21/05/2026

A magnólia

A “Magnólia” da Luísa Neto Jorge é geométrica, um sortilégio feito de palavras.

Esta, aqui do bairro, medra escondida entre prédios pobres.

Poderei talvez ser o primeiro  a olhar para ela como um evento literário. 

Falta-me, porém, o fogo da poetisa e mais um milhão de atributos para elevar este arbusto ao lugar que ele merece.

Por isso é melhor deixá-lo por aqui, nas traseiras de um prédio de três andares, e também nestas poucas linhas tão anónimas quanto impotentes.

Bairro de Janeiro, 21 de maio de 2026



"Magnólia"
         Luiza Neto Jorge

 

A exaltação do mínimo,
e o magnifico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria — na metáfora —
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.



20/05/2026

O refúgio


Passo pelos dias e aqui, neste moleskine, vou registando os sentimentos e as memórias à medida que surgem. Às vezes dou por mim a encontrar uma contradição na vontade de escrever: quanto menos disponibilidade tenho, mais necessidade sinto de o fazer.

Talvez porque como escreveu Alberto Caeiro, escrever poesia seja uma forma de estar sozinho. E por isso serei, neste momento, aquele bebé vestido com um babygrow de verão, brincando descalço, maravilhado com a sensação de tocar nos próprios pés, fechando um pequeno circulo, casulo ainda recente, porém, autossuficiente, e por breves momentos, senhor do meu corpo e da minha consciência.

13/05/2026

Fantasmas ou Álvaro de Campos Ressuscitado


Encolheste as paredes da sala,

os votos livres e sinceros

que fazes sempre no início de cada ano.


Leste livros antigos,

demasiado antigos, diria,

poemas que não lembram ao diabo,

quanto mais às pessoas simples

com quem querias, quiçá, conviver um dia.


“Já leu os clássicos”, perguntava o Adelino,

quando queria colocar alguém

no seu devido lugar.

Mas para que te serve agora lê-los

se te arrumam depois na prateleira

onde foste buscá-los.


O mundo afunilou, sentes-te de novo

confortável a brincar com os legos

sobre a alcatifa do quarto.

Esperas confiante que um fantasma

te chame e sirva o almoço já pronto.


E ali ficas, deserdado do tempo,

olhos virados do avesso,

mãos incapazes do tacto,

pés que se recusam a partir outra vez.


E a pergunta que salta entre gerações

assoma-te mais uma vez:

“Afinal o que ficou, quando já não és?”