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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Ler

Leio, ó que prazer, como se vivesse vidas infinitas ou uma infinita vida. Leio como se a própria vida fosse água a correr entre as pedras, peripécias calcárias de personagens insustentáveis ao sol de julho.

O tempo abranda sempre que o livro se abre e prepara o voo. Coloco os óculos de mergulho e, agitando as pálpebras, percorro as palavras-corais. Logo a realidade foge como um cardume assustado pelo rumor crescente da fantasia.

Humildemente, peço tudo. Ambicioso, não peço mais que nada. Nada mais que a mentira verídica.

sábado, 24 de novembro de 2018

A queda dum anjo



Vários amigos, falavam de "A queda dum anjo" de Camilo Castelo Branco como uma sátira à política, mais concretamente à corrupção dos bons valores de todos aqueles que entram na política por fortes convicções morais e cívicas e acabam por não resistir às tentações do poder, de ter uma audiência privilegiada e uma crescente capacidade de influência. Este arquétipo adapta-se bem ao cidadão brilhante que nado e criado nas zonas afastadas das principais urbes chega à cidade para influenciar, para que a sua vontade seja levada em conta entre aquelas que dirigem o rumo do pais. Os exemplos em Portugal são imensos e mesmo quando esta migração "Campo-Cidade" não é física mas sim cultural, porque a migração física terá sido efectuada pelos progenitores que trouxeram do ambiente provincial um sistema de valores que estruturam estes novos citadinos. Assim de repente, lembro-me de António Guterres, José Sócrates, José Hermano  Saraiva, recentemente - mas a história politica e cultural portuguesa está repleta de personalidades que trazem esta força de vencer da chamada "província" para a capital. Calisto Elói - personagem principal do romance de Camilo - agrega esses valores e destino. Tem convicções fortes e decididas sobre matérias como o luxo, a política e sobretudo sobre a forma de estar a vida. Em contacto com uma realidade mais complexa que invade a sua vivência diária, os seus valores alteram-se e este facto manifesta-se tanto no seu pensamento político - de conservador-legitimista torna-se um liberal-progressista - como na sua forma de vestir, fumar ou orientar a sua vida sentimental.

É precisamente, neste âmbito que discordo de todos aqueles amigos que me falam na corrupção do carácter do Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas. Ele não quebra, mas sim evolui. Vinculado a um pensamento estanque e estéril, oriundo de um casamento sem amor efetuado em Caçarelhos com a sua mulher, D.Teodora de Figueiroa, encontra na cidade o amor e o prazer pela vida. Mas não perverte os seus princípios de verdade. Apenas se afirma com a mesma frontalidade e coragem  que  antes defendem uma conduta conservadora e baseada no estudo dos clássicos - livros onde se alienava em parte do tédio de um casamento sem paixão - numa nova vida com paixão, beleza e descendência (dois filhos).

Este romance de Camilo será um momento de transição literária entre o romantismo para um romance realista e ao mesmo tempo satírico ao jeito de Eça de Queiroz. O que me fascinou foi realmente para além de todo o humor satírico com que descreve a paisagem da política parlamentar portuguesa, aquele final onde o amor ao belo e à vida se sobrepõem às caquécticas estruturas de uma outra visão da vida - teimosa e teoricamente pura, mas na verdade estéril e alienada. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A voz da selva


No livro "Apelo da Selva" de Jack London, um cão de guarda estimado pelo seu dono, juiz norte-americano, é raptado e vendido a prospectores  de ouro do Alasca. A partir desse instante a sua vida altera-se radicalmente. Confrontado com múltiplas adversidades, Buck, assim se chama o cão, vê-se obrigado a lutar para sobreviver. O sofrimento do paraíso perdido, da hipotética injustiça, da inevitabilidade das lutas tornam, Buck, um cão diferente. Desenvolve uma  personalidade  confiante crescente, tendo esta como estrutura base, a luta pela sobrevivência. A pergunta que subsiste na consciência do leitor é a seguinte: Buck transforma-se impulsionado pelas contingências da nova vida ou retorna à sua condição ancestral, neste caso, de um selvagem ?

