por isso resiste, insiste e vence. Aliás, ambas artistas vencem o tempo, porque ficaram na história do século XX.
O documentário "Paula Rego, Histórias e Segredos" é uma oração ao ser humana. Chamo-lhe oração murmurada, porque a linguagem da pintora é uma espécie de murmuração do seu subconsciente - uma confissão criptada. "Janis: Little Girl Blue" é um grito, daqueles gritos nascidos no pós-guerra, mas não só. Um grito para onde convergem muitos silêncios contidos, o silêncio dos negros (Jazz, Blues) ou o silêncio dos humilhados, renegados e falhados. E talvez seja este o drama interior de Janis na década do amor (anos 60): Querer amar todos e ser amada por todos. Uma missão que se revelaria impossível para uma rapariga gorda e com acne de Port Arthur (Texas) para quem o palco se tornou a melhor forma de ser finalmente amada. Morre de overdose em 1970, como se Janis pudesse desaparecer.
O documentário "Paula Rego, Histórias e Segredos" é uma oração ao ser humana. Chamo-lhe oração murmurada, porque a linguagem da pintora é uma espécie de murmuração do seu subconsciente - uma confissão criptada. "Janis: Little Girl Blue" é um grito, daqueles gritos nascidos no pós-guerra, mas não só. Um grito para onde convergem muitos silêncios contidos, o silêncio dos negros (Jazz, Blues) ou o silêncio dos humilhados, renegados e falhados. E talvez seja este o drama interior de Janis na década do amor (anos 60): Querer amar todos e ser amada por todos. Uma missão que se revelaria impossível para uma rapariga gorda e com acne de Port Arthur (Texas) para quem o palco se tornou a melhor forma de ser finalmente amada. Morre de overdose em 1970, como se Janis pudesse desaparecer.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Uma trindade simples
Como alguém que rasura na casca de uma árvore, não posso deixar de um "Luís Loves Frank Capra" no tronco do Àrvore com Voz.
Os TVcines decidiram passar três filmes (mês de junho) do italo-americano Frank Capra. Todos eles foram nomeados e galardoados com óscares da Academia. Parecem westerns urbanos, com os heróis e os vilões bem definidos, uma história de amor a acompanhar e os heróis sempre a vencer o mal de forma épica, deixando um lastro de moral bíblica ao longo de toda a película.
Que a terra te seja leve, Frank, porque realizaste três obras que me divertiram e inspiraram-me a tentar ser um ser humano melhor.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Deeds_Goes_to_Town
https://pt.wikipedia.org/wiki/You_Can%27t_Take_It_with_You
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Smith_Goes_to_Washington
Os TVcines decidiram passar três filmes (mês de junho) do italo-americano Frank Capra. Todos eles foram nomeados e galardoados com óscares da Academia. Parecem westerns urbanos, com os heróis e os vilões bem definidos, uma história de amor a acompanhar e os heróis sempre a vencer o mal de forma épica, deixando um lastro de moral bíblica ao longo de toda a película.
Que a terra te seja leve, Frank, porque realizaste três obras que me divertiram e inspiraram-me a tentar ser um ser humano melhor.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Deeds_Goes_to_Town
https://pt.wikipedia.org/wiki/You_Can%27t_Take_It_with_You
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mr._Smith_Goes_to_Washington
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| Mr.Deeds goes to Town (1936) |
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| You cant´t take it with you (1938) |
Mr.Smith goes to Washington (1938)
quarta-feira, 29 de junho de 2016
"Academia das Musas" de José Luís Guerin
Um professor de Filologia na Universidade de Barcelona ensina Teoria da Poesia. Recorre a Dante, às suas criações literárias, às suas paixões. Diz que o amor é uma criação literária e que a poesia e as suas derivações, como a música ou a dança, transformam os animais em seres humanos. Fala do amor platónico de Dante Alighieri por Beatrice, do caso de Paolo por Francesca, relatado no "Inferno". Este adultério entre cunhados inicia-se no momento em que ambos lêem uma passagem onde Lancelot e Guinevere se beijam num livro de cavalaria medieval. O professor tenta provar que o amor é coisa mental e não carnal. Entre as alunas e alunos, tem quatro que ganham importância durante o filme-documentário. São as suas musas. A esposa do professor sofre, mas aceita. O professor diz-lhe que ensinar é também seduzir. No final, fica alguma dúvida sobre a natureza das musas e dos poetas. Quem é quem ? Não serão também os poetas musas acidentais ? Não será essa a finalidade da poesia: não deixar que a humanidade se desintegre?
