24/08/2026

O rumor da cidade

Enquanto espero que o semáforo abra, os carros passam à minha volta. Passam, porém, tão longe de mim que nunca os vi assim: tão iguais, quase coisas teleguiadas, movendo-se num ritmo constante e maquinal. O asfalto molhado produz um efeito estranho, um rumor contínuo, semelhante ao zumbido das abelhas — provavelmente àquele que se escuta junto à porta das colmeias.

Apesar de tudo, é nas cidades que se nasce, vive e morre. Nas zonas mais populosas, as cidades encostam-se umas às outras, confundem-se, tornando difícil atribuir-lhes uma identidade exclusiva. Talvez porque cada cidade contenha outras, mais pequenas, lá dentro: ilhas de betão consolidadas, com aspecto e hábitos próprios. Distinguem-se pelas cores, pela volumetria, pela existência ou ausência de espaços verdes, públicos ou privados.

Pode-se — e deve-se — descansar no campo. Nem imagino, porém, o que será trabalhar por lá. Deve existir ali uma proximidade entre as pessoas difícil de encontrar na cidade, uma tendência para se organizarem em pequenos núcleos onde todos, de algum modo, se conhecem.

Ainda nos anos 80, as grandes avenidas de Lisboa pareciam, ao fim de semana, ruas de uma aldeia quase desabitada. Hoje é diferente. A cidade prolonga o dia pela noite dentro, enche os lugares que antes ficavam vazios e, cada vez mais, parece querer imitar a Big Apple, Nova Iorque, a cidade que nunca dorme.

23/08/2026

O último dia de verão

O vento esgarça o último dia de verão. Hoje a luz empalideceu à nascença. Os meteorologistas haviam já avisado, retirando assim qualquer possibilidade de espanto e de gozo das coisas inesperadas.

Amanhã regresso à escola. Por isso avento, como um romântico do século XVIII, que a minha tristeza e a natureza são uma e uma só: síntese afinada entre a pequena coisa que sou e um lamento universal que se deixou, sabe-se lá porquê, ouvir.

O vento não pára. A sua existência vai-se tornando normal, por aqui, junto à praia, à medida que o verão se evapora, como uma cafeteira esquecida ao lume ou um livro que deixámos a meio e não sabemos onde o pusemos.

Aroeira, 23 de agosto de 2026

Foto da Adobe Stock

19/08/2026

Imóvel

Abres o livro.
 O dia está tão claro, parece-te. 
No entanto, refreias a tentação de descer até à praia.
 E ficas assim dentro da bolha de sabão,
 flutuando ao sabor do acaso,
 imaginando o tráfego, 
as dores num hospital das redondezas.

Crês na ilusão de que,
 por detrás dessa parede de água e sabão, 
ninguém te poderá comer até ao caroço, 
como se fosses uma nêspera.