07/02/2026

Desejo e Razão

Parece que o mau tempo não abranda.
O vento vem de Espanha, assim parece,
tem um sotaque carregado
e toma balanço nas planícies de Castela.

Sobre a refrega entre a razão e a energia,
escreveu Blake,
que são opostos no mesmo corpo.
A energia é o desejo,
a razão, a circunferência que o cinge.

O desejo é então o vento.
A circunferência não sei —
talvez as paredes altas,
as janelas fechadas por prudência,
essa qualidade
que tantas vezes disfarça o medo.


William Blake é o autor do livro "A união entre o céu e o inferno"

02/02/2026

Outro Dilúvio


“E as águas prevaleceram.” (Gn 7,24)


Nem aqui, sobre a terra,
o inferno será eterno,
nem o paraíso tão longe assim.
Mesmo os ódios
se dissiparão com a morte.
As árvores também (infelizmente).
A chuva continuará,
e a terra encharcada apagará 
as pegadas.

Assim se espraia este dilúvio: 
dentro dos ovos esperados,
entre os galhos despidos,
onde se esconde, por enquanto,
a primavera. 

24/01/2026

Antes da forma

Desculpem as coisas.

Não eram apenas substância antes de alguém lhes dar forma?

A culpa, se culpa houver, é do oleiro, do molde, da mão humana, desse desejo em tomar a lava, grito magmático, sulfuroso ainda, e dar-lhe uma ordem exata, um uso tão temporal como a palavra agora.

Os gatos, os peixes e mesmo os pássaros do outro lado da janela raramente dão forma a qualquer matéria.

Um ninho, talvez, ou uma leve ladeira para esconder as fezes, uma arena estranha fazem os peixes, sem utilidade aparente.

A cidade é diferente: é uma vontade, estrutura memorável mas afinal epidérmica, sobre um animal devorável / adorável.