19/08/2026

Imóvel

Abres o livro.
 O dia está tão claro, parece-te. 
No entanto, refreias a tentação de descer até à praia.
 E fortificas-te dentro da bolha de sabão,
 flutuando ao sabor do acaso, imaginando o tráfego, 
as dores num hospital das redondezas.

Crês na ilusão de que,
 por detrás dessa parede de água e sabão, 
ninguém te poderá comer até ao caroço, 
como se fosses uma nêspera.

16/08/2026

A vitória dos pequenos

Fazes-me tanta companhia, como um relato de futebol, num domingo à tarde, há cinquenta anos.

Uma telefonia bastava para que nos sentíssemos acompanhados. Lembro-me como se fosse hoje: nesse dia ganhámos ao Benfica por um a zero.

 O Bento estava na baliza deles, e eu julgava-o inultrapassável. Mas o lateral-esquerdo, um negro barbudo chamado Alberto, lá me deu essa grande alegria.

Ao teu lado, gatinha, sinto o mesmo conforto que senti nesse golo marcado ao magnífico Benfica.

Chamemos-lhe a vitória dos pequenos

13/08/2026

InRIOtornável



Nada marcas do que se passa em teu redor.

Talvez saibas que o rio não retorna aqui. E mesmo que retornasse, não o reconhecerias, nem ele a ti.

Porque o tempo e o lugar são a mesma coisa, o mesmo encontro ou desencontro.

Se, porém, a corrente fluísse da foz para a nascente,
verias, submersos e informes,
os corpos jazentes dos teus entes queridos,
regressando apócrifos.

Devias por isso guardar 
numa caixa de sapatos 
algumas fotografias antigas.

Talvez assim, 
tu e o rio se reconhecessem.