03/11/2026

Os primeiros americanos

Ninguém terá pensado ou versejado como os primeiros grandes escritores norte-americanos: Whitman, Emerson, Thoreau ou Dickinson. Nunca encontrei nada verdadeiramente semelhante nas outras literaturas.

As grandes extensões naturais, a cultura cristã e, eventualmente, a herança clássica que lhes chegava através das suas ligações à Europa terão contribuído para esta maneira diferente de pensar: a natureza como caminho para compreender e, de algum modo, salvar o humano. Talvez fosse uma espécie de romantismo tardio. Ainda que, em Whitman, a natureza começa precisamente onde começa o corpo — algo que não me lembro de ter lido nos românticos da velha Europa.

(A propósito, gostava de ter mais tempo para escrever e pensar. Mas a parva da vida profissional não me dá tréguas. Damn it!)

Talvez não seja excessivo afirmar que, cem anos mais tarde, a geração Beat, com Kerouac e Ginsberg, deu continuidade a esta liberdade de espírito, a esta comunhão com a natureza e com a própria liberdade.

E, por sorte minha, nasci nos anos 60 e sempre me senti atraído por esta maneira de olhar o mundo: natural, livre, avessa às convenções. O meu pai, preocupado com o sentido prático da vida, bem tentava explicar-me que os argumentos dos hippies eram socialmente insustentáveis. 

Talvez tivesse alguma razão. Mas sempre fui, e provavelmente serei, um hippie — ainda que o esconda a maior parte das vezes, para conseguir sobreviver por aqui.

Amadora, 3 de novembro de 2026

30/10/2026

Do corpo à memória

Há por aqui um perfume de mulher,
tesão capaz de erguer
todos os estandartes da centúria,
fome a haver de ternura,
Verbo feito carne
como nas Escrituras.

E depois passa.
Tudo passa.

Esquece-se o cheiro salgado
que tinham as raparigas na juventude,
quando saíam do mar,
o seu rasto luminoso,
levando os rapazes
para trás dos pavilhões
da escola secundária.

Fecham-se os olhos.
Dilatam-se as narinas,
abre-se a boca,
como fazem os gatos,
que também sabem cheirar
pelo palato.

E, com sorte,
desvela-se ainda um aroma
na brisa primaveril
deste perfume de outono:

fruto caído
à sombra do castanheiro,
que se finge semente
e semente será,
talvez.

29/10/2026

O que foi verde


'Lo visible es un adorno de lo invisible'
Roberto Juarroz

Choro.
E as coisas do meu quarto choram também,
assim como as árvores, as canas,
o mato que cresce entretanto
do lado fora da casa.

O que foi verde
tem agora um matiz cinzento
que não encontro em lado algum,
a não ser quando, aqui sentado,
entristeço com os olhos
as coisas que vejo.