22/03/2026

Bem vistas as coisas


Bem vistas as coisas, os sinais coincidem:
“sixty-seven, sixty-seven”,
dizem as crianças
e riem-se, sem saber porquê.

— Esse sessenta e sete no seu email, professor?
— O ano em que nasci.

Serei Elias?
Ezequiel?
Vim para batizá-las
ou para morrer por elas?

“Pai, afasta de mim esse cálice.”
“Deus meus, Deus meus…”

Devem dizê-lo também
as empregadas da limpeza
às seis da manhã na Estação do Oriente,
o professor que sempre acreditou,
o bombeiro,
o polícia.

“Sessenta e sete, sixty-seven”
dizem,
riem.

É claro que penso:
não posso ser eu.
Quantos dementes
não pensaram o mesmo?

O saco dos portáteis pesa.
As escadas.
A sala dos professores — o gólgota.
E o cireneu
não aparece.

“sixty-seven, sixty-seven”
Mas quantos como eu
nasceram em 67?
Quantos, no silêncio da casa,
acreditaram: sou eu?

Blasfémia.
Blasfémia.

Não.
Quanto muito,
um dos bem-aventurados.
Mas qual?
Mas acredito eu?

18/03/2026

Dentro do carro

A chuva acentua a clausura, reduz sons, retira gente da rua. É um curto dilúvio, não redentor, mas paliativo. Os vidros esfumam-se, como pálpebras que se preparam para o sono.


Do outro lado, imaginas os campos, a ambição dos rios — ribeiras que acordam de súbito quando sentem os pingos frios sob a pele.


Antecipas o sol, o clamor esfomeado dos animais, a urgência das flores e das suas feromonas correndo pela charneca à procura das abelhas arregimentadas pela luz que regressará em força.


E tudo isto se repete, vezes sem conta, a partir da bolha que te enclausura o corpo e expande o que imaginas.


Amadora, 18 de Março de 2026


15/03/2026

O campo das liliáceas

No cascalho irrompem flores amarelas.
Mas se por aqui pusesse o nome delas,
murcharia a marcha melódica dos fonemas.

Nem todos têm a coragem de Pessanha
para escrever duas vezes num poema,
duas vezes "o campo das liliáceas".