Sou, por agora, mistério em bruto,
sortilégio ainda incandescente.
São assim as manhãs de inverno,
quando o sol aparece sem avisar,
para almoçar.
Se apenas existisse esta manhã,
seria suficiente:
o passado reconstituído
em filigrana,
o futuro coisa mínima,
carpa a nadar, previsível,
num lago semi coberto de folhas.
É isso o que faço:
exercito até ao meio-dia
a contenção do tempo.
Alguém, porém, bate
na porta grossa de carvalho
que construí para esta casa temporal.
Bate e insiste
com mãozinhas delicadas,
afiadas e subtis;
insiste, insiste.
“Deve ser uma criança”, penso.
Quando abro a porta, ninguém.
Só uma sombra desce as escadas, apressada,
e deixa no tapete
uma carta fechada.
Prefiro não a ler, por enquanto.
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| Fotografia manipulada digitalmente ©Jeffery C. Becton, EUA @jefferybectonstudio |

3 comentários:
Muito bom
Há sempre uma casa nos caminhos da memória que esclarece o passado. Se fosse eu abria a carta.
Aproveito para lhe desejar um Natal cheio de amor e um ano de 2026 com saúde e conforto para si e para a sua família.
Um beijo.
Luís,
Este teu poema cria um tempo suspenso, delicado e interior. A manhã de inverno basta, inteira, e o gesto de “conter o tempo” transforma o presente em morada. A batida na porta, a sombra e a carta não lida introduzem um mistério sutil, sem pressa de resposta. O poema termina onde a inquietação começa e é justamente aí que ele permanece em sons
Abraço
Fernanda
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