16/10/2026

A vinda anunciada



Os carros passam a ponte. Eu podia estar lá agora. Mas as quotidianas contingências tiraram-me de lá e puseram-me aqui, a olhar para ela.

A ponte assoma-se no ponto de fuga entre  duas correntezas de prédios cinzentos.

Sentia-me cansado, deprimido, e o meu corpo gritou-me por cafeína.

O meu passo fizera-se então aditivo, lembrando-me dos viciados que passam hipnóticos pela minha rua, a caminho do fornecedor — do passador, melhor dizendo.

Agora estou sentado na esplanada, bebendo o café de que precisava.

Lá na ponte, os carros continuam a circular, mantendo entre si uma distância e uma velocidade constantes. Daqui, tudo parece normalizado e predeterminado.

Ao contrário daquele tráfego amansado, espero aqui no café a vinda anunciada de Jesus à Terra, um cardume de orcas voadoras a sobrevoar estes prédios burgueses, ou simplesmente que se façam horas de ir à minha vidinha.

Debaixo dos nossos pés

O terrível não é quando os anjos  surgem na sala, como me assombrou Rilke na sua primeira Elegia. O terrível é passarmos por um carreiro de formigas, na charneca seca, sem nos perguntarmos o que pensarão elas quando se cruzam e confidenciam os seus pequenos segredos, com as anteninhas a dar a dar.

E, no entanto, o mistério estava ali, debaixo dos nossos pés.

14/10/2026

Se fosse hoje a última vez


Se fosse hoje a última vez, ninguém o levaria a mal, ou se espantaria sequer. Porque, apesar de ter havido tantas vezes, alguma teria de ser a última.

Houve vezes em que vesti a gabardina azul, em que vimos girar o nosso filho naquele carrossel, em Lagos, ou mesmo quando visitámos a Isla Mágica, em Sevilha.

Houve as vezes em que amanheceu e anoiteceu, enquanto pescávamos serenamente.

Haverá sempre a vez das galáxias se expandirem e das formigas de asa saírem dos formigueiros.

Se fosse hoje a última vez, porque alguém desligou a máquina, ou apenas porque o dedo escorregou no gatilho, o poeta era uma vez.