23/02/2026

Ao soldado desconhecido



Era um poliedro preto,

menir espetado

 na consciência da espécie,

páginas brancas arrancadas

e amontoadas sobre as colinas de Verdun.


Quem diria que,  em tantos soldados mortos,

havia Deus insuflado,

um por um,

e logo pelas ventas,

o sopro divino?

17/02/2026

As coisas prenhes do passado

Tão prenhes de passado, as coisas.
É preciso regressar a elas de vez em quando,
perguntar-lhes como foi.
Caso contrário mudam de aspecto,
ou somos nós que lhes mudamos o aspecto.
E quando, então, lhes abrimos as páginas
para nos falarem da avó
ou da festa de aniversário
em que o tio se embebedou
e se fechou depois na casa de banho,
já se esqueceram de tudo.
E por mais que molhemos a madalena no chá,
não há anjo nem demónio
que nos convoque
para o almoço de domingo,
quando o pai nos falava de um amigo
que teve na tropa,
enquanto a mãe nos servia sopa de lentilhas.

16/02/2026

5 sentidos


Um eucalipto
(e o aroma que se desprende das folhas),
alguns raios de sol
sobre a pele ainda gelada,
quatro ou cinco pássaros
pretos de bico amarelo
pastando na erva da rotunda,
mais alguns que chegam
entretanto chilreando.

Que mais poderias querer?
Sobretudo se tudo isto acontece
quando acabaste de tomar
uma meia de leite
e uma torrada amanteigada.