23/08/2026

O último dia de verão

O vento esgarça o último dia de verão. Hoje a luz empalideceu à nascença. Os meteorologistas haviam já avisado, retirando assim qualquer possibilidade de espanto e de gozo das coisas inesperadas.

Amanhã regresso à escola. Por isso avento, como um romântico do século XVIII, que a minha tristeza e a natureza são uma e uma só: síntese afinada entre a pequena coisa que sou e um lamento universal que se deixou, sabe-se lá porquê, ouvir.

O vento não pára. A sua existência vai-se tornando normal, por aqui, junto à praia, à medida que o verão se evapora, como uma cafeteira esquecida ao lume ou um livro que deixámos a meio e não sabemos onde o pusemos.

Aroeira, 23 de agosto de 2026

Foto da Adobe Stock

19/08/2026

Imóvel

Abres o livro.
 O dia está tão claro, parece-te. 
No entanto, refreias a tentação de descer até à praia.
 E ficas assim dentro da bolha de sabão,
 flutuando ao sabor do acaso,
 imaginando o tráfego, 
as dores num hospital das redondezas.

Crês na ilusão de que,
 por detrás dessa parede de água e sabão, 
ninguém te poderá comer até ao caroço, 
como se fosses uma nêspera.

16/08/2026

A vitória dos pequenos

Fazes-me tanta companhia, como um relato de futebol, num domingo à tarde, há cinquenta anos.

Uma telefonia bastava para que nos sentíssemos acompanhados. Lembro-me como se fosse hoje: nesse dia ganhámos ao Benfica por um a zero.

 O Bento estava na baliza deles, e eu julgava-o inultrapassável. Mas o lateral-esquerdo, um negro barbudo chamado Alberto, lá me deu essa grande alegria.

Ao teu lado, gatinha, sinto o mesmo conforto que senti nesse golo marcado ao magnífico Benfica.

Chamemos-lhe a vitória dos pequenos