18/09/2026

Cota máxima


Deixa a cidade descarregar o seu peso.
Canta-lhe um salmo.
Encaminha-a para um lugar alto,
para a cota máxima,
para o sítio do moinho.

Lá em cima,
mostra-lhe os caminhos possíveis:
para a serra, para as praias,
para os ninhos dos melros,
feitos e desfeitos
na periferia dos bairros de vivendas
aparentemente felizes.

Toda a confusão se dissipa
e se ordena no sítio do moinho velho,
acredita.
Assegurou-me disso,
em tempos, um pintor qualquer.

O pintor já morreu.
O moinho julgo que também.

Mas ainda lá se chega.

15/09/2026

Bem-vindo, outra vez

Começa hoje. Começa todos os dias. E recomeçar é uma graça divina, uma dádiva concedida a tão poucos, um reencontro com outra forma de manhã.

Talvez tudo tenha mudado muito pouco. Mas tu, caro amigo, mudaste tanto.

Passaram sobre as tuas retinas tantas imagens que depois se dissolveram: praias, rios, pessoas e até pequenos-almoços em esplanadas de província.

O comboio, coisa férrea por fora, tem um coração a bater por dentro. Tem pensamentos, grandes alegrias e expectativas. No entanto, quem o vê assim, à distância, parece ver apenas um corpo ressequido, sem viva alma, conduzido por carris que lhe retiram todo e qualquer livre-arbítrio.

Não há nada que possas mudar, caro amigo. A tua vida entrou também nos carris. As estações estão marcadas e as paragens têm horas certas.

E, mesmo que as pequenas charnecas te encantem, bem como o grito mais alto da pequena carriça, é no betão e no ferro forjado que ainda precisam de ti.

Fazes parte do refúgio, do tratamento, da panaceia, se quiseres.

Bem-vindo, rapaz. Bem-vindo ao mundo outra vez.