25/09/2026

Perímetro da Paz



Arrulham os pombinhos
no largo solitário do jardim.

Os bancos estão sujos.
É mesmo assim.

Por detrás,
marcando o perímetro da paz,
o muro do cemitério.

Ao fundo,
as vozes brilhantes das virgens,
que entre o idílico e o lúgubre
aqui se comprazem,

num jardim súbito
de moinhos sem velas.




21/09/2026

Os mendigos do tempo

Nós somos os mortos.

Já ouvi e escrevi esta sentença algumas vezes.

Terra a queimar as palmas dos pés,
o andar escangalhado
 sobre a areia escaldante das duas da tarde.

E assim somos:
 andamos em frente, 
de costas voltadas para o futuro.
Enxergamos apenas cemitérios e cemitérios 
a perder de vista.

Faças bem ou mal, 
ninguém vai morrer por ti.

Foste entregue a uma solidão 
parecida com a do astronauta 
que ficou sozinho entre Marte e a Terra,
 a levitar no vazio.

Estás cercado de infinito, 
pequeno grão, 
nanosegundo universal,
 mendigo do tempo, 
pedinte de uma esmola
 que ninguém pode dar.

E então Deus vem ter contigo.

Aleluia.

18/09/2026

Cota máxima


Deixa a cidade descarregar o seu peso.
Canta-lhe um salmo.
Encaminha-a para um lugar alto,
para a cota máxima,
para o sítio do moinho.

Lá em cima,
mostra-lhe os caminhos possíveis:
para a serra, para as praias,
para os ninhos dos melros,
feitos e desfeitos
na periferia  das vivendas
aparentemente felizes.

Toda a confusão se dissipa
e se ordena no sítio do moinho velho,
acredita.
Assegurou-me disso,
em tempos, um pintor qualquer.

O pintor já morreu.
O moinho julgo que também.

Mas ainda lá se chega.