18/10/2026

A paisagem romântica

O tempo mudou. Estou no campo, junto ao mar. Os pinheiros abrem a sinfonia como um naipe de violinos. Uma tábua solta nas traseiras bate sincopada nos estores, contrariando o compasso. As aves calaram-se.

Talvez tenha sido uma paisagem assim a inspirar os românticos. Imagino como seria viver, há dois ou três séculos, paredes meias com as outras espécies, em casas mais expostas aos humores do clima, sem a ilusão de que podemos manter o mundo à distância.

Apetece-me dizer a mim próprio: deixa acontecer. Acalma a tua ânsia de controlar tudo e todos. Isso mesmo: vicia-te no acaso. Quem sabe se nem acaso será, mas apenas uma ordem que não compreendes.

16/10/2026

A vinda anunciada



Os carros passam a ponte. Eu podia estar lá agora. Mas as quotidianas contingências tiraram-me de lá e puseram-me aqui, a olhar para ela.

A ponte assoma-se no ponto de fuga entre  duas correntezas de prédios cinzentos.

Sentia-me cansado, deprimido, e o meu corpo gritou-me por cafeína.

O meu passo fizera-se então aditivo, lembrando-me dos viciados que passam hipnóticos pela minha rua, a caminho do fornecedor — do passador, melhor dizendo.

Agora estou sentado na esplanada, bebendo o café de que precisava.

Lá na ponte, os carros continuam a circular, mantendo entre si uma distância e uma velocidade constantes. Daqui, tudo parece normalizado e predeterminado.

Ao contrário daquele tráfego amansado, espero aqui no café a vinda anunciada de Jesus à Terra, um cardume de orcas voadoras a sobrevoar estes prédios burgueses, ou simplesmente que se façam horas de ir à minha vidinha.

Debaixo dos nossos pés

O terrível não é quando os anjos  surgem na sala, como me assombrou Rilke na sua primeira Elegia. O terrível é passarmos por um carreiro de formigas, na charneca seca, sem nos perguntarmos o que pensarão elas quando se cruzam e confidenciam os seus pequenos segredos, com as anteninhas a dar a dar.

E, no entanto, o mistério estava ali, debaixo dos nossos pés.