30/10/2026

Do corpo à memória

Há por aqui um perfume de mulher,
tesão capaz de erguer
todos os estandartes da centúria,
fome a haver de ternura,
Verbo feito carne
como nas Escrituras.

E depois passa.
Tudo passa.

Esquece-se o cheiro salgado
que tinham as raparigas na juventude,
quando saíam do mar,
o seu rasto luminoso,
levando os rapazes
para trás dos pavilhões
da escola secundária.

Fecham-se os olhos.
Dilatam-se as narinas,
abre-se a boca,
como fazem os gatos,
que também sabem cheirar
pelo palato.

E, com sorte,
desvela-se ainda um aroma
na brisa primaveril
deste perfume de outono:

fruto caído
à sombra do castanheiro,
que se finge semente
e semente será,
talvez.

29/10/2026

O que foi verde


'Lo visible es un adorno de lo invisible'
Roberto Juarroz

Choro.
E as coisas do meu quarto choram também,
assim como as árvores, as canas,
o mato que cresce entretanto
do lado fora da casa.

O que foi verde
tem agora um matiz cinzento
que não encontro em lado algum,
a não ser quando, aqui sentado,
entristeço com os olhos
as coisas que vejo.

25/10/2026

Distância

As manhãs são plácidas, como girassóis.

Dois pequenos mosquitos trepam as vidraças,
como quem escala a luz.

Devem sentir a mesma felicidade que nós
quando contemplamos as estrelas
nas noites de verão.

Passa o comboio outra vez.

O dono da tabacaria sorri
defronte da mansarda.


Os mosquitos treparam  mais dois milímetros.

O sucesso da jornada traz-lhes à boca um sorriso,
um conforto interior,
a felicidade dos gémeos
batizados no domingo de Páscoa,
numa aldeia minhota
de um romance de Camilo.