O professor fala ainda de Orfeu e de Euridice. Orfeu falou e cantou aos mortos para trazer à vida a sua amada, quando esta se encontrava já no submundo dos mortos. Fazer poesia é falar com os mortos, estejam eles impressos no ADN ou na linguagem que eles mesmo inventaram para nós, os vivos. Na verdade, todo o poeta sabe disso e tem a secreta ambição de falar com os vivos depois de morto.
É também disto que trata "Academia das Musas" do cineasta catalão José Luis Guerin. O filme de 92 minutos é uma aula do ponto vista formal e conceitual. Está no Monumental no Saldanha. Tem várias sessões, mas a das 19:45 dá muito jeito. E o preço dos bilhetes é de 5 euros. Vá ver o filme e ajude a salvar a humanidade.
O professor fala ainda de Orfeu e de Euridice. Orfeu falou e cantou aos mortos para trazer à vida a sua amada, quando esta se encontrava já no submundo dos mortos. Fazer poesia é falar com os mortos, estejam eles impressos no ADN ou na linguagem que eles mesmo inventaram para nós, os vivos. Na verdade, todo o poeta sabe disso e tem a secreta ambição de falar com os vivos depois de morto.
É também disto que trata "Academia das Musas" do cineasta catalão José Luis Guerin. O filme de 92 minutos é uma aula do ponto vista formal e conceitual. Está no Monumental no Saldanha. Tem várias sessões, mas a das 19:45 dá muito jeito. E o preço dos bilhetes é de 5 euros. Vá ver o filme e ajude a salvar a humanidade.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Locke
Temos dos filmes duas perspetivas. Uma mais técnica e social, na qual enquadramos uma opinião mais genérica e que nos permite dizer aos amigos: "Vê que é bom". A outra é mais subjetiva e ligada à nossa sensibilidade e memórias. O filme "Locke" de Steven Knight liga-se a esta segunda perspetiva. Por isso não posso consciente dizer que ele é muito bom. Tem uma avaliação de 7,1 no índice do IMDB, o que justifica a classificação de um filme de qualidade. Eu achei-o muito bom por razões pessoais, mas não só. O argumento e o guião são uma lição. O filme, com uma estratégia narrativa muito clássica, explora, como a "Odisseia" de Homero, a viagem do herói. Não a do regresso a casa, mas a da partida. Mas se a qualidade do argumento tem uma dimensão clássica, o filme explora depois um novo conceito das vidas atuais, a ubiquidade. Isto é, a capacidade de estar num curto espaço de tempo, a interagir com muitos universos que, neste caso, não se conhecem entre si. E apenas o indivíduo, o protagonista, os interrelaciona . E a se fusão de espaços exclusivos dentro de um automóvel através de uma telemóvel, não bastasse para nos prender a atenção à história, no banco de detrás do automóvel habita ainda um fantasma. E assim numa história onde um problema conjugal e outro profissional se cruzam, surge ainda este outro personagem, morador apenas na psique de Ivan Locke (Tom Hardy).
Nem que seja pelo exercício de assistir a um filme passado dentro de um automóvel, onde o único ator com representação corporal (os outros atores apenas emprestam a voz ao filme) vai dialogando ao telemóvel com as outras personagens (vozes), vale a pena ver esta fita. Uma excelente metáfora sobre o nosso quotidiano na madrugada do século XXI.
Escrito e realizado por Steven Knigth e interpretado por Tom Hardy
Nem que seja pelo exercício de assistir a um filme passado dentro de um automóvel, onde o único ator com representação corporal (os outros atores apenas emprestam a voz ao filme) vai dialogando ao telemóvel com as outras personagens (vozes), vale a pena ver esta fita. Uma excelente metáfora sobre o nosso quotidiano na madrugada do século XXI.
Escrito e realizado por Steven Knigth e interpretado por Tom Hardy
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
"A palavra" de Carl Dryer
Pelo significado do Natal na cultura ocidental e da sua inspiração judaico-cristã, recomendo a todos a visualização do filme de Carl
Dryer, “A palavra”.
