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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Testemunho de um peregrino por alturas do Pesah


Era ainda criança, quando vi o nazareno, na estrada da Galileia, repetido no pó magro que mesmo desfocando anuncia. Caminhava entre uma turba de sangue borbulhante - mais tarde derramada sob as patas incoerentes dos leões.

"Não há pai sem filho." - pensei - "Não há filho que não amemos".

Eu juro que vi o nazareno no espelho fosco daquele pó tão leve que chegava ao céu, naquela carne interina que lentamente se transubstancia em palavras e verdade.

Na verdade vos digo, eu vi o nazareno e lembro-me disso muito bem. É como se o visse todos os dias, passando e  olhando-me, naquela estrada que vem de coisa nenhuma para o templo de Jerusalém.


Algures perto Jerusálem, 3 de abril de 33 D.C.



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Logo por debaixo da pele...




"Il pleure dans mon coeur / Comme il pleut sur la ville " - Paul Verlaine   (1844-1896)

Ele estava desesperado e sem boca. Inflamado e sem inchaço aparente. Queria ser um poeta melhor,  mas havia uma extensa porção de razão que lhe faltava ainda visitar. Para além desse desafio, choviam demasiadas preocupações dentro dos seus versos.  Queria ser um engenheiro reconhecido entre os seus pares, mas apenas construía, num silêncio desvairado, castelos de éter.  Agora ele percebia porque foi sempre avesso aos atributos com que os outros  o queriam enjaular, tão avesso à especialização dos sentimentos, tão inquieto entre os vidros do pequeno quotidiano. Não queria limites e só por isso corria nas planícies de palavras. Escrevia espirais para se embriagar, linhas paralelas, para ter uma singela sensação de infinito. Escrevia também rectas concorrentes pelo prazer de conhecer alguém. E assim  preencher os  momentos raros de solidão indesejada.

Tinha quatro gatos em casa e nenhum possuía nome.

Teatro era a palavra mais certa para definir a viagem que ele presumia fazer pela vida adentro. Uma viagem que, tirando ele, ninguém via ou ouvira falar. Uma viagem apenas fantástica porque ele mesmo se enlouqueceu em consciência, para distorcer o tédio que o enrolava como uma onda e o atirava à praia.

Devido à sua relutância em ser nomeado sempre pela mesma palavra ou reconhecido por um rosto apenas, gostava que o chamassem somente de ator, o senhor ator. Estava convicto que eram sobretudo os substantivos comuns que religavam os homens diante das coisas. Seria um daqueles  atores que se partem em cacos e que se atiram depois  pelos palcos dispersos na cidade de Deus. Esse Deus só às vezes visível e tangível, mas em quem tinha  a preciosa esperança da sua redenção.

Tomou mais um ansiolítico como quem se embrenha num exercício de Yoga. Apesar do desalento, não desistia.  "Ó meu Deus, como posso eu desistir antes de começar sequer?" - pensava ele e ria por dentro.  O desespero é absurdo e o absurdo é ridículo e o ridículo fazia-o rir. Por isso, gostava tanto de rir. Porque conhecia absolutamente o absurdo e a loucura que dele deriva.

Abriu o móvel da sala e escolheu um dos álbuns habituais. Meteu a "Inquietação" do José Mário Branco a tocar: "Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer/ Qualquer coisa que eu devia resolver/ Porquê, não sei/ Mas sei/ Que essa coisa é que é linda". Estes versos soavam-lhe como um hino. Logo, a seguir pôs a tocar um samba antigo para compensar tanto lirismo que, em contacto com os ansiolíticos, podia acordar o vulcão cardíaco e incendiar os olhos da razão.

Se tivesse sido músico ou pintor ou escultor, teria concertos e exposições e galerias e alunos e discursos, mas era apenas um auto-determinado ator e todo o ator é um poeta se verdadeiramente o for. Porque o poeta inventa o mundo inteiro por um breve instante. Depois mete-se dentro dele e os outros acreditam na sua ilusão. Mais tarde, fecha-se  o pano. Alguns espetadores aplaudem por pena. E o poeta ali fica a sufocar em realidade, como um peixe no cais, ainda aturdido pelo sonho, pelas luzes, pelos aplausos com que os outros brindaram a sua nudez.

Ser poeta é querer estar nu, mesmo que o granizo não dê tréguas. Por isso, todos aqueles heterónimos,  pseudónimos, suicídios, afastamentos,  bebedeiras secas ou molhadas são apenas fugas feitas por pudor e restos de preconceito. Por isso, aquele frio que faz ansiar por outro corpo que nunca chega.

