27/05/2026

Sonambulismo

Sonambulismo,
caminhos memorizados,
agora abertos nos meus olhos fechados.

Não sei de nada.
Não posso querer mais
que este dormir andando
entre os cacos da noite anterior,
brilhantes, dispersos,
como um leopardo à espera
dos meus pés descalços, sonâmbulos.

.

21/05/2026

A magnólia

A “Magnólia” da Luísa Neto Jorge é geométrica, um sortilégio feito de palavras.

Esta, aqui do bairro, medra escondida entre prédios pobres.

Poderei talvez ser o primeiro  a olhar para ela como um evento literário. 

Falta-me, porém, o fogo da poetisa e mais um milhão de atributos para elevar este arbusto ao lugar que ele merece.

Por isso é melhor deixá-lo por aqui, nas traseiras de um prédio de três andares, e também nestas poucas linhas tão anónimas quanto impotentes.

Bairro de Janeiro, 21 de maio de 2026



"Magnólia"
         Luiza Neto Jorge

 

A exaltação do mínimo,
e o magnifico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria — na metáfora —
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.



20/05/2026

O refúgio


Passo pelos dias e aqui, neste moleskine, vou registando os sentimentos e as memórias à medida que surgem. Às vezes dou por mim a encontrar uma contradição na vontade de escrever: quanto menos disponibilidade tenho, mais necessidade sinto de o fazer.

Talvez porque como escreveu Alberto Caeiro, escrever poesia seja uma forma de estar sozinho. E por isso serei, neste momento, aquele bebé vestido com um babygrow de verão, brincando descalço, maravilhado com a sensação de tocar nos próprios pés, fechando um pequeno circulo, casulo ainda recente, porém, autossuficiente, e por breves momentos, senhor do meu corpo e da minha consciência.