13/08/2026

InRIOtornável



É invulgar não marcares nem só um segundo do que te passa em redor.

Talvez saibas que o rio não retorna aqui. E mesmo que retornasse, não o reconhecerias, nem ele a ti.

Porque o tempo e o lugar são a mesma coisa, o mesmo encontro ou desencontro também.

Se, porém, a corrente fluísse da foz para a nascente,
verias, submersos e informes,
os corpos jazentes dos teus entes queridos,
regressando apócrifos.

Talvez por isso devesses guardar uma caixa de sapatos com fotografias antigas.

As termas de São Pedro do Sul

Passa, leve, o rio. As casas escadeiam a encosta das margens até ao horizonte. Ao meio, uma ponte, ao que parece romana, encavalita gentes e veículos. Intrépida diante dos tempos e das violências que estes trazem, e levam depois, ali está ela, memória surda e muda, à espera de que os seus intérpretes consigam escutá-la, imaginar as legiões romanas ou a artilharia bonapartista atravessando-a.

Por trás, o balneário romano, onde D. Afonso Henriques terá recuperado de uma fratura na perna, sequela de uma batalha em Badajoz.

As casas alinham-se como rostos. Olhando o Vouga, abrem-se as janelas como pálpebras e, por trás delas, erguem-se humanos como pupilas. A população, na sua maioria aparentemente sazonal, arrasta-se logo pela manhã das extremidades para o centro da vila. Vem à procura de uma vida social que surge timidamente nas esplanadas dos cafés.

O produto que mais vende por aqui é uma expectativa. Primeiro, a da saúde; depois, a da vida.

Talvez por isso o som de fundo seja o rio a desfolhar-se nas pedras, distribuídas no leito como teclas graníticas de um xilofone.



11/08/2026

Quando as montanhas nos abandonam


Portugal tem tantos lugares, rios, montanhas, praias — enfim, nada que outros países não tenham.
Para lá do que se vê, por detrás da superfície, o que existe de essencial?

 A língua e, através dela, uma forma de pensar. Mas, mais do que na língua, é no relevo, na orografia, ou mesmo na insularidade, que me parece desenhar-se a ideia de lugar.

Talvez por isso os filhos dos emigrantes (falantes de outras línguas) regressem de férias a estas aldeias no meio das montanhas e não me pareçam assim tão diferentes dos autóctones que nunca daqui saíram.

 Talvez sejam apenas um pouco mais desconfiados, carregando a falsa culpa de terem abandonado estas montanhas, quando, na verdade, foram as montanhas que os abandonaram.
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