O objectivo da minha recomendação tem um sentido critico e
um objectivo pedagógico. Recentrar a consciência em dois aspectos que parecem
esquecidos e são fulcrais na ética ocidental: O milagre e Jesus Cristo. O filme
reflecte sobre o regresso espiritual de Jesus Cristo à terra (Um estudante de Teologia que fala como se fosse Jesus Cristo), bem como do cariz sua mensagem e
da importância do milagre, como último reduto da esperança humana. O milagre é o herdeiro natural do Deus Ex Machina das peças da antiguidade clássica, ou seja, o momento em que um Deus aparece para mudar a vida dos mortais.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Não entres docilmente nessa noite serena
"Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia,
odeia, odeia a luz que começa a morrer."
Estes versos do poeta galês Dylan Thomas, são várias vezes repetidos no filme "Interstellar" de Christopher Nolan que recomendo desde já. Quanto aos versos, são uma espécie de grito de revolta contra o tempo.
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia,
odeia, odeia a luz que começa a morrer."
Estes versos do poeta galês Dylan Thomas, são várias vezes repetidos no filme "Interstellar" de Christopher Nolan que recomendo desde já. Quanto aos versos, são uma espécie de grito de revolta contra o tempo.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Mónica e o desejo
É verdade que foi uma descoberta serôdia aquela que fiz através dos canais-cabo da TV Cine. O que descobri foram alguns filmes do realizador sueco Ingmar Bergman.
Este realizador que inicia a sua formação em Teatro, inspira-se nele quando transporta para a sétima arte a beleza dos planos, o trabalho de luzes, a força das personagens (muito bem definidas, aliás.) e um conjunto de temáticas muitos especiais que me parecem devidas ao facto do seu pai ter sido pastor da igreja protestante.
Ontem, televisionei "Mónica e o desejo"(1953). A personagem que intitula o filme entre e sai do filme como um leitmotiv que arrasta atrás de si o sentimento tão humano do desejo. O desejo está tão fortemente concentrado naquela personagem e a sua habilidade para alcançar o objeto desejado é tão tosco que arriscaria a chamar a este filme "A Madame Bovary, segundo Ingmar Bergman".
Mónica - ao contrário do seu companheiro que estuda engenharia para construir o devir - surge sempre incomodada e inconformada com a realidade, o que a leva a uma constante condição de nómada. Entra na narrativa e sai igual, como se a sua insatisfação fosse um indomável monstro que vive sem coito pela vida fora.
Este realizador que inicia a sua formação em Teatro, inspira-se nele quando transporta para a sétima arte a beleza dos planos, o trabalho de luzes, a força das personagens (muito bem definidas, aliás.) e um conjunto de temáticas muitos especiais que me parecem devidas ao facto do seu pai ter sido pastor da igreja protestante.
Ontem, televisionei "Mónica e o desejo"(1953). A personagem que intitula o filme entre e sai do filme como um leitmotiv que arrasta atrás de si o sentimento tão humano do desejo. O desejo está tão fortemente concentrado naquela personagem e a sua habilidade para alcançar o objeto desejado é tão tosco que arriscaria a chamar a este filme "A Madame Bovary, segundo Ingmar Bergman".
Mónica - ao contrário do seu companheiro que estuda engenharia para construir o devir - surge sempre incomodada e inconformada com a realidade, o que a leva a uma constante condição de nómada. Entra na narrativa e sai igual, como se a sua insatisfação fosse um indomável monstro que vive sem coito pela vida fora.
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| Atriz Harriet Andersson |
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Inside Llewyn Davis ou "O direito à ilusão"
Inside Llewyn Davis (A propósito de Llewyn Davis) é um
manifesto do direito à ilusão. Numa história circular, onde a metáfora de
Ulisses regressado a Ítaca transporta-se para o homónimo gato e para o próprio
Llewyn, demonstra que o talento (Inside) e a personalidade de um homem
determina o seu destino independentemente do seu sucesso. Llewyn acaba por
aceitar o seu fado, a sua cidade (Nova Iorque) e a relação áspera com aqueles
que o rodeiam e que o acham, cada um há sua maneira, um falhado especial. O gato que acompanha a história é um alter ego do músico, conotando a personagem com a eterna mística dos gatos: Orgulhosos, independentes, mas demasiados frágeis para se imporem. Digamos que à semelhança dos domésticos felinos, Llewyn também é apenas tolerado, como um animal de estimação, por todos aqueles que lhe querem algum bem.Deixam-no inclusivamente dormir no sofá, como aliás também se faz aos gatos caseiros.
