14/10/2026

Se fosse hoje a última vez


Se fosse hoje a última vez, ninguém o levaria a mal, ou se espantaria sequer. Porque, apesar de ter havido tantas vezes, alguma teria de ser a última.

Houve vezes em que vesti a gabardina azul, em que vimos girar o nosso filho naquele carrossel, em Lagos, ou mesmo quando visitámos a Isla Mágica, em Sevilha.

Houve as vezes em que amanheceu e anoiteceu, enquanto pescávamos serenamente.

Houve e haverá a vez das galáxias se expandirem, ou mesmo das formigas de asa saírem dos formigueiros.

Se fosse hoje a última vez, porque alguém desligou a máquina, ou apenas porque o dedo escorregou no gatilho, o poeta era uma vez.

11/10/2026

A doença do azul

Cinzento, o céu promete chuva. Visto daqui, parece que há uma só nuvem a cobrir toda a Reboleira.

Ruy Belo era triste porque se lembrava da morte. O Nobre também, porque, de uma forma ou de outra, estava a morrer. Eu estou triste porque nasci mesmo assim: melancólico e sorumbático.

Contudo, quem me oiça pode achar-me até divertido, quanto baste. Alguns até dizem que tenho sentido de humor, sabe-se lá porquê. Acho que, se tinha alguma dessas qualidades, as fui perdendo com o tempo, nessa desesperança para a qual a vida nos atira, sem apelo nem recurso, a não ser o esquecimento. 

Mas, se esqueces, deixas de ser. É uma espécie de morte prematura.

Vai chover, mais tarde ou mais cedo. No fundo, até gosto de ver chover. Sinto que, finalmente, a minha temperatura, o meu modo de ser, se sintoniza com o mundo exterior.

No horizonte, porém, vejo uma aberta. O azul vai conquistando o cinzento como uma doença.

Vou ter de sorrir. Oh, merda!


Amadora, 11 de Outubro de 2026

06/10/2026

Torga

Li alguns diários de Torga que me influenciaram bastante, confesso. A sua autenticidade serena toca-me.

Sempre quis ser como ele, ainda que me pareça estar nos antípodas da sua personalidade, sempre tão depurada, desabrida, destemida. O seu tempo, o seu espaço infantojuvenil, esculpiu-o de uma forma única.

A Torga é um magro arbusto, que nasce entre as pedras. Às vezes penso que, se o conhecesse, dificilmente conseguiria estreitar relações com ele. Ou talvez não. O meio literário não é fácil e nem vou explicar porquê.

Contou-me um primo do meu pai que, apesar dos estreitos laços que mantinha com o Torga, lhe pediu um dia uma dedicatória. Ao que o escritor respondeu: “Os livros são para ler, não são para escrever.”

Não é fácil viver sem máscaras. Exige muito treino e autovigilância. Acho que o escritor transmontano conseguiu-o.

Recomendo a leitura dos seus livros de contos, Os Bichos e Novos Contos da Montanha. Quando era jovem, lia tudo o que tinha lá em casa — pouca coisa, por sinal.
 
Aos dezoito anos trabalhava numa seguradora, onde uma senhora, sabe-se lá porquê, de nome Maria Amélia, ofereceu-me As Pedras Lavradas, de Torga.

Nesse tempo já tinha lido na escola obras como Os Maias, A Morgadinha dos Canaviais, As Aventuras de João Sem Medo.
 
Mas foi nos contos de Torga que percebi, pela primeira vez, o que era a literatura. Não era tanto o que se contava, mas como se contava.

A partir disso, nunca mais larguei o Torga.