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domingo, 5 de agosto de 2018

"Conto de Verão" de Éric Rohmer




O "Conto de Verão" de Éric Rohmer fala da fragilidade das relações que se estabelecem entre jovens numa estância balnear na Normândia - França. Gosto deste filme, porque gosto de princípios, de ver nascer, dos primeiros passos ainda que todas estas coisas sejam incipientes e algo atabalhoadas. O que faz andar a história (a peripécia) é a hesitação de um rapaz que divide a sua atração por três raparigas: uma amizade-colorida, uma com "nariz-arrebitado" - a namorada oficial - e, por último, uma outra que transpira erotismo e diversão. Como é sabido nestas coisas do amor ninguém gosta de repartir nada e o rapaz acaba por ficar sem nenhuma delas. Ele porém não se mostra especialmente aturdido com o desenlace e regressa à sua cidade mais interessado em comprar uma nova guitarra do que resolver aquele nó-górdio.  Alguns filmes de Rohmer são assim. Imitam a vida no que ela tem de mais descartável. Tudo parece muito importante enquanto decorrem os diálogos - e os diálogos franceses são tipicamente tensos e argumentativos -  mas tudo é afinal como a espuma dos dias. E como dizem os jornais, o verão é uma estação tonta. Talvez por isso é que gostamos dela.

sábado, 4 de agosto de 2018

A subida às árvores

Acabei de ler "O Barão Trepador" de Italo Calvino. Tinha-o na prateleira há anos e por acaso regressou-me às mãos. Calvino relata a vida de um rapaz que se revolta contra o facto de o pai, Barão de Rondó, o obrigar a comer caracóis. Na verdade, os caracóis são apenas um motivo caricato, para o choque histórico que já se vislumbra: as revoluções liberais, o republicanismo francês, a revolução francesa e os seus ideais e por fim Napoleão. O romance fantástico decorre essencialmente na Itália do século XVIII - dominada pelos Habsburgos da Áustria. O jovem barão representa um novo sentimento: aquele que está mais perto do natural e por isso a sua revolta expressa-se em subir às árvores e passar a viver por lá sem descer nunca ao chão - prodígio da imaginação de Calvino e de uma Europa  de bosques contíguos de árvores ainda e apenas europeias. Em cima das árvores, vive romances, cultiva o espírito motivado pela onda de curiosidade trazida pelos Enciclopedistas, dá corpo e voz aos movimentos de emancipação dos povos e acaba na desilusão de Napoleão. Como é habitual a revolução não cumpre inteiramente as suas premissas, mas produz mudanças irreversíveis na política europeia mesmo sem cumprir a "liberté, equalité et la fraternité". Cosimo, assim se chama o barão romântico, acredita radicalmente nesses ideais e expressa-a de forma desabrida.

Nos momentos de transição, os homens ficam desorientados, não sabem para onde se dirigir, nem que conselhos dar aos filhos. O futuro está enublado e ninguém o consegue cingir. A decisão de Cosimo é uma decisão de ruptura, nunca entendida pelo pai, mas respeitada.
As civilizações acabam muito antes de desaparecerem. Talvez a nossa esteja a desvanecer para que outra possa enquadrar a Europa. Acredito que sim. E espero que como Cósimo possamos viver se não exclusivamente, pelo menos mais perto das árvores.

Há mais de 10 anos chamei a este diário "Árvore com voz". A voz era provavelmente de Cósimo, o Barão Trepador.

domingo, 29 de julho de 2018

Mobilidade social e o capital cultural

Com a terciarização da economia, o conceito de classe ter-se-á extinguido, segundo alguns, tornando irrelevantes as relações na esfera produtiva. Dificilmente se consegue incluir um individuo numa das classes sociais oriundas da era industrial. Os estilos de vida passaram a orientar-se por padrões pessoais, afinidades ou opiniões, substituindo estes padrões a relação rígida entre a classe social e um estilo de vida. Na política, os partidos portugueses tornaram-se transversais a um conjunto difuso de interesses e de eleitores. A cultura democratizou-se com a tecnologia. Alguns sociólogos afirmaram que existem efetivamente classes, mas remeteram-nas para a categoria de “zombies”, ou seja, inoperacionais, não tendo qualquer influência no percurso do indivíduo.

