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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Em silêncio

Encontro, no meu dia-a-dia, muitas pessoas apaixonadas por Jesus Cristo, bem como pela ética e mística cristãs, mas que continuam teimosamente a afirmar-se ateus. 

Pergunto: Não terão eles a omitir a sua conversão, para manterem o seu status quo  na hierarquia política ou social que os colocou no lugar que  ocupam ? Da mesma forma que faziam aqueles padres que - no final do livro e filme "Silêncio" de Shusaku Endo e Martin Scorsese, escritor e realizador, respetivamente -  sobreviviam como apóstatas, resguardando em silêncio a sua devoção por Cristo.  

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O que é silencio ?

Silêncio
é ver a  pequena nespereira crescer
num banquinho sentado 

Silêncio 
é dar um novo nome
ás ruas por onde passámos 

Silêncio 
é  grito inesperado
do nada 

Silêncio 
é o bem-estar do poema
quando chega ao caderno cansado 

Silêncio 

Até quando ?


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A existência

Ao invés do que escreveu René Descartes, quando mais pensamos, menos existimos. Porque a razão é um elemento absorvente da diferença, da nossa individualidade. E como poderíamos existir se apenas nos deixássemos orientar pela razão ? E até onde é possível ser razoável sem amachucar de forma irreparável a nossa forma exclusiva de percepcionar a vida ?  

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O barqueiro

Cena do filme "Dead Man" de Jim Jarmush com Gary Farmer e Johnny Deep


Os poemas não se explicam, sempre ouvi dizer e de certa forma concordei. O que não quer dizer que não tenham explicação. Neste caso, sinto-me na obrigação de explicar que este barqueiro que nos fala o poema que acabei de escrever e abaixo transcrevo é uma personagem do filme de "Homem Morto" de Jim Jarmush. O filme fala-nos de um barqueiro índio que conduz um homem perseguido e aparentemente condenado ( o ator Johnny Depp) dado o poder dos seus perseguidores, rio abaixo, até ao reino dos mortos. O barqueiro confunde o homem com o poeta inglês William Blake. Mais uma vez, Jim Jarmush não perde a oportunidade para relembrar os seus grandes poetas, como o fez relativamente a William Carlos Williams no seu mais recente trabalho "Paterson". Mas regressando à sabedoria da aceitação da morte personificada pelo barqueiro que nos leva serenamente ou não pelo rio abaixo até ao ocaso da vida, apenas tenho a dizer que a aceitação da condenação é absoluta liberdade. O barqueiro neste processo toma o lugar do pedagogo, um facilitador para esta enorme experiência que é a aceitação da morte.


O barqueiro

Ao homem (quase)  morto
é preciso encaminhá-lo
ao seu destino nupcial
onde aquele silêncio
que só a eternidade entoa
apazigua o ruído mecânico e nervoso
das rodas dentadas de viver sol após  sol

Assim faz o barqueiro
levando nas suas presas
gentilmente
o homem morto
pelo doméstico  rio até ao indistinto mar


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Exercício espiritual de José Tolentino Mendonça

O poema "Exercício espiritual" pode parecer uma abordagem suicida ou um daqueles momentos em que o poeta se sente enjaulado num cubo egocêntrico, mas não é. Este pequeno poema de Tolentino Mendonça é uma possibilidade de esperança de que ele mesmo se apercebe num curto momento de clarividência. É uma faísca ("dar agora meia dúzia de passos"), um prenúncio de coragem("mas de olhos vendados"), como alguém que oferece as mãos e os pés aos pregos romanos ansiosos por beijar a fortaleza da cruz. Mas a cruz que o poeta nos fala é de outra natureza ("arriscando em vez de tropeções habituas"). Não tem corpo, não é uma estrutura pré-construída e previsível - nada disso. É uma queda profunda à procura de um mistério. É uma viagem de sentido descendente sem fim e tratando de forma irrelevante tudo o que está antes do momento em que ela acontece. Agora ouçam se tem ouvidos:

Exercícios Espirituais

Devem existir maneiras de ir mais além
do pequeno fracasso
dar agora meia dúzia de passos 
mas de olhos vendados
ver a vida romper-se no governo do vazio
arriscando em vez de tropeções habituas
a queda infinita

(José Tolentino Mendonça, 2017)

Nota: Este poema está incluído no livro Teoria da Fronteira, publicado em junho de 2017, pela Assírio & Alvim.

domingo, 30 de julho de 2017

Insónia

São três da manhã. Estou num hostel à beira do rio Arade. Um trio de espanholas surdas-mudas entram no hostel e acordam-me. Ó ironia das ironias  ser acordado por mudas. Preciso de dormir. Não consigo deixar de ouvir o arrastar dos pés e as suas vocalizações estranhas. Pego no telemóvel, coloco os headphones e começo ouvir o "Adagio" do Samuel Barber. A música completa a vista  histórica de Silves. Obrigo-me a escrever:

Fúnebre canção  de embalar
que vagueia pela noite dentro
descendo ao fundo do poço,
já indistinta do silêncio,
resgata e adormece-me
como se eu fosse a coruja 
à espera do sol raiar.

As mudas desligam a luz, quando acabo de escrever este poema, este estribilho. Acordam ao longe o galo e as galinhas da Horta Grande. Adormeço eu imaginando o ultimo voo da coruja que se vem deitar.
Silves à noite, vista da ponte romana (foto Miguel Lapas)

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