Bem vistas as coisas, os sinais coincidem:
“sixty-seven, sixty-seven”,
dizem as crianças
e riem-se, sem saber porquê.
— Esse sessenta e sete no seu email, professor?
— O ano em que nasci.
Serei Elias?
Ezequiel?
Vim para batizá-las
ou para morrer por elas?
“Pai, afasta de mim esse cálice.”
“Deus meus, Deus meus…”
Devem dizê-lo também
as empregadas da limpeza
às seis da manhã na Estação do Oriente,
o professor que sempre acreditou,
o bombeiro,
o polícia.
“Sessenta e sete, sixty-seven”
dizem,
riem.
É claro que penso:
não posso ser eu.
Quantos dementes
não pensaram o mesmo?
O saco dos portáteis pesa.
As escadas.
A sala dos professores — o gólgota.
E o cireneu
não aparece.
“sixty-seven, sixty-seven”
Mas quantos como eu
nasceram em 67?
Quantos, no silêncio da casa,
acreditaram: sou eu?
Blasfémia.
Blasfémia.
Não.
Quanto muito,
um dos bem-aventurados.
Mas qual?
Mas acredito eu?