Jack London sabia que a vida era dura.  Mesmo assim não resistiu e parece que  se deixou  vencer pela melancolia. Que importa,  Jack, todos, mais cedo ou mais tarde, nos deixamos vencer por ela. Normalmente apenas lutamos quando vale a pena. Quando a voz da selva ecoa no nosso desejo e desafia-nos até ao limite da derrota ser incurável.





sábado, 4 de agosto de 2018

A subida às árvores

Acabei de ler "O Barão Trepador" de Italo Calvino. Tinha-o na prateleira há anos e por acaso regressou-me às mãos. Calvino relata a vida de um rapaz que se revolta contra o facto de o pai, Barão de Rondó, o obrigar a comer caracóis. Na verdade, os caracóis são apenas um motivo caricato, para o choque histórico que já se vislumbra: as revoluções liberais, o republicanismo francês, a revolução francesa e os seus ideais e por fim Napoleão. O romance fantástico decorre essencialmente na Itália do século XVIII - dominada pelos Habsburgos da Áustria. O jovem barão representa um novo sentimento: aquele que está mais perto do natural e por isso a sua revolta expressa-se em subir às árvores e passar a viver por lá sem descer nunca ao chão - prodígio da imaginação de Calvino e de uma Europa  de bosques contíguos de árvores ainda e apenas europeias. Em cima das árvores, vive romances, cultiva o espírito motivado pela onda de curiosidade trazida pelos Enciclopedistas, dá corpo e voz aos movimentos de emancipação dos povos e acaba na desilusão de Napoleão. Como é habitual a revolução não cumpre inteiramente as suas premissas, mas produz mudanças irreversíveis na política europeia mesmo sem cumprir a "liberté, equalité et la fraternité". Cosimo, assim se chama o barão romântico, acredita radicalmente nesses ideais e expressa-a de forma desabrida.

Nos momentos de transição, os homens ficam desorientados, não sabem para onde se dirigir, nem que conselhos dar aos filhos. O futuro está enublado e ninguém o consegue cingir. A decisão de Cosimo é uma decisão de ruptura, nunca entendida pelo pai, mas respeitada.
As civilizações acabam muito antes de desaparecerem. Talvez a nossa esteja a desvanecer para que outra possa enquadrar a Europa. Acredito que sim. E espero que como Cósimo possamos viver se não exclusivamente, pelo menos mais perto das árvores.

Há mais de 10 anos chamei a este diário "Árvore com voz". A voz era provavelmente de Cósimo, o Barão Trepador.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Entre margens

"Sabes que o meu sonho foi sempre uma cozinha nova", diz-me ela.

"Queremos um clube futebol democrático", dizem eles.

Cândidos desígnios, os nossos.

As lágrimas afloram-me, mas secam-se logo contra os raros grãos de luz que vigiam este meio-dia de um julho sombrio.

Caminho entre margens - e talvez não seja por acaso que tudo isto acontece na lúgubre e  humana Almirante Reis. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Os melhores poemas

Qual o poeta que não queria ter escrito um grande poema ? Um daqueles que saem da caneta durante uma semana, um mês ou um ano inteiro e que depois de uma emenda aqui, um corte acolá, o poeta olha-o exausto e pensa:"Já está.".

O que sentiu o Pessoa depois de ler a sua "Tabacaria" ? Pensou que era "A Obra" ou que apenas se tratava de mais um esboço para a arca ? E o grego Kavafis, na sua Alexandria, depois de escrever "À espera dos bárbaros" ? Como conseguiu ele reduzir tanto em tão pouco e com tanta beleza - espero eu, que não sei ler grego. E Ruy Belo, como se sentiu ele depois da "Muriel" ? Terá ele pensado que podia viver sem ela, sem elas - suas musas de fumo com quem trocaria olhares nos átrios dos cinemas ou nas esplanadas de Madrid ?

