30/06/2026

Irremediável

A vida é tão pouco.
Talvez por isso a gata durma, irremediável, na marquise.
Lá sabe ela que pouco mais temos do que o sol
e a noite, quando chega, parece vir para sempre.
O comboio finge que passa, mas não.
Volta e revolta, a toda a hora.
Dirão que é outro comboio, outros passageiros.
Mas o que passa por aqui 
é sempre o mesmo comboio,
sempre as mesmas pessoas.
Conheci-as noutros tempos.
Quando as revejo, calo-me e sigo.
Temos vergonha uns dos outros,
porque não conseguimos sair daqui.

Angústia

Às vezes nem sei o que escrever. O sentimento que mais me acompanha é a angústia: a consciência da nossa impotência perante os constrangimentos da vida.

Os dados já foram lançados há muito. Até aos quarenta anos, temos a sensação de que ainda rolam sobre o pano verde da mesa e de que tudo permanece em aberto. Depois começam a parar, um a um, redefinindo lentamente o número que nos calhará em sorte.

Vinte anos mais tarde, dos seis dados que lançámos, apenas um continua a rolar. Vamos, por isso, somando os pontos dos dados já imóveis, sabendo de antemão que a sorte que nos coube dificilmente poderá ser alterada.

26/06/2026

O silêncio das pirâmides

O que te devem, afinal, as coisas?
 As memórias e os lapsos?
Podias bem fechar os olhos
 e adormecer para sempre ali, 
como escreveu Pessanha,
 seguro e firme, aconchegado.

Podiam depois saltar, calcar, 
pois nada iria doer-te.
E mesmo as injúrias e os gritos perder-se-iam no silêncio intransigente das grandes Pirâmides de Gizé.