11/07/2026

O limo

Às vezes, para relaxar,
penso que sou um limo estreito e comprido,
numa zona de maré.
  
​Ali, preso à rocha,
sabe-se lá como,
estendo o meu corpo
no sentido da corrente que passa.
Não lhe oponho qualquer força.
Não vale a pena.
  
​Assim, deixo-me ficar a tiritar,
na macieza possível da água salgada
durante toda a maré.
E se esta muda,
mudo com ela,
danço com ela,
naquela atmosfera muda e lunar
que tem o fundo do mar,
como um ator que a convoca
com a nitidez necessária
para nos fazer acreditar.

10/07/2026

O teu sortilégio

Tudo cai. 
Mas tu, não.
Andas sobre as águas, 
calça arregaçada,
molho de redes ao ombro, 
os peixes olhando de baixo para cima, 
o teu sortilégio. 

Perguntam entre os demais
como é possível haver um homem assim,
capaz de caminhar sobre a liquidez do lago,
sem espada nem lei, sem terra sequer. 

Como é capaz
um homem ser pobre por vontade própria?

09/07/2026

Metamorfose

Deito-me na cama, fecho os olhos com força, enrolo-me em mim. Vêm-me à memória aquelas lapas que encontrava na foz do rio Mira, na maré baixa, encrostadas na rocha viva.

Posso, afinal, dizer, como elas: dificilmente me tiram daqui. Casca rija por cima, a velha crosta da Terra por debaixo. Tão segura ilusão...

As ondas são os lençóis, que sobem ou descem consoante as marés. Eu, molusco de mucosa húmida, informe, recolhendo-me e encolhendo-me diante do olhar guloso dos outros; distendendo-me depois, já morto, dentro da panela, com molhinho de alho e coentros a temperar-me o corpo, desalmado, porém.