Hoje, devido ao cansaço acumulado, pensei não escrever, não pensar. Mas escrever não é um esforço mental; é mais uma conversa a dois entre mim e eu próprio, comigo a assistir a tudo isso.
Refugiu-me nos parques, esses restos de paisagem seminatural que ainda vemos plantados pela cidade, um aqui, outro acolá, como ilhas dispersas no deserto do betão.
Essa carapaça de cimento, essa casca de caracol invertida — porque não somos nós que a transportamos às costas; somos antes conduzidos pelos lugares onde ela nos permite andar. Dizem que não conseguimos viver sem ela, sem essa proteção que tem o seu preço. Carrega símbolos que os seus proprietários ostentam ao peito: brasões modernos, casarões, impérios imobiliários.
Ontem li que a vida dos caçadores-recolectores, há quinze mil anos, talvez não fosse tão dura quanto imaginamos. Em poucas horas por dia recolhiam o necessário para sobreviver, tinham uma dieta variada e permaneciam fisicamente ativos sem o saber. Procurar alimento, seguir rastos, fugir dos predadores — tudo isso exercitava o corpo de forma natural.
Quando olho o horizonte e regresso aos esforços que fiz ao longo da vida, percebo que muitos deles serviram apenas para sustentar a complexidade da cidade: as suas veias, os seus medos, os seus símbolos.
A sensação que me fica é a de ser um daqueles gauleses que,sobre o escudo, carregavam o chefe da aldeia para que a sua estatura parecesse maior. Como se os pequenos carregadores existissem apenas para elevar ainda mais quem já está no alto, servindo de penhor à sua ilusão de potência.