A
música Folk é o pano de fundo. A seleção da banda sonora e a forma natural como
as musicas vão acontecendo, ora como um canto órfico de Llewlyn, ora
apresentadas com o travo de humor amargo e vulgar, é simplesmente genial. Só por ela, vale a pena assistir a esta fita.
Inside Llewyn Davis é um filme (levemenete) hollywoodiano dentro do
espetro independente dos Cohen, como narrativa que nos deixa a sonhar e com
vontade de aprender a tocar violão para pedir esmola na estação do Marquês. Tudo
o que este filme apresenta é irrepreensível: Atores, banda sonora, argumento,
fotografia, realização.
Só posso dizer outra vez: Obrigado, irmãos Cohen.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
"A Luz da Terra Antiga", Luís Oliveira Santos
A Academia Portuguesa de Cinema anunciou a sua lista de nomeados aos Prémios Sophia 2013. Na categoria de "Melhor curta metragem documental" foi nomeado o documentário "A Luz da Terra Antiga", Luís Oliveira Santos. Este trabalho aborda o trabalho de campo efetuado pelo fotografo Duarte Belo na produção do seu livro "Portugal - Luz e Sombra, O País depois de Orlando Ribeiro" Ed. Temas e Debates, 2012.
Para quem como eu já viu este documentário, entende que esta nomeação foca-se no excelente trabalho de Luís Oliveira Santos e no tema aliciante do trabalho de campo do fotografo Duarte Belo. Para além, de uma excelente seleção musical.
A Luz Da Terra Antiga - Movie Trailer from Luís Oliveira Santos on Vimeo.
Para quem como eu já viu este documentário, entende que esta nomeação foca-se no excelente trabalho de Luís Oliveira Santos e no tema aliciante do trabalho de campo do fotografo Duarte Belo. Para além, de uma excelente seleção musical.
A Luz Da Terra Antiga - Movie Trailer from Luís Oliveira Santos on Vimeo.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
O mentor e o crente
O que mais impressionou na personagem de Freddie Quell é a sua capacidade em acreditar. Relevante também, por anteposição, é a forma como o cinema norte-americano trata aqueles que acreditam de forma absoluta em fenómenos fora dos seus cânones. O portador da fé é representado como um psicótico, alcoólico, sem rumo ou profissão fixa - enfim um renegado social. Na realidade, no espartilho lógico e linear de uma sociedade profundamente marcada pelas relações diretas de causa-efeito, acreditar sem razão parece aberrante, mas não o é. A fé é uma qualidade profundamente humana e ajuda-nos a seguir ou a prosseguir. Porque ela traz-nos sempre força redobrada para continuar e ultrapassar os obstáculos. Quando se acredita no mais profundo (ainda que misterioso) e se desvaloriza o superficial, a fé acontece. E creio que foi isso que aconteceu à personagem Freddie. Freddie ignorou o cepticismo dos outros membros da seita, o misticismo barato dos rituais e algumas conclusões mais absurdas em redor das teorias do Mentor. Porém, aquele "Mentor" acreditou nele, foi o pai calmo e tolerante que ele nunca tinha tido. A relação que se foi estabelecendo entre eles, ao longo do filme, ganhou uma dimensão sagrada e, quando assim é , o homem cresce e ultrapassa-se, porque o crente ganha confiança para se afirmar.
A ciência interessa-se apenas por matérias que pode comprovar. A fé não é um fenómeno comprovável pelo seu modelo. Ela está no âmbito da religiosidade e essa está em crise no Ocidente ou foi trasladada para uma dimensão "Disney", ou seja, infantil e desadequada da maturidade da dimensão histórica europeia.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Django
"Django" é tarantino, morricone, spaghetti e ketchup. Estes 4 fatores dizem respeito à música, à narrativa, ao argumento e sobretudo ao estilo peculiar deste autor. Tarantino traz de novo à superfície a temática racista na perspetiva sulista (2 anos antes da guerra da Secessão). Parece um tema esgotado, mas Quentin recicla-o, da melhor forma, com a criação de um Western com pradarias, vilões, xerifes, heróis improváveis, cavalos e, claro está, muitos balázios e partes do corpo humano esfaceladas ou mesmo completamente arrancadas.