Dizem que demasiado oxigénio mata.Talvez por isso  ele recusava respirar ou deixar correr qualquer  corrente de ar pela ferida aberta. Não gritava, não inspirava, não suspirava e não morria. Se faz sentido para um morto, não beneficiava  um vivo levemente  inquieto, como ele era.

Chovia lá fora. O comboio, como habitual,  passou perto da  janela e estremeceu-lhe o alento. Mas passava sempre. Passava e nunca ficava, ao contrário daquele desespero sem boca sequer.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Bárbaro

Passei por ele quando regressava a casa. Sentado no degrau da porta, com uma rapariga ao seu colo - adorando-o como a um deus pagão - lançou-me um olhar ambivalente. Meteu-me medo e suscitou-me esperança.


Tinha uma tatuagem no pescoço, para que nenhuma camisa a esconde-se. O "69" estampado na T-shirt e nos olhos- como se fosse um  "James Dean" de Sete Rios.

Como o velho imperador romano que espera a chegada dos bárbaros que tomarão o império, também eu olho, vezes sem conta, para o meu correio eletrónico, à espera de um email anunciando a chegada dos  bárbaros. Vêem ou não ?

Este rapaz seria um deles ? Duvido, mas não deixo morrer, porém, uma intíma esperança.



Nota: Esta ideia foi inspirada no poema de Konstantinos Kaváfis "À espera dos bárbaros"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Pátio dos Deuses - Parte II


Os serões tardios do pátio dos deuses tinha a companhia especial do meu amigo Nelson. Um rapaz peculiar na sua essência. A sua voz era fina, e aos nove anos ainda não falava correctamente. Na nossa turma era o elo mais fraco, quem diria que ele seria alguém. É normal. A natureza filtra os melhores. Os fracos caem nas teias do fado e são esmagados no desespero. Bem, mas voltando ao essencial deste fulano. Passávamos horas no pátio, brincávamos, imaginávamos, atirávamos pedras ao comboio, naquela altura nem nos pareciam pedras, talvez o utilize o termo meteoros para qualificar aquilo que realmente atirávamos. Esquecíamos o leito do destino. Éramos livres . O Nelson era o meu melhor amigo, porque era o mais fraco, sempre amei causas perdidas. Ainda hoje procuro causas para lutar . Os anos foram passando rápido, vertiginosamente rápido. Fomos engolidos pelas marcas do tempo .


Hoje já nem sei quem é o Nelson. Aquilo que ele verdadeiramente é. Como é que as chagas do tempo fizeram–me esquecer os fracos ? Agora só me lembro dos vencedores. Em mais um momento introspectivo, questiono o porque do esquecimento.


Eu queria mesmo lembrar-me deste derrotado. Ele era mais que um simples esgazeado para mim.

Ouvi dizer que está em Leiria. Empacotou os argumentos da infância e é recluso de uma melodia melancólica das teclas de uma teclado informático . Esta angustia dá-me agonia interior. É algo com que não me conformo. Eu acho o passado tão confortável e cada vez mais tenho pavor da mudança. Quero abraçar o Nelson. Dizer-lhe que volte, porque o pátio espera-o. E a infância, essa continua sentada no banco do parque à espera que ele venha com a sua fraqueza .

Dedicado ao meu amigo Nelson, um abraço e um desejo sincero para a sua vida futura e para os seus sonhos.



Pedro M. de Castro

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Páteo dos Deuses - Parte I


É a festa da folia no paraíso. Já os deuses culminaram as suas crenças em nós. No seu pátio passam horas a arrancar historias e murmúrios do passado como tentáculos majestosos. No pátio ninguém é rei , ninguém é discípulo, não há ordens, nem assembleias, nem hipocrisias é apenas um pátio perdido na assombração da periferia lisboeta. O pátio onde nasci, vivi e provavelmente morrerei, significa o ex libris da minha vida. Tantas marcas de vidas cravadas naquele pátio tosco, tantos suores, ambições, nervos, desgostos e amores . Lembro–me de tudo o que por lá já passou, dos mais insignificantes aos mais relevantes. Sei tudo isto porque aquele pátio estranho, cinzento e apagado é a minha vida, é a minha alma. Hoje vejo as calçadas como passado, outrora implicavam futuro. Mas tudo o que tem um grande passado, tem uma grande historia.
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