30/09/2026

O regresso da chuva

Chove.

Nunca choveu tanto para mim, apesar de ser miudinha. Mas era tanto o calor, tanta a secura, que, ao ver os pombos banharem-se outra vez nas poças, senti uma alegria tão subtil quanto inflamante.

Às vezes acredito que dançar à chuva — ai, pudesse eu, sem que me chamem louco — é como mergulhar no mar.

A chuva desperta os cheiros. Tudo se aproxima, afinal. Até os mesmos sons diluídos se tornam agora essenciais.

A gata reconhece os odores. Sobe ao parapeito. E o seu narizinho contorce-se, como um perdigueiro em caça.

Tinha saudades da chuva, confesso, e a ilusão de viver num país onde ela nunca cessasse.

Ainda assim a chuva parou.

E quando para, os pássaros saem dos abrigos num frenesim; piam, chilreiam e regateiam até. É a hora da refeição.

O céu, porém, continua encoberto. As nuvens não arredam pé. Quase se diria que não arredam asa.

E nós, aqui em baixo, a nascer, a crescer e a morrer, como palmeiras bravas.

Amadora, 30 de Setembro de 2026

29/09/2026

Húmus de Raul Brandão


Há livros que guardamos para ler na reforma, como aqueles primos do Canadá que esperamos visitar também depois de jubilados. 

Um deles é o "Húmus", de Raul Brandão.

Ainda assim, e estando no ativo, vou espreitando, curioso, como quem abana a caixa de um presente de Natal, tentando antecipar a alegria que será o dia em que, finalmente, o abriremos.

 Embora não me pareça que Húmus seja um presente trivial, daqueles que depressa esquecemos; antes pelo contrário.

É um livro de revelação, daqueles que puxam a cortina do duche quando estamos a ensaboar-nos. 

Um conjunto de textos que, passados anos e anos de ilusão, podemos finalmente ler sem medo de conhecer a verdade.

A verdade de Raul Brandão, obviamente. 

“O maior drama da vida é o das coincidências. O maior drama é arredar todos os trapos da vida para poder olhar a vida cara a cara. O maior drama é ficar só com o vácuo e em frente ao espelho. É dizer: nada disto existe.(...)”

Extracto de “Húmus” de Raul Brandão

28/09/2026

Submissão

Choveu e o melro voltou a cantar entre as canas.

O estribilho acrílico dos pardais modelou o fundo da banda sonora desta manhã.

A gata deita-se ao meu lado, lugar-tenente da minha solidão, aluna insubmissa, mas que chega sempre antes de todos para a lição.

Olho o céu e pergunto a Deus:

— O que queres de mim, Senhor?

Responde-me ele:

— Tu sabes, Miguel.

— A cruz está à minha espera, não é?

— Pois.

Lacónico, como é seu jeito.

— Mas, Senhor, é que eu queria ouvir a chuva, cheirar o aroma da terra molhada, aqui ao lado da gata.

— E os teus irmãos, Miguel.
Quantos não precisaram de ti?

— Estou cansado, Senhor.

— Estás vivo e isso nos basta.

— Não é bem assim, parece-me.

Hesito.

— Mas, se o dizes, Senhor, obedecerei. Que mais posso fazer?

— Confiar, criatura. Confiar.