Quantos aos atores tem uma interpretação simples, na melhor aceção da palavra. Há quase um toque de farsa no estilo da representação. Parabéns também pela banda sonora que aproxima as cenas do publico de uma forma magnífica - aquele Hip-Hop durante a última (e crucial) cena de tiroteio que opõe Django à canalha sulista é uma pérola.
Numa perspetiva muito pessoal, "Django" é univocamente um Tarantino e só por isso um filme juvenil. Mas sabe sempre bem, alimentarmos a juventude que nos habita numa sexta-feira à noite.
PS. Se alguma vez tiver um gato preto, vou chamar-lhe Django.
sábado, 9 de junho de 2012
Dois filmes, uma teoria.
Vi dois filmes que alinham por uma teoria: O fim do capitalismo ocidental, nos moldes como o conhecemos. Os filmes eram o "Hunger games" (Jogos de Fome) de Gary Ross e o "Cosmopólis" de David Cronenberg e baseado no livro homónimo de Don DeLillo. São duas propostas estéticas diferentes. O "Jogos de Fome" é uma ficção científica no sentido mais puro e habitual do conceito. Baseia-se num imenso Big Brother onde os candidatos se eliminam literalmente até encontrar um vencedor. No segundo filme, protagonizado pelo vampiro Robert Pattinson, a história gira à volta de um jovem de 28 anos, especulador bolsista em Wall Street e viciado em sexo. O sexo é tratado nesta fita como forma de dominação, onde cada mulher (uma delas, a quarentona, protagonizada por Juliete Binochet) assume um arquétipo social que se subjuga ao poder económico.
Os "Jogos de Fome" assumem particular interesse, porque foi produzido pela industria cinematográfica americana. O filme ganha assim uma relevância crítica que não teria se tivesse vindo de uma produtora independente.
terça-feira, 27 de março de 2012
Bovary, um paradigma social
Um museu sincroniza os seus utentes com o passado. Fá-lo através de artefatos, documentos e experiências.
A Cinemateca Portuguesa concretiza a sua aspiração de museu do cinema da melhor forma, ou seja, através das emoções, através de histórias de celulóide que nos revelam as culturas humanas. Não só as culturas atuais, como aquelas que surgiram antes do cinema. E esta é a "deixa" para falar-vos de "Madame Bovary" de Vicent Minnelli (1949) - filme a que assisti no passado Sábado nesta sala de espetáculos.
Este soberbo filme é um dos vetores de análise de um romance homónimo marcante da cultura ocidental. Ele demarca a transição do romantismo para o realismo, impondo-se assim como uma rutura epistomológica. A rutura coloca dois espaços em contato. E quando os espaços se encontram, nascem novas perguntas. E assim avançam as mentalidades de rutura em rutura, de pergunta em pergunta.
Uma obra de arte que nos questiona, cumpre sempre bem a sua função. E a história de Emma Bovary mostra-nos o quão ténue é a linha que divide a culpado da vítima, e isso inquieta o espetador porque tem dificuldade em situar-se. Emma Bovary é uma mulher deslumbrada por um mundo de romances e revistas cor-de-rosa. Consequentemente esta mulher não consegue realizar-se no mundo real, sendo por isso vitima de um conjunto de personagens que gravitam em seu redor, e que se aproveitam da sua ingenuidade social. A conclusão realista de Gustave Flaubert, autor do romance, é simples: A impossibilidade de viver o espaço dos sonhos na vida real, porque eles são uma representação onírica e subjetiva que não encaixa com a forte coação social que nos contextualiza.
Emma Bovary é felizmente uma mulher que viveu num mundo (Séc.XIX) onde a condição feminina estava ainda por se antecipar. Mas se que a figura "Bovary" é de facto História apenas, o paradigma "Bovary" está sempre latente na existência humana. E, por isso, nos fragiliza e, por isso, nos humaniza.
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