20/05/2026

O refúgio


Passo pelos dias e aqui, neste moleskine, vou registando os sentimentos e as memórias à medida que surgem. Às vezes dou por mim a encontrar uma contradição na vontade de escrever: quanto menos disponibilidade tenho, mais necessidade sinto de o fazer.

Talvez porque como escreveu Alberto Caeiro, escrever poesia seja uma forma de estar sozinho. E por isso serei, neste momento, aquele bebé vestido com um babygrow de verão, brincando descalço, maravilhado com a sensação de tocar nos próprios pés, mão e pé fechando um pequeno circulo, casulo ainda recente, porém, autossuficiente, e por breves momentos, senhor do meu corpo e da minha consciência.

13/05/2026

Fantasmas ou Álvaro de Campos Ressuscitado


Encolheste as paredes da sala,

os votos livres e sinceros

que fazes sempre no início de cada ano.


Leste livros antigos,

demasiado antigos, diria,

poemas que não lembram ao diabo,

quanto mais às pessoas simples

com quem querias, quiçá, conviver um dia.


“Já leu os clássicos”, perguntava o Adelino,

quando queria colocar alguém

no seu devido lugar.

Mas para que te serve agora lê-los

se te arrumam depois na prateleira

onde foste buscá-los.


O mundo afunilou, sentes-te de novo

confortável a brincar com os legos

sobre a alcatifa do quarto.

Esperas confiante que um fantasma

te chame e sirva o almoço já pronto.


E ali ficas, deserdado do tempo,

olhos virados do avesso,

mãos incapazes do tacto,

pés que se recusam a partir outra vez.


E a pergunta que salta entre gerações

assoma-te mais uma vez:

“Afinal o que ficou, quando já não és?”


10/05/2026

Língua arcaica

O gato ilumina o sol
que sai pela janela.

Na sala cresce um vácuo,
estende-se um rolo
escrito numa língua arcaica,

gruta húmida
a trezentos passos
de profundidade,

onde as palavras
são apenas um vapor quente
que arrefece logo ali
no céu da boca.