Doce e lenta a manhã.
Do bar, projeta-se um blues sem surpresas — vantagens da IA generativa.
Devo ao comprimido que tomei de madrugada, último recurso contra a insónia, parte desta calma, eu sei. Se houvesse um botão para deixar assim a realidade, em câmara lenta, carregava-o sem hesitar. Entalava-o depois com um palito, para que nunca mais a vida acelerasse.
Se Dante terá escrito no Dolce Stil Novo, eu escreveria no doce estilo lento. E cada ano seriam dez, cada torrada demoraria uma hora a dourar.
Essa é a demanda aos 58 anos: empinar o tempo, olhar apenas o teto do quarto e sentir as horas atrasarem-se, coitadas, carregadas de um tédio tão vital como a clorofila de uma oliveira com dois mil anos.
Talvez seja isto envelhecer: descobrir que já não queremos que a vida nos leve para lugar algum. Queremos apenas que, por uma vez, tenha a caridade de ficar mais um pouco:
Lenta.
Doce.
Sem surpresas.
Piscina de Geirós, 10 de agosto de 2026