25/02/2026

Sob a égide de Dionísio


Às vezes, quando os deuses suspiram,

nesse intervalo de tempo que lhes atravessa o fôlego,

troco de pele, como a cobra.


Danço nu pela floresta que houve e haverá,

corro com os sátiros, a espreitar as ninfas no banho.


Só elas sabem retirar da água

a frescura de agosto em pleno inverno.


24/02/2026

Dias cinzentos

Hoje não veremos o rei,
nem lamberemos o sal,
nem o sol dourará as charnecas
com o seu pólen meridional
feito de flores pequenas,
tão pequenas
que apenas as veríamos
se fechássemos mais os olhos.

Hoje só a gata me anima,
talvez porque o seu consentimento
se ajusta
a dias cinzentos como este —
dias sem bem, nem mal;
sem crimes
nem beneméritos atos;
sem as coisas que tomamos como lastro,
nem as suas encantadoras sombras,
que afinal nos poupam
nos dias flamejantes.


23/02/2026

Ao soldado desconhecido



Era um poliedro preto,

menir espetado

 na consciência da espécie,

páginas brancas arrancadas

e amontoadas sobre as colinas de Verdun.


Quem diria que,  em tantos soldados mortos,

havia Deus insuflado,

um por um,

e logo pelas ventas,

o sopro divino?