09/07/2026

Metamorfose

Deito-me na cama, fecho os olhos com força, enrolo-me em mim. Vêm-me à memória aquelas lapas que encontrava na foz do rio Mira, na maré baixa, encrostadas na rocha viva.

Posso, afinal, dizer, como elas: dificilmente me tiram daqui. Casca rija por cima, a velha crosta da Terra por debaixo. Tão doce ilusão...

As ondas são os lençóis, que sobem e descem consoante as marés. Eu, molusco de mucosa húmida, informe, recolhendo-me e encolhendo-me diante do olhar guloso dos outros; distendendo-me depois, já morto, dentro da panela, com um molhinho de alho e coentros a temperar-me o corpo, desalmado, porém.

07/07/2026

Entre os dedos


Fogem-me os poemas por entre os dedos,
como gatos que se deixam afagar,
uma ou duas festas apenas. 

Tão caprichosos são
que, à menor falta de atenção,
se esquivam e rebentam  
em surdina 
sobre o rio da minha aldeia,
que os leva, de afluente em afluente,
até ao livro do mar.

30/06/2026

Irremediável

A vida é tão pouco.
Talvez por isso a gata durma, irremediável, na marquise.
Lá sabe ela que pouco mais temos do que o sol
e a noite, quando chega, parece vir para sempre.
O comboio finge que passa, mas não.
Volta e revolta, a toda a hora.
Dirão que é outro comboio, outros passageiros.
Mas o que passa por aqui 
é sempre o mesmo comboio,
sempre as mesmas pessoas.
Conheci-as noutros tempos.
Quando as revejo, calo-me e sigo.
Temos vergonha uns dos outros,
porque não conseguimos sair daqui.