02/02/2026

Outro Dilúvio


“E as águas prevaleceram.” (Gn 7,24)


Nem aqui, sobre a terra,
o inferno será eterno,
nem o paraíso tão longe assim.
Mesmo os ódios
se dissiparão com a morte.
As árvores também (infelizmente).
A chuva continuará,
e a terra encharcada apagará 
as pegadas.

Assim se espraia este dilúvio: 
dentro dos ovos esperados,
entre os galhos despidos,
onde se esconde, por enquanto,
a primavera. 

24/01/2026

Antes da forma

Desculpem as coisas.

Não eram apenas substância antes de alguém lhes dar forma?

A culpa, se culpa houver, é do oleiro, do molde, da mão humana, desse desejo em tomar a lava, grito magmático, sulfuroso ainda, e dar-lhe uma ordem exata, um uso tão temporal como a palavra agora.

Os gatos, os peixes e mesmo os pássaros do outro lado da janela raramente dão forma a qualquer matéria.

Um ninho, talvez, ou uma leve ladeira para esconder as fezes, uma arena estranha fazem os peixes, sem utilidade aparente.

A cidade é diferente: é uma vontade, estrutura memorável mas afinal epidérmica, sobre um animal devorável / adorável. 


22/01/2026

A bússola

Sempre que posso, venho embuscar-me num estacionamento junto à estrada. Escrevo dentro do carro. O sol espreita por detrás do monte e reajusta a minha bússola interior. Refaço na alma os pontos cardeais.

O monte está igual há décadas — é a fotografia dos avós pousada numa cómoda ao sábado à tarde. A nostalgia da natureza invade-me: ferida que não sara.

Preciso do campo mais do que nunca. O inverno ensaia a sua dança entre o frio e o sol — como nenhuma estação sabe fazê-lo. A pele oscila entre o arrepio e o raro calor de uma manhã iluminada.

As ervas, as canas, os arbustos silvestres — tudo aqui ainda mexe. Jóias que subsistem apesar do nosso desejo de conquistar, controlar, pôr a render.

Atrás de mim, carros passam. Ninguém parece perguntar pelo sentido da vida; seguem com a vontade animal da sobrevivência. Pode ser que seja melhor assim, aceitar sem questionar, como dizem os pseudoestóicos. Não sei. Talvez fosse melhor lutar — ainda que parando.

Amadora, 22 de janeiro de 2026