15/04/2026

Abril

Amarelo e verde somente.
O ruído dos motores nas costas
(falta por aqui o som das aves, parece).

Uma sirene assoma distante,
como o estrondo das marés vivas
numa pensão junto à costa.

Chegaram as nuvens
no exato lugar onde eu as glosei
num poema há dez, onze anos
(é diante delas que meço o tempo).

Os verdes e os amarelos
 misturam-se agora
à falta de luz.
Os carros, não —
imunes, imparáveis.

Chegou o melro,
pousou na cana.
Penso na liberdade
como quem hesita.

(Há quem coma a sopa
sem se interrogar.
Eu, não.)

April is the cruellest month...


14/04/2026

Paisagem para Fechar os Olhos

Pergunto-me: será normal apetecer-me fechar os olhos para estar de novo ali, numa estrada distante entre Portugal e Espanha, ladeado de cegonhas e prados, sob aquela luz morrente, acabada de escapar às nuvens baixas, com as vacas a pastar, o pueblo espanhol e as suas bebidas espirituosas, o pão branco, o modo determinado de ser daquela gente extremenha.

Como é eterno e breve este espaço onde guardamos as memórias. Felizmente, trouxemos queijos que perfumam a casa de salgado e leite de ovelha e cabra.
E assim convoco o espaço que deixei lá atrás na tal estrada distante.

É impossível não gostar da primavera quando ela se torna hegemónica — quase uma ditadura
que se impõe sem dar lugar à liberdade de mais nenhuma estação.

12/04/2026

O meu desassossego

Podia fazer-me de morto, podia — mas tenho tanto tempo para isso. Optei antes por fazer-me de moribundo, um semimorto: aquele que apenas escuta, contempla e reflete sobre as próprias sensações.

Não posso ter ilusões, porque conheço em demasia a teimosia das desilusões. Nem esperanças, porque o meu desejo é insaciável. E quando a esperança morre ao alcançar o que deseja, um novo barco parte em atividades exploratórias — por bairros, por pessoas a haver — à procura do acaso, do destino, do cruzamento, de uma volta de mar que me vire a vida do avesso.

Tenho porém tamanho lastro e tão curto velame no navio, sendo quase inevitável acabar fundeado a cem metros do porto, entre o cheiro do peixe vindo da docas e as correntes domésticas que passam, cordatas,
entre o pontão e a praia.