14/06/2026

Os sonhos

Os sonhos não são premonições. São fendas na parede por onde pássaros azuis escapam e nós, seduzidos ou curiosos, de qualquer forma sem remédio, corremos atrás deles. 

São Alice a entrar na toca do coelho, connosco pela mão. Depois o coelho desaparece e deixa-nos sozinhos naquele lugar, entre os nossos medos e as nossas ambições.

Nunca entendi porque chamamos sonhos às nossas aspirações mais auspiciosas. Não me lembro de ter um sonho desses. 

Os sonhos que conheço são cenários e guiões estranhos, por vezes inquietantes, e talvez seja por isso que me deixam uma sensação de asfixia lenta, mas constante, que só termina quando acordo.

06/06/2026

O reencontro


Escreveu Alberto Caeiro que a poesia não era para ele uma forma de emancipação artística ou coisa do género, mas tão-só uma forma de estar sozinho. E estar sozinho não quer dizer estar num monólogo, não é isso. Quando escrevemos, somos nós a falar para nós próprios, connosco, ouvindo a conversa.


Entre os trinta e os quarenta e três anos, pouca poesia escrevi. Aliás, não sei que sonho, ou que sentimento de missão, me atirou para aquela quimera universitária e profissional tão prolongada. Quando esse projeto de ascensão profissional se desvaneceu, estava na puta da merda e tive de me reconstruir com os cacos.

Encontrei na religião algum conforto e algum sentido para o sofrimento; encontrei paz e recolhimento interior. Creio que ainda fui a tempo. Ainda assim, sinto que vivi demasiado tempo num presídio, cumprindo um destino que não escolhi.

Foi o que foi.

Talvez as trevas, ainda que travestidas por algumas lantejoulas, tenham-me dado o discernimento necessário para querer ser feliz, para ser professor, para voltar a escrever. Porém, o tempo dos homens é curto e nenhuma gota de rio passa duas vezes pelo mesmo sítio. E não é apenas uma impossibilidade espacial ou temporal, mas ambas em simultâneo, porque, mesmo que a gota voltasse a passar, as margens já teriam mudado.

Quando vou em busca do tempo perdido, recuo à infância e à primeira juventude. Esse tempo, sim, ficou registado na memória, de forma fantástica ou não, para sempre. Esse “sempre” arder, que é a vida de um homem.

27/05/2026

Sonambulismo

Sonambulismo,
caminhos memorizados,
agora abertos nos meus olhos fechados.

Não sei de nada.
Não posso querer mais
que este dormir andando
entre os cacos da noite anterior,
brilhantes, dispersos,
como um leopardo à espera
dos meus pés descalços, sonâmbulos.

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