08/05/2026

O mendigo

Ad memorium António 


A manhã é a angústia dos poetas,
a sua voz a desaparecer,
quase pronta para sair para a guerra.

A manhã é querer viver
e morrer ao mesmo tempo,
indefinição por desencriptar,
como um novelo deixado ao gato,
leve toque de paixão,
curiosidade animal
à beira daquele precipício
que horas abrem nas agendas.

— Já marcaste férias? — pergunta-me ela.

O mundo inteiro são férias,
bem vistas as coisas.
Podíamos voar de cidade em cidade
exatamente no dia
em que cada uma delas
fecha para férias.

Os olhos do gato
são prazer e mistério.
O gato é um mendigo
que trouxemos para casa.
Arredio às ordens,
viciado nos hábitos da rua,
na liberdade austera
de não ter nada,
apenas tempo a haver.

Sou o teu mendigo disfarçado.
Espero que não te sintas
assim levemente enganada.
Fico sempre com a sensação
de que a liberdade
é grande demais
para esta sala de estar apertada.

Amadora, 8 de Maio de 2026

03/05/2026

A caderneta dos cromos



Desfolhar a caderneta dos cromos,
devolve-me o cheiro das gaiolas,
aquela camisa de alças verdes que levava para o treino,
o odor forte da gasolina
com que o meu pai lavava as máquinas de escrever.

O rumor do aspirador aos sábados era a minha mãe
a limpar a casa; depois, a cera,
a enceradora bordeaux da Hoover.

Sábado era bom:
a mãe limpava e cuidava;
o pai levava-me a jogar futebol
com os amigos para o Estádio Nacional.
Às vezes ia comigo o Rui,
tinha uma camisola amarela da Hertz,
aluguer de automóveis.
Era linda,
uma embaixada de sol
sobre o ervado tosco onde a bola rolava.

Sentia-me tão importante ali,
tão importante como qualquer jogador
ao entrar num jogo do Mundial.

Fecho a caderneta dos cromos
e tudo se apaga.

Uma golfada de vento entra pela janela,
leva os cheiros, leves como borboletas.
Apenas me reconforta pensar
que também hoje serão memórias vindouras,
mas naquele tempo
a morte ainda não estava lá.

Agora, vejo-a ao longe,
silhueta negra montada a cavalo.
Não consigo entender
se galopa
ou vem a passo
na minha direção.






15/04/2026

Abril

Amarelo e verde somente.
O ruído dos motores nas costas
(falta por aqui o som das aves, parece).

Uma sirene assoma distante,
como o estrondo das marés vivas
numa pensão junto à costa.

Chegaram as nuvens
no exato lugar onde eu as glosei
num poema há dez, onze anos
(é diante delas que meço o tempo).

Os verdes e os amarelos
 misturam-se agora
à falta de luz.
Os carros, não —
imunes, imparáveis.

Chegou o melro,
pousou na cana.
Penso na liberdade
como quem hesita.

(Há quem coma a sopa
sem se interrogar.
Eu, não.)

April is the cruellest month...