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quinta-feira, 17 de junho de 2021

Cuidados

Dizem que os ossos se desfazem,
quando as lágrimas sabem a sal.

Dizem que  sulcos  escavam a face,
quando a lava transborda do coração.

Dizem muita coisa da  ausência
e da infelicidade que o tempo acumula sobre móveis.


Talvez sejam apenas rumores,
 inquietações da fala.

Ainda assim, refugiu-me na ilusão, 
a estação seca dos olhos.

E encosto a porta para que possas entrar 
com um caldo quente que arrefeça sem magoar.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Um sol enganador

 Olhou para mim e deixou-se lacrimejar. Era um sinal de paixão contida. Gostaria de ter-lhe perguntado o porquê daqueles olhos húmidos, daquele sentimento que crescia no seu íntimo como um rio subterrâneo de onde apenas um fio de água alcança a superfície. Não sabia se estava triste por si, por mim ou por ambos através de uma visão refletida entre as nossas vidas. Revia-se em mim? A minha tristeza ecoava na sua e vice-versa?

Naquela manhã, eu acordara com uma lucidez nascida das sombras. Uma realidade trágica  emergira depois de uma noite mal dormida: a desesperança, as promessas tornadas condições materiais e por isso mesmo transformadas numa espécie de canga que colocamos nos animais para puxar as charruas, a velhice, a impotência que sempre existiu, mas que conseguimos esquecê-la durante grande parte da vida, as mentiras que contamos a nós próprios para viver, para sermos amados, as traições, os ódios, as invejas e tudo o mais com que um ser humano consegue envenenar a graça da vida. Tudo isto se tornou nítido naquela manhã de uma forma exponencial. À minha frente, quem me conhece desde as entranhas lacrimejava em silêncio e de mansinho, como se adivinhasse cada uma das conclusões  que eu havia encontrado naquela manhã de  um sol brilhante, e só por isso, enganador.

domingo, 13 de junho de 2021

Oração

    Gosto de caminhar por uma charneca existente junto à Estrada dos Salgados na Amadora. É um local ainda impoluto, onde se podem observar muitas espécies animais e vegetais. Por ali vou compondo alguns dos meus poemas nos últimos cinco ou seis anos. Desta vez à medida que encontrava alguma evidência que me sensibilizava, escrevia um destes versos que se iam perfilando em modo de oração. Confesso que os pirilampos são importados de passeios crepusculares, não estando assim em sincronia com o resto do poema. 

    Acredito que o futuro acentuará esta síntese entre a religião e a natureza, ou seja, entre o criador e a obra. Registei também fotograficamente alguns desses momentos que também aqui deixo.


Oração 

Nossa Senhora dos Fenos guia-nos pelos atalhos dos cavalos selvagens.

Nossa Senhora das Borboletas ensina-nos em que flores orar.

Nossa Senhora  dos Pirilampos alumia a noite dos enfermos.

Nossa Senhora dos Ribeiros sacia-nos a sede de infinito.

Nossa Senhora das Formigas ajuda-nos a carregar a culpa e o castigo.

Nossa Senhora das Carriças encaminha-nos  para o ninho.

Nossa Senhora das Trovões explica-nos as nuvens negras do caminho.











segunda-feira, 24 de maio de 2021

O diário que não escrevi

 Eu amava-a profundamente, ainda que este advérbio de modo não ajudasse a representar o meu sentimento por ela. O meu amor era de uma esfera mais elevada do que aquela onde as palavras significavam ideias convencionais. Por isso, quando ela me pedia para eu dizer-lhe explicitamente que a amava, recusava, evocando argumentos dúbios. Não era possível explicar-lhe a minha teimosia sem falar de magia, de mistério, de coisas apenas intuídas, mas que ainda não tinham para mim uma explicação inteligível. A mais humana das razões era o medo. O medo de nomear o meu sentimento numa camada mais baixa da existência do que aquela onde o meu desejo se havia estabelecido: etéreo, mas vivaz; mental, mas ardente.




domingo, 23 de maio de 2021

Aviso

 Aos meus filhos disse:

cuidado com os poemas

que queimam as pontas dos dedos

com ácido clorídrico

e desfazem pouco a pouco a traqueia

com o atrito daquelas partículas sintáticas

que ficam a mais nas esquinas dos versos.


Se querem ser poetas, meus filhos,

esqueçam  Kant, esqueçam Séneca

 e outros doutos cânones da razão.

Em vez disso, empreendam  sobretudo

uma melodia doida

saltando de galho em galho

pelo bosque naufrago dos moucos.


Em qualquer café da cidade, dir-vos-ão

que toda a poesia são diapositivos insanos

projetados em paredes rebocadas de lama e ilusão.


terça-feira, 18 de maio de 2021

A ruína

No cimo da escarpa avista-se  um castelo em ruínas. Suas torres e muralhas erguem-se agora caquéticas, como dentes espaçados e incompletos.  Ali, abandonado, o antigo bastião é um monumento à solidão. Ninguém lhe presta  já um carinho, uma breve homenagem sequer.  Apenas as cabras e as vacas lhe fazem companhia. Pela sua localização e envergadura, adivinha-se a importância de outrora.  

O castelo viu  partir os inimigos primeiro; os seus soldados com o último alcaide, tempos depois. Queixou-se a quem o ouvisse  da ingratidão  dos que o deixaram, apesar da sua inexpugnável solidez. 

Jamais assumiu  a sua inércia. Em vez disso, deu-lhe para culpar a história, as modas e a traição daqueles a quem dera boa guarida. Esquecera-se afinal  de mudar para continuar a fazer sentido.


Castelo de Peñafiel (Zarza La Mayor) 
Foto Fátima Rodrigues


segunda-feira, 17 de maio de 2021

A prenda

A caneta que me deste quase secou. Apenas escreve frases incompreensíveis e corruptas.
Quando me a ofereceste, escrevia de forma infinita e luzidia. Se   naquele tempo, a prenda selava a nossa amizade, agora julgo-a apenas uma daquelas cambalhotas que os periquitos fazem nos poleiros ou  uma teia de aranha para apanhar moscas. Infelizmente o tempo ora distorce a nossa percepção, ora a torna mais nítida. O que para o caso pouco importa.


Entre as poucas palavras que  ainda  escreve, todas me lembram que caminhamos  os dois, à semelhança da caneta,  para a inutilidade total.
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