16/06/2026

Da avassaladora instabilidade docente

Talvez seja demasiado extravagante

 dizer-me uma borboleta dentro do furacão. 

Talvez seja demasiado densa 

esta leveza atirada assim do peito para nenhures. 

Fecho os olhos, devagar, como um gato prometendo amor.

Tento chegar aos versos que pensei há meia hora

e não me lembro deles. 

Assim, mais não fosse, 

há neste esquecimento a prova suficiente 

de que uma borboleta precisa

para se desculpar com o vento.

15/06/2026

Rezar, Escrever e Dormir

Restelo, 15 de junho de 2026

Estou cheio de sono. Acossado por uma consciência demasiado colada ao imediato: pequenas ameaças, imaginadas ou não, preocupam-me.
Porém, se não fossem estas, tenho a certeza de que outras encontraria para me afligir.

O mundo passa-me diante dos olhos aos solavancos e estremece-me os sentidos, como se viajasse por uma estrada esburacada, substrato fóssil das chuvas de inverno.

Talvez a melhor estratégia fosse rezar, acrescentar a mim essa disposição para aceitar, esperar, convocar os sentimentos capazes de conduzir à paz de espírito.

Por agora, porém, apenas precisava de dormir. Nada mais.

14/06/2026

Os sonhos

Os sonhos não são premonições. São fendas na parede por onde pássaros azuis escapam e nós, seduzidos ou curiosos, de qualquer forma sem remédio, corremos atrás deles. 

São Alice a entrar na toca do coelho, connosco pela mão. Depois o coelho desaparece e deixa-nos sozinhos naquele lugar, entre os nossos medos e as nossas ambições.

Nunca entendi porque chamamos sonhos às nossas aspirações mais auspiciosas. Não me lembro de ter um sonho desses. 

Os sonhos que conheço são cenários e guiões estranhos, por vezes inquietantes, e talvez seja por isso que me deixam uma sensação de asfixia lenta, mas constante, que só termina quando acordo.