03/05/2026

A caderneta dos cromos

Desfolhar a caderneta dos cromos,
devolve-me o cheiro das gaiolas,
aquela camisa de alças verdes que levava para o treino,
o odor forte da gasolina
com que o meu pai lavava as máquinas de escrever.

O rumor do aspirador aos sábados era a minha mãe
a limpar a casa; depois, a cera,
a enceradora bordeau da Hoover.

Sábado era bom:
a mãe limpava e cuidava;
o pai levava-me a jogar futebol
com os meus amigos para o Estádio Nacional.
Às vezes ia comigo o Rui,
tinha uma camisola amarela da Hertz,
aluguer de automóveis.
Era linda,
uma embaixada de sol
sobre o ervado tosco onde a bola rolava.

Sentia-me tão importante ali,
tão importante como qualquer jogador
ao entrar num jogo do Mundial.

Fecho a caderneta dos cromos
e tudo se apaga.

Uma golfada de vento entra pela janela,
leva os cheiros, leves como borboletas.
Apenas me reconforta pensar
que também hoje serão memórias vindouras,
mas naquele tempo
a morte ainda não estava lá.

Agora, vejo-a ao longe,
silhueta negra montada a cavalo.
Não consigo entender
se galopa
ou vem a passo
na minha direção.


15/04/2026

Abril

Amarelo e verde somente.
O ruído dos motores nas costas
(falta por aqui o som das aves, parece).

Uma sirene assoma distante,
como o estrondo das marés vivas
numa pensão junto à costa.

Chegaram as nuvens
no exato lugar onde eu as glosei
num poema há dez, onze anos
(é diante delas que meço o tempo).

Os verdes e os amarelos
 misturam-se agora
à falta de luz.
Os carros, não —
imunes, imparáveis.

Chegou o melro,
pousou na cana.
Penso na liberdade
como quem hesita.

(Há quem coma a sopa
sem se interrogar.
Eu, não.)

April is the cruellest month...


14/04/2026

Paisagem para Fechar os Olhos

Pergunto-me: será normal apetecer-me fechar os olhos para estar de novo ali, numa estrada distante entre Portugal e Espanha, ladeado de cegonhas e prados, sob aquela luz morrente, acabada de escapar às nuvens baixas, com as vacas a pastar, o pueblo espanhol e as suas bebidas espirituosas, o pão branco, o modo determinado de ser daquela gente extremenha.

Como é eterno e breve este espaço onde guardamos as memórias. Felizmente, trouxemos queijos que perfumam a casa de salgado e leite de ovelha e cabra.
E assim convoco o espaço que deixei lá atrás na tal estrada distante.

É impossível não gostar da primavera quando ela se torna hegemónica — quase uma ditadura
que se impõe sem dar lugar à liberdade de mais nenhuma estação.