Por mais insignificante que seja, todo o poeta tem a esperança envergonhada de com algumas linhas - vindas sabe-se lá donde - ficar no imaginário coletivo das gerações futuras e tornar algo por si criado, ou montado se assim quiserem, numa referência  clássica.

Fernando Pessoa

Konstatinos Kaváfis

Ruy Belo



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Maria Teresa Belo

Já sentia por ela uma certa  ternura antes de a conhecer. Tudo porque ao ler "O elogio de Maria Teresa" de Ruy Belo, pressenti refletida naquele poema a dimensão de Maria Teresa Belo, mulher e mais tarde viúva do poeta. Depois conheci-a felizmente e pode confirmar e aumentar a consideração que tinha por ela, como mãe, professora e mulher do poeta Ruy Belo - condição que ela sempre abraçou com firmeza e determinação. Ontem soube que faleceu, depois de uma luta de seis anos com a doença. Sempre a vi porém animada e esperançosa. Foi hoje a enterrar em S.João da Ribeira (Rio Maior) juntando-se ao marido que ali jaz.  Em sua memória, transcrevo dois  versos do poema atrás citado que depois de os ler jamais os esqueci:

"Contigo fui cruel no dia-a-dia/ mais que mulher tu já és hoje a minha única viúva"

in "O elogio de Maria Teresa" do livro "Nau dos Corvos" de Ruy Belo


Dra. Maria Teresa Belo em sessão sobre a poesia de Ruy Belo
(Rio Maior, 15/5/2013) 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Em silêncio

Encontro, no meu dia-a-dia, muitas pessoas apaixonadas por Jesus Cristo, bem como pela ética e mística cristãs, mas que continuam teimosamente a afirmar-se ateus. 

Pergunto: Não terão eles a omitir a sua conversão, para manterem o seu status quo  na hierarquia política ou social que os colocou no lugar que  ocupam ? Da mesma forma que faziam aqueles padres que - no final do livro e filme "Silêncio" de Shusaku Endo e Martin Scorsese, escritor e realizador, respetivamente -  sobreviviam como apóstatas, resguardando em silêncio a sua devoção por Cristo.  

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Homem Só

Quando olhamos para um fenómeno pela perspectiva sociológica, usando as ferramentas analíticas para estudar o caso, obtemos política, legislação e eventualmente transformação. Quando olhamos para um fenómeno e vinculamos a nossa atenção num indivíduo apenas, temos  literatura, emoções e drama. É de facto esta última perspectiva que mais me interessa: a ovelha perdida, a moeda reencontrada ou o regresso (ou não) do filho pródigo.

Se contarmos a história do indivíduo, em detrimento, da do grupo ou da classe a que ele pertence, talvez ele se sinta protegido, porque agora está visível e tentou-se compreendê-lo. Talvez narrar o seu drama seja o pequeno contributo para que o "Homem Só" perca aquilo que o filósofo José Gil chama de "medo de existir" no seu livro "Portugal, Hoje - O Medo de Existir"


terça-feira, 21 de março de 2017

Ondjaki na Amadora

Ondjaki tem 40 anos, e já é um grande escritor angolano. A sua vasta bibliografia e a lista de prémios que lhe foram atribuídos não deixam qualquer dúvida. O melhor é mesmo lê-lo. Mas se quiserem, ouvi-lo e falar com ele, na próxima quarta.feira (22 de março), pelas 18:00H na Biblioteca Central da Amadora. Ele e a Editorial Caminho vêm até à cidade da Amadora lançar o seu novo livro "O Convidador de Pirilampos". Mesmo que chegue atrasado, esperamos por si.

Uma organização Clube Literário da Amadora, Amadora - Passado, Presente e Futuro e Biblioteca Piteira Santos - Amadora


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ofício exato

"Persistir em dar forma ao que permanece escondido na escuridão (e que jamais viste) poderá ser considerado teimosia inconsequente, mas, também, o mais puro dos actos do escultor" 

em "Breves notas sobre o medo", 
Relógio d'água (2007) de Gonçalo M.Tavares


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Um dia na aldeia

Obrigo-me a escrever o meu dia na aldeia. E se o escrevo com melancolia, em vez de astuta leveza, é apenas por tique urbano e nada mais.

