Árvore com voz
Textos de Luís Palma Gomes
11/10/2026
A doença do azul
06/10/2026
Torga
A Torga é um magro arbusto, que nasce entre as pedras. Às vezes penso que, se o conhecesse, dificilmente conseguiria estreitar relações com ele. Ou talvez não. O meio literário não é fácil e nem vou explicar porquê.
Contou-me um primo do meu pai que, apesar dos estreitos laços que mantinha com o Torga, lhe pediu um dia uma dedicatória. Ao que o escritor respondeu: “Os livros são para ler, não são para escrever.”
Não é fácil viver sem máscaras. Exige muito treino e autovigilância. Acho que o escritor transmontano conseguiu-o.
Recomendo a leitura dos seus livros de contos, Os Bichos e Novos Contos da Montanha. Quando era jovem, lia tudo o que tinha lá em casa — pouca coisa, por sinal.
Aos dezoito anos trabalhava numa seguradora, onde uma senhora, sabe-se lá porquê, de nome Maria Amélia, ofereceu-me As Pedras Lavradas, de Torga.
Nesse tempo já tinha lido na escola obras como Os Maias, A Morgadinha dos Canaviais, As Aventuras de João Sem Medo.
Mas foi nos contos de Torga que percebi, pela primeira vez, o que era a literatura. Não era tanto o que se contava, mas como se contava.
A partir disso, nunca mais larguei o Torga.
30/09/2026
O regresso da chuva
Chove.
Nunca choveu tanto para mim, apesar de ser miudinha. Mas era tanto o calor, tanta a secura, que, ao ver os pombos banharem-se outra vez nas poças, senti uma alegria tão subtil quanto inflamante.
Às vezes acredito que dançar à chuva — ai, pudesse eu, sem que me chamem louco — é como mergulhar no mar.
A chuva desperta os cheiros. Tudo se aproxima, afinal. Até os mesmos sons diluídos se tornam agora essenciais.
A gata reconhece os odores. Sobe ao parapeito. E o seu narizinho contorce-se, como um perdigueiro em caça.
Tinha saudades da chuva, confesso, e a ilusão de viver num país onde ela nunca cessasse.
Ainda assim a chuva parou.
E quando para, os pássaros saem dos abrigos num frenesim; piam, chilreiam e regateiam até. É a hora da refeição.
O céu, porém, continua encoberto. As nuvens não arredam pé. Quase se diria que não arredam asa.
E nós, aqui em baixo, a nascer, a crescer e a morrer, como palmeiras bravas.
Amadora, 30 de Setembro de 2026