13/05/2026

Fantasmas ou Álvaro de Campos Ressuscitado


Encolheste as paredes da sala,

os votos livres e sinceros

que fazes sempre no início de cada ano.


Leste livros antigos,

demasiado antigos, diria,

poemas que não lembram ao diabo,

quanto mais às pessoas simples

com quem querias, quiçá, conviver um dia.


“Já leu os clássicos”, perguntava o Adelino,

quando queria colocar alguém

no seu devido lugar.

Mas para que te serve agora lê-los

se te arrumam depois na prateleira

onde foste buscá-los.


O mundo afunilou, sentes-te de novo

confortável a brincar com os legos

sobre a alcatifa do quarto.

Esperas confiante que um fantasma

te chame e sirva o almoço já pronto.


E ali ficas, deserdado do tempo,

olhos virados do avesso,

mãos incapazes do tacto,

pés que se recusam a partir outra vez.


E a pergunta que salta entre gerações

assoma-te mais uma vez:

“Afinal o que ficou, quando já não és?”


10/05/2026

Língua arcaica

O gato ilumina o sol
que sai pela janela.

Na sala cresce um vácuo,
estende-se um rolo
escrito numa língua arcaica,

gruta húmida
a trezentos passos
de profundidade,

onde as palavras
são apenas um vapor quente
que arrefece logo ali
no céu da boca.

08/05/2026

O mendigo

Ad memorium António 


A manhã é a angústia dos poetas,
a sua voz a desaparecer,
quase pronta para sair para a guerra.

A manhã é querer viver
e morrer ao mesmo tempo,
indefinição por desencriptar,
como um novelo deixado ao gato,
leve toque de paixão,
curiosidade animal
à beira daquele precipício
que as horas abrem nas agendas.

— Já marcaste férias? — pergunta-me ela.

O mundo inteiro são férias,
bem vistas as coisas.
Podíamos voar de cidade em cidade
exatamente no dia
em que cada uma delas
fecha para férias.

Os olhos do gato
são prazer e mistério.
O gato é um mendigo
que trouxemos para casa.
Arredio às ordens,
viciado nos hábitos da rua,
na liberdade austera
de não ter nada,
apenas tempo a haver.

Sou o teu mendigo disfarçado.
Espero que não te sintas
assim levemente enganada.
Fico sempre com a sensação
de que a liberdade
é grande demais
para esta sala de estar apertada.

Amadora, 8 de Maio de 2026