Começo o pequeno-almoço com o toque a finados, como paisagem sonora. Ao qual se juntam, o chilrear das andorinhas e as vozes na rua. Estas últimas, despertam-me a tentação de ser humano. Ainda assim resisto, enquanto barro a manteiga no pão.

Avança um carro pela rua abaixo. Rezo alguns estribilhos para que não seja dos funerários. Afinal não era. Ficaram as andorinhas barradas de manteiga branca e  uma crença estranha que salvamos a alma se comermos este pão espanhol tão branco, imaculado.

Aqui o vento imita o tráfego das grandes cidades. Percorre as ruas, conflui, dispersa-se, apita amiúde, num sopro sibilante. À semelhança do roncar dos motores das grandes avenidas, se  incomoda, fecha-se a porta. Que importa. Dentro de casa, com portas e janelas fechadas, o exterior é uma abstração, um reflexo de  realidade, uma construção  com alicerces de experiências passadas e com paredes pintadas de ilusão. Por agora, deixo Platão para mais tarde. Afinal, pensar é estar doente dos olhos, como escreveu o mestre Caeiro.

Desço barbeado à escarpa altaneira num ritual que cumpro há anos. O lugar chama-se o Salto da Cabra. Foram os contrabandistas que puseram o nome. Levo um manto branco sobre os ombros, uma mitra(1) escarlate na cabeça e carne antiga numa bandeja de prata para as rapaces (2).

No Salto da Cabra, fico a sós com as terras a perder de vista. Ali, julgo-me  um sacerdote, um xamã(3), um homem do lixo, sei lá...Fecho os olhos, como há pouco fechava as portas e janelas, e deixo de ser uma coisa individual. Agora faço parto do todo, como se não morresse nunca, como se fosse uma personagem bíblica ou um pequeno cristal incrustado ao granito.

Volto a casa por uma estrada feita por mãos e pés invisíveis. Depois escrevo tudo isto como uma fotografia tremida.

O almoço estende-se como uma pequena praia entre a infância e a adulta idade do vinho. Adormeço depois sobre o clamor de uma aguardente de medronho - o sabor mais verídico que conheço da terra.

À tarde, desço ao cemitério, para sentir quem morreu nos últimos mil anos. Pedir aos céus, que eles descansem em paz nesta aldeia, é redundante.

No cimo de um barranco, afago a penugem da pedra. Chamam-lhe líquenes, quase todos. Sinto a terra excitada, húmida. É primavera. Fico embevecido, vencido neste jogo antigo. Vergo-me de novo diante a paisagem: cansaço ou veneração ?

Rudeza e ternura são as duas palavras que encontro no bolso roto das calças para escrever esta sublimação que me aflora os olhos, seca a garganta e de, sangue novo, me enche o coração.

À noite, a escuridão vira o mundo do avesso e só vejo o forro das coisas. A aldeia abre-se como um livro de mistérios, e vou desfolhando as suas  páginas feitas de ardósia e musgo.

Adormeço, convencido pelo piar da coruja que alguém o guardou dentro da torre sineira.


Salvaterra do Extremo, Páscoa de 2014

(1)  Chapéu cerimonial do bispo.
(2)  Aves carnívoras , de garras potentes e bico robusto em forma de gancho
(3) Feiticeiro indígena nas culturas ameríndias



Fotografias de Duarte Belo extraídas do livro "Terras templárias da Idanha" - Edt. Assírio e Alvim

Ligação:www.duartebelo.com

Salvaterra do Extremo (2005)

Salvaterra do Extremo (2005)

Salvaterra do Extremo - Torre medieval (2005)


Salvaterra do Extremo - Rio Erges (2005)











terça-feira, 17 de maio de 2016

Ouvindo o mestre Hélder

No lançamento do meu livro "A Moura", convidei o mestre Hélder Costa para o apresentar. Foi um prazer ouvi-lo e conversar com ele antes e depois do lançamento. Uma lição de história e de coragem, a sua vida.

