16/08/2026

A vitória dos pequenos

Fazes-me tanta companhia, como um relato de futebol, num domingo à tarde, há cinquenta anos.

Uma telefonia bastava para que nos sentíssemos acompanhados. Lembro-me como se fosse hoje: nesse dia ganhámos ao Benfica por um a zero.

 O Bento estava na baliza deles, e eu julgava-o inultrapassável. Mas o lateral-esquerdo, um negro barbudo chamado Alberto, lá me deu essa grande alegria.

Ao teu lado, gatinha, sinto o mesmo conforto que senti nesse golo marcado ao magnífico Benfica.

Chamemos-lhe a vitória dos pequenos

13/08/2026

InRIOtornável



Nada marcas do que se passa em teu redor.

Talvez saibas que o rio não retorna aqui. E mesmo que retornasse, não o reconhecerias, nem ele a ti.

Porque o tempo e o lugar são a mesma coisa, o mesmo encontro ou desencontro.

Se, porém, a corrente fluísse da foz para a nascente,
verias, submersos e informes,
os corpos jazentes dos teus entes queridos,
regressando apócrifos.

Devias por isso guardar 
numa caixa de sapatos 
algumas fotografias antigas.

Talvez assim, 
tu e o rio se reconhecessem.

As termas de São Pedro do Sul

Passa, leve, o rio. As casas escadeiam a encosta das margens até ao horizonte. Ao meio, uma ponte, ao que parece romana, encavalita gentes e veículos. Intrépida diante dos tempos e das violências que estes trazem, e levam depois, ali está ela, memória surda e muda, à espera de que os seus intérpretes consigam escutá-la, imaginar as legiões romanas ou a artilharia bonapartista atravessando-a.

Por trás, o balneário romano, onde D. Afonso Henriques terá recuperado de uma fratura na perna, sequela de uma batalha em Badajoz.

As casas alinham-se como rostos. Olhando o Vouga, abrem-se as janelas como pálpebras e, por trás delas, erguem-se humanos como pupilas. A população, na sua maioria aparentemente sazonal, arrasta-se logo pela manhã das extremidades para o centro da vila. Vem à procura de uma vida social que surge timidamente nas esplanadas dos cafés.

O produto que mais vende por aqui é uma expectativa. Primeiro, a da saúde; depois, a da vida.

Talvez por isso o som de fundo seja o rio a desfolhar-se nas pedras, distribuídas no leito como teclas graníticas de um xilofone.