30/08/2026

Imaginar

Em casa, pouco havia que fazer: dois canais de televisão a preto e branco, alguns rádios para ouvir os relatos de hóquei à terça-feira e alguns programas de rádio — Rock em Stock, de Luís Filipe Barros, o Oceano Pacífico, ou mesmo os Parodiantes de Lisboa. Estes últimos ouvidos durante o almoço comido à pressa porque tinhamos combinado ir brincar ou nesse ano tinhamos aulas à tarde.

Com a chegada das rádios locais, porém, o espectro de alternativas abriu-se bastante. A minha favorita era a Rádio Mais, onde trabalhavam o Jorge Gabriel e os meus amigos Marco Santos e o Rui Nunes da Costa .

A Mais e a Rádio Cidade estavam localizadas na Amadora, uma cidade em crescendo desde que fora elevada a município. Para mim, a Amadora era também a Loja das calças, os campos de basquetebol ao lado da linha do comboio e o Cine Plaza.

Havia o mito de que em Queluz havia sete rapazes para cada rapariga e, na Amadora, acontecia o contrário. Mito ou não, casei-me com a Fatinha, uma bonita amadorense, nascida em Tancos, filha de militar. E assim estou há 34 anos, vivendo na pseudo-rival Amadora.

Há pouco tempo, numa viagem pelo Norte, fui jantar a um restaurante nas Termas de São Pedro do Sul. Em vez da Sport TV, havia uma rádio a transmitir o relato de um jogo. Impressionou-me a sugestão das palavras, ao invés da evidência das imagens. E percebi que era assim a nossa infância: éramos obrigados a imaginar.

Líamos, ouvíamos rádio, inventávamos brincadeiras com os carrinhos, os Legos, os soldados do Airfix. Tudo nos pedia uma participação da imaginação. Talvez por isso as coisas que imaginávamos fossem, de certa forma, mais nossas. As imagens não nos eram dadas: construíamo-las dentro de nós.

E creio que essa capacidade de reproduzir interiormente o mundo, de o transformar em imagens dentro da nossa cabeça, é uma das coisas mais extraordinárias de que somos capazes. Não era por acaso que John Lennon cantava Imagine. Não era por acaso que começava o refrão com aquelas palavras: Imagine all the people.


Talvez essa mesma imaginação fosse a nossa forma de habitar os dias, mesmo quando o tempo parecia estagnar no fim do Verão. Porque a verdade é que as férias acabavam sempre depressa de mais. Chegávamos de férias no dia 31 de agosto. Naquela época, quase toda a gente partia e regressava de férias nos mesmos dias. Estendia-se então diante de nós o longo mês de setembro, esse intervalo entre o fim das férias e o começo das aulas.

A pergunta que começava a medrar era: quem seria a nossa turma naquele ano?

Pensávamos em estratégias de comportamento e de relação, preparávamos os guarda-roupas possíveis, com peças compradas nos Porfirios ou, para os mais alternativos, nas lojas de fardas militares da Feira da Ladra. Esse lugar excêntrico onde, às terças e aos sábados, às seis da manhã, lá íamos nós vender as velharias lá de casa e comprar discos de vinil em décima terceira mão.

Chegado outubro, vinha a primeira aula, as primeiras sensações e afinidades, os primeiros olhares, as primeiras químicas amorosas. E também os primeiros jogos de futebol entre a rapaziada, atrás dos pavilhões, onde as mochilas e as malas empilhadas faziam de postes de baliza.

O Russo, o Gordo ou o Carenque traziam a bola. E que emoção imaginar-nos jogadores a sério durante os cinquenta minutos do furo de Francês.

Depois dava o segundo toque e lá íamos nós, suados e excitados ainda, a correr em manada para a aula de Físico-Química.

“Desculpe o atraso, professora. Podemos entrar?”

“Sempre os mesmos. Entrem lá. Mas para a próxima têm falta.”

E depois, bico calado, que os professores de Ciências e Matemática não eram para brincadeiras.

29/08/2026

Limbo

Incognoscível,
esta dor acorda comigo.

(Abro a janela.)

E logo entra o rosnar dos motores.
A toutinegra, porém, canta.

E o prazer então se expande
entre o som dos pistões e das roldanas.

É como se Alberto Caeiro 
e Álvaro de Campos se tivessem encontrado
para discutir como haviam de sobreviver
ao primeiro anel do inferno de Dante.

24/08/2026

O rumor da cidade

Enquanto espero que o semáforo abra, os carros passam à minha volta. Passam, porém, tão longe de mim que nunca os vi assim: tão iguais, quase coisas teleguiadas, movendo-se num ritmo constante e maquinal. O asfalto molhado produz um efeito estranho, um rumor contínuo, semelhante ao zumbido das abelhas — provavelmente àquele que se escuta junto à porta das colmeias.

Apesar de tudo, é nas cidades que se nasce, vive e morre. Nas zonas mais populosas, as cidades encostam-se umas às outras, confundem-se, tornando difícil atribuir-lhes uma identidade exclusiva. Talvez porque cada cidade contenha outras, mais pequenas, lá dentro: ilhas de betão consolidadas, com aspecto e hábitos próprios. Distinguem-se pelas cores, pela volumetria, pela existência ou ausência de espaços verdes, públicos ou privados.

Pode-se — e deve-se — descansar no campo. Nem imagino, porém, o que será trabalhar por lá. Deve existir ali uma proximidade entre as pessoas difícil de encontrar na cidade, uma tendência para se organizarem em pequenos núcleos onde todos, de algum modo, se conhecem.

Ainda nos anos 80, as grandes avenidas de Lisboa pareciam, ao fim de semana, ruas de uma aldeia quase desabitada. Hoje é diferente. A cidade prolonga o dia pela noite dentro, enche os lugares que antes ficavam vazios e, cada vez mais, parece querer imitar a Big Apple, Nova Iorque, a cidade que nunca dorme.