Obrigado, Hélder,

Eu e Hélder Costa no lançamento de "A Moura" no Auditório de Alfornelos

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Dois apontamentos sobre o desespero

I.

As bombas caiam sobre Berlim. Os aliados avançavam e tomavam a cidade. No bunker, o Estado-Maior alemão dançava ao som do swing e bebia champagne francês. Uma bomba fez tremer a sala da festa. Por momentos, houve um lapso de realidade. Depois a festa continuou.

 II.

O frágil polvo , perseguido por uma garoupa enorme, viu um buraco quase perfeito. Finalmente estava seguro. Entrou lá para dentro. Esperou algumas horas, enquanto a garoupa rondava aquele abrigo quase perfeito. O peixe, impotente,  acabou por partir. O polvo sossegou e deixou-se ficar num meio sono, com um olho ensonado e o outro amedrontado. Quando a luz vinda do céu cresceu, sentiu que o abrigo emergia. Não entendeu logo o que se passava. Resolveu ficar na segurança do buraco que afinal era apenas uma armadilha de pesca. O pescador retirou-o com um gancho e colocou-o numa caixa de madeira. Três minutos depois, virou-lhe a cabeça do avesso e o polvo, enchendo os guelras de ar, gritou o silêncio todo do mar.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Feliz aniversário, Sir JRR Tolkien

Se fosse vivo (para muitos, há-de ser eterno), JRR Tolkien, nascido em 3 de janeiro de 1892, na África do Sul, faria hoje anos. Foi professor, escritor e, soube-o hoje também ilustrador. Só posso recomendar a leitura da sua obra, a qual é única e encantadora, como é aliás toda a mitologia celta, na qual se terá inspirado. Tolkien não é um simples escritor de aventuras. É um académico brilhante (Filólogo) que, há semelhança do seu amigo e matemático C.S. Lewis, envereda pela literatura fantástica, de uma forma fundamentada ao nível da simbologia e da própria linguagem. Entre várias línguas, Tolkien inventou duas línguas élficas usadas em algumas passagens nos seus livros.


Ilustrações de JRR Tolkien


terça-feira, 18 de setembro de 2012

O "bota-abaixo"

Algum povo, um  padre e as forças vivas da cidade vieram ao batismo e lançamento ao mar do grande navio baptizado de "3ª Républica". A nau imensa e pesada, com imensos mastros a rasgar os céus preparava-se agora para descer ao mar. A sua construção demorara trinta e oito anos e atingira um custo inacreditável.

Naquele momento, a nau enchia de orgulho os estaleiros, o armador e o povo da cidade. A sua construção teve também algumas hesitações e indecisões. Vários engenheiros e arquitectos lideraram o processo de construção. Apesar dos revezes, a obra chegou ao fim.

O padre lançou a garrafa de espumante caro e ela quebrou-se magnifica contra o casco. Soltaram as amarras e o navio escorregou até à água. Ainda tentou manter-se direito e flutuante durante alguns minutos, mas os seus grandes mastros , a sua complexidade e excessos fizeram-no inclinar à direita e afundar-se. Nem todas as belas construções humanos são perfeitas. Algumas não flutuam.  

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Vergílo Ferreira - "Pensar"



Ser profundo sem ser lamechas. Dar a conhecer a sua voz profunda e original, criando a empatia necessária para que os outros ainda tenham tempo e diposição para a suas cogitações vitais. Eis o sortilégio do escritor Vergílio Ferreira.

Não sei porquê, mas hoje apeteceu-me "Pensar" nele.

Deixo-vos um dos muitos pensamentos deste seu livro :

"Como é que certos tipos têm belas frases à hora da morte? O «tudo está bem» de Kant, ou o «mais luz» de Goethe, ou o «amanhã o que virá» de Pessoa, ou até mesmo, à maneira de Sócrates, o «levem daqui as mulheres» de Herculano? À hora da morte devia-se era estar calado. E à medida que se lá vai chegando, era o que se devia apetecer. E daí que talvez o não se perder a fala, mesmo em lamúria, é o sinal que resta de que ainda se está vivo. Mas se a coisa é a doer, fica-se quieto e calado, à espera. A grande verdade da vida é a morte. E um morto está sossegado. Como é que certos tipos à hora da morte têm o desplante de ter frases?"


