10/08/2026

Doce estilo lento


Doce e lenta a manhã.

Do bar, projeta-se um blues sem surpresas — vantagens da IA generativa.

Devo ao comprimido que tomei de madrugada, último recurso contra a insónia, parte desta calma, eu sei. Se houvesse um botão para deixar assim a realidade, em câmara lenta, carregava-o sem hesitar. Entalava-o depois com um palito, para que nunca mais a vida acelerasse.

Se Dante terá escrito no Dolce Stil Novo, eu escreveria no doce estilo lento. E cada ano seriam dez, cada torrada demoraria uma hora a dourar.

Essa é a demanda aos 58 anos: empinar o tempo, olhar apenas o teto do quarto e sentir as horas atrasarem-se, coitadas, carregadas de um tédio tão vital como a clorofila de uma oliveira com dois mil anos.

Talvez seja isto envelhecer: descobrir que já não queremos que a vida nos leve para lugar algum. Queremos apenas que, por uma vez, tenha a caridade de ficar mais um pouco:

Lenta.

Doce.

Sem surpresas.

Piscina de Geirós, 10 de agosto de 2026

24/07/2026

O formigueiro

O ruído apaga-se.
Estou dentro da carruagem,
mais uma vez. 
Um por um,
apagam-se  os sentidos também.
O pensamento sentindo apenas o pensamento. 
Solipsismo profundo.

A caneta contra a folha, aqui mesmo. 
E, na ponta caligráfica,
encontram-se o antes e o depois,
 a certeza incerta do que foi,
 despejada assim neste caudal, 
neste carreiro de formigas pela terra dentro.