Porém, na opinião de muitos sociólogos e economistas, as classes não desapareceram. De fato, a estratificação ocorre ainda, mas agora através de uma capitalização efetuada pelo individuo na dimensão económica e cultural. As duas dimensões estão interligadas e são interdependentes. Estes dois eixos de estratificação social são amplamente definidos por via familiar, sobretudo numa época onde os rendimentos dos portugueses perderam e continuam a perder peso diante do capital.

Através do capital económico e cultural dos progenitores, os novos portugueses se enquadraram nos estratos sociais “new age”. Se do ponto de vista económico, a transmissão via familiar de capital e de bens corpóreos está pré-determinada, na transmissão cultural pode ainda ocorrer a mobilidade – dado que no espetro político português não está bem definida uma relação política favorável, ou não, ao progresso e à consequente distribuição da riqueza produzida. Aliás, o desinteresse - ou esvaziamento cívico premeditado, ou não - pelos atuais partidos políticos tornou-os corporativos ou, numa visão mais arriscada, oligarquias impenetráveis.

Logo resta a via cultural – educação, ambiente familiar ou comunitário, valores e crenças humanísticas –  como a única variável disponível à vontade dos indivíduos. Essa variável tem sido e continuará a ser o último campo de batalha destes novos tempos, entre os dois grandes grupos de atores sociais: os privilegiados, obviamente conservadores, e os desprivilegiados, obviamente progressistas ou em última análise e sem alternativa em vista, apoiantes de vias mais radicais que levem a alteração das condições políticas fundamentais.

Aos desprivilegiados resta-lhes estudar, criar uma rede de relações sociais que aumentem o capital cultural e continuamente elevar o seu nível de abstração com o intuito de analisar de forma mais clara e sustentada os riscos e as oportunidades que surgem naturalmente na vida de cada homem ou mulher. Aos privilegiados cabe-lhes a missão de confundir e desorientar os primeiros, na sua busca pelo “Santo Graal” da mobilidade social: o capital cultural.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Entre margens

"Sabes que o meu sonho foi sempre uma cozinha nova", diz-me ela.

"Queremos um clube futebol democrático", dizem eles.

Cândidos desígnios, os nossos.

As lágrimas afloram-me, mas secam-se logo contra os raros grãos de luz que vigiam este meio-dia de um julho sombrio.

Caminho entre margens - e talvez não seja por acaso que tudo isto acontece na lúgubre e  humana Almirante Reis. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

Praia

despertei o que não sabia calar
e mais nada me resta, senão
caminhar
com a maçã de adão entalada
entredentes
ao encontro do sol
que cai insustentável por detrás do mar

sei então o que é o silêncio:
o frémito das  asas das aves
voando em  bando
para onde o céu teima em desaguar
para onde corre aquele rio que não sabe parar

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Meditação

És para mim um pensamento ainda tão esquivo. Quando falo de Ti,  parecem-me sempre escassas as palavras. Quando falo de Ti, sinto-me um inocente traidor. Saibam ao menos os meus atos e olhares indicarem aos outros uma pista recente para a Tua excelsa presença.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Rua da Saudade

Foto do topónimo da rua de acesso ao cemitério de Belas


De regresso a Belas, fui caminhando pelos seus caminhos magníficos. Os mais altos, no cimo do vale, entregam-nos uma vista maravilhosa. Os mais resguardados, dentro da núcleo central da vila, levam-nos a um passado burguês e campal. Levam-me a mim, especialmente, ao início da minha vida de casado. O último percurso partia dos célebres fofos de Belas até às portas do cemitério e chamava-se Rua da Saudade. Caminhando etapa a etapa lá fiz a sua subida e este poema:

I

a água da fonte
recorda o chilrear do chamariz
quando de súbito se calou
e voltou
ao infinito da memória

II

como se possível fosse
percorro o passado
à procura de um desvio ou atalho
que me permita regressar à visibilidade

III

cambaleio num labirinto
ou danço com a tua ausência
a valsa transparente da saudade ?


IV

no final da estrada
lá está a carreta funerária
sedutora e pacífica
como um banco de jardim
que por mistério ou misericórdia
não é ainda para mim

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