Título: "Pensar" de Vergílio Ferreira  -   374 páginas - publicado em 1992 pela Bertrand Editora

terça-feira, 10 de abril de 2012

A horta


Que calma superlativa tem esta horta! Que enlevo e expoente máximo da civilização!

As árvores certas, no lugar certo. Enquanto a luz  amorna a terra fecunda, aguardando uma benfazeja semente.

Na linha do horizonte, algumas montanhas ensaiam  vagas de mar  nas suas próprias silhuetas. Como se uma calmaria se  espraiasse em profundidade e até à eternidade.

De regresso ao microcosmos, uma formiga ensaia o seu lugar aqui. Da mesma forma, eu o faço com a minha literatura. Com as suas antenas, a formiga experimenta aqui, depois acolá. Sabe-se lá o que procura ? Também eu não sei o que procuro. Sempre me questionei sobre a função da literatura ? E para que serve um poeta ?

Talvez ser poeta sirva apenas para colocar esta pequena horta do fim-do-mundo, num lugar de deuses e deusas, num Olimpo outra vez pastoral, perfeito como uma cantata polifónica, onde os sobreiros são tenores e os chamarizes, mega-sopranos temíveis, temperando a dimensão do silêncio com o estrilho do seu canto.

O poeta deve ter a pretensão de pegar carinhosamente nesta horta e arrancá-la sem a arrancar. Levá-la daqui para onde a horta não exista, mas seja necessária. Para quem não tenha uma horta - ou apenas a tenha virtualmente - consiga sentir o cheiro, a placidez, o optimismo, a modéstia honrada que tem uma horta em Salvaterra do Extremo (Idanha Nova - Portugal).

terça-feira, 27 de março de 2012

Bovary, um paradigma social



Um museu  sincroniza os seus utentes com o passado. Fá-lo através de artefatos, documentos e experiências.

A Cinemateca Portuguesa concretiza a sua aspiração de museu do cinema da melhor forma, ou seja, através das emoções, através de histórias de celulóide que nos revelam as culturas humanas. Não só as culturas atuais, como aquelas que surgiram antes do cinema. E esta é a "deixa" para falar-vos de "Madame Bovary" de Vicent Minnelli (1949) - filme a que assisti no passado Sábado nesta sala de espetáculos.

Este soberbo filme é um dos vetores de análise de um romance homónimo marcante da cultura ocidental. Ele demarca a transição do romantismo para o realismo, impondo-se assim como uma rutura epistomológica. A rutura coloca dois espaços em contato. E quando os espaços se encontram, nascem novas perguntas. E assim avançam as mentalidades de rutura em rutura, de pergunta em pergunta.

 Uma obra de arte que nos questiona, cumpre sempre bem a sua função. E a história de Emma Bovary mostra-nos o quão ténue é a linha que divide a culpado da vítima, e isso inquieta o espetador porque tem dificuldade em situar-se. Emma Bovary é uma mulher deslumbrada por um mundo de romances e revistas cor-de-rosa. Consequentemente esta mulher não consegue realizar-se no mundo real, sendo por isso vitima de um conjunto de personagens que gravitam em seu redor, e que se aproveitam da sua ingenuidade social. A conclusão realista de Gustave Flaubert, autor do romance, é  simples: A impossibilidade de viver o espaço dos sonhos na vida real, porque eles são uma representação onírica e subjetiva que não encaixa com a forte coação social que nos contextualiza.

Emma Bovary é felizmente uma mulher que viveu num mundo (Séc.XIX) onde a condição feminina estava ainda por se antecipar. Mas se que a figura  "Bovary" é  de facto História apenas, o paradigma "Bovary" está sempre latente na existência humana. E, por isso, nos fragiliza e, por isso, nos humaniza.
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