06/06/2026

O reencontro


Escreveu Alberto Caeiro que a poesia não era para ele uma forma de emancipação artística ou coisa do género, mas tão-só uma forma de estar sozinho. E estar sozinho não quer dizer estar num monólogo, não é isso. Quando escrevemos, somos nós a falar para nós próprios, connosco, ouvindo a conversa.


Entre os trinta e os quarenta e três anos, pouca poesia escrevi. Aliás, não sei que sonho, ou que sentimento de missão, me atirou para aquela quimera universitária e profissional tão prolongada. Quando esse projeto de ascensão profissional se desvaneceu, estava na puta da merda e tive de me reconstruir com os cacos.

Encontrei na religião algum conforto e algum sentido para o sofrimento; encontrei paz e recolhimento interior. Creio que ainda fui a tempo. Ainda assim, sinto que vivi demasiado tempo num presídio, cumprindo um destino que não escolhi.

Foi o que foi.

Talvez as trevas, ainda que travestidas por algumas lantejoulas, tenham-me dado o discernimento necessário para querer ser feliz, para ser professor, para voltar a escrever. Porém, o tempo dos homens é curto e nenhuma gota de rio passa duas vezes pelo mesmo sítio. E não é apenas uma impossibilidade espacial ou temporal, mas ambas em simultâneo, porque, mesmo que a gota voltasse a passar, as margens já teriam mudado.

Quando vou em busca do tempo perdido, recuo à infância e à primeira juventude. Esse tempo, sim, ficou registado na memória, de forma fantástica ou não, para sempre. Esse “sempre” arder, que é a vida de um homem.

27/05/2026

Sonambulismo

Sonambulismo,
caminhos memorizados,
agora abertos nos meus olhos fechados.

Não sei de nada.
Não posso querer mais
que este dormir andando
entre os cacos da noite anterior,
brilhantes, dispersos,
como um leopardo à espera
dos meus pés descalços, sonâmbulos.

.

21/05/2026

A magnólia

A “Magnólia” da Luísa Neto Jorge é geométrica, um sortilégio feito de palavras.

Esta, aqui do bairro, medra escondida entre prédios pobres.

Poderei talvez ser o primeiro  a olhar para ela como um evento literário. 

Falta-me, porém, o fogo da poetisa e mais um milhão de atributos para elevar este arbusto ao lugar que ele merece.

Por isso é melhor deixá-lo por aqui, nas traseiras de um prédio de três andares, e também nestas poucas linhas tão anónimas quanto impotentes.

Bairro de Janeiro, 21 de maio de 2026



"Magnólia"
         Luiza Neto Jorge

 

A exaltação do mínimo,
e o magnifico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria — na metáfora —
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.