Chove.
Nunca choveu tanto para mim, apesar de ser miudinha. Mas era tanto o calor, tanta a secura, que, ao ver os pombos banharem-se outra vez nas poças, senti uma alegria tão subtil quanto inflamante.
Às vezes acredito que dançar à chuva — ai, pudesse eu, sem que me chamem louco — é como mergulhar no mar.
A chuva desperta os cheiros. Tudo se aproxima, afinal. Até os mesmos sons diluídos se tornam agora essenciais.
A gata reconhece os odores. Sobe ao parapeito. E o seu narizinho contorce-se, como um perdigueiro em caça.
Tinha saudades da chuva, confesso, e a ilusão de viver num país onde ela nunca cessasse.
Ainda assim a chuva parou.
E quando para, os pássaros saem dos abrigos num frenesim; piam, chilreiam e regateiam até. É a hora da refeição.
O céu, porém, continua encoberto. As nuvens não arredam pé. Quase se diria que não arredam asa.
E nós, aqui em baixo, a nascer, a crescer e a morrer, como palmeiras bravas.
Amadora, 30 de Setembro de 2026