devolve-me o cheiro das gaiolas,
aquela camisa de alças verdes que levava para o treino,
o odor forte da gasolina
com que o meu pai lavava as máquinas de escrever.
O rumor do aspirador aos sábados era a minha mãe
a limpar a casa; depois, a cera,
a enceradora bordeau da Hoover.
Sábado era bom:
a mãe limpava e cuidava;
o pai levava-me a jogar futebol
com os meus amigos para o Estádio Nacional.
Às vezes ia comigo o Rui,
tinha uma camisola amarela da Hertz,
aluguer de automóveis.
Era linda,
uma embaixada de sol
sobre o ervado tosco onde a bola rolava.
Sentia-me tão importante ali,
tão importante como qualquer jogador
ao entrar num jogo do Mundial.
Fecho a caderneta dos cromos
e tudo se apaga.
Uma golfada de vento entra pela janela,
leva os cheiros, leves como borboletas.
Apenas me reconforta pensar
que também hoje serão memórias vindouras,
mas naquele tempo
a morte ainda não estava lá.
Agora, vejo-a ao longe,
silhueta negra montada a cavalo.
Não consigo entender
se galopa
ou vem a passo
na minha direção.