18/03/2026

Dentro do carro

A chuva acentua a clausura, reduz sons, retira gente da rua. É um curto dilúvio, não redentor, mas paliativo. Os vidros esfumam-se, como pálpebras que se preparam para o sono.


Do outro lado, imaginas os campos, a ambição dos rios — ribeiras que acordam de súbito quando sentem os pingos frios sob a pele.


Antecipas o sol, o clamor esfomeado dos animais, a urgência das flores e das suas feromonas correndo pela charneca à procura das abelhas arregimentadas pela luz que regressará em força.


E tudo isto se repete, vezes sem conta, a partir da bolha que te enclausura o corpo e expande o que imaginas.


Amadora, 18 de Março de 2026


15/03/2026

O campo das liliáceas

No cascalho irrompem flores amarelas.
Mas se por aqui pusesse o nome delas,
murcharia a marcha melódica dos fonemas.

Nem todos têm a coragem de Pessanha
para escrever duas vezes num poema,
duas vezes "o campo das liliáceas".

06/03/2026

Poema a partir da nossa cama

A luz entra
pela fresta dos cortinados.

A cidade aproxima-se
como uma automotora
num túnel asmático.

As gaivotas pairam,
como abutres sobrevoando
os restos da noite.

O dia começa —
embora o passado continue aqui,
em analogias perversas.

Antigamente aquilo.

Agora isto.

Para me aliviar digo a mim mesmo:
é natural que assim penses.
Filtraste a memória,
recolheste apenas
o bem que ela guardava.

O passado é um veneno
a espalhar-se pelo sangue
enquanto ponderamos
os prós e os contras
da empresa
em que nos tornámos.

Quando o tempo
se esquece momentaneamente de nós
e nos lembramos
momentaneamente dele,

tudo isto acontece

porque a luz
que passa pelos cortinados
apenas nos deixa entrever
coisas que não vemos,
nem vimos nunca sequer.