06/03/2026

Poema a partir da nossa cama

A luz entra
pela fresta dos cortinados.

A cidade aproxima-se
como uma automotora
num túnel asmático.

As gaivotas pairam,
como abutres sobrevoando
os restos da noite.

O dia começa —
embora o passado continue aqui,
em analogias perversas.

Antigamente aquilo.

Agora isto.

Para me aliviar digo a mim mesmo:
é natural que assim penses.
Filtraste a memória,
recolheste apenas
o bem que ela guardava.

O passado é um veneno
a espalhar-se pelo sangue
enquanto ponderamos
os prós e os contras
da empresa
em que nos tornámos.

Quando o tempo
se esquece momentaneamente de nós
e nos lembramos
momentaneamente dele,

tudo isto acontece

porque a luz
que passa pelos cortinados
apenas nos deixa entrever
coisas que não vemos,
nem vimos nunca sequer.

04/03/2026

Sedimentos

Vento na pele, no cabelo,
a tampa da caneta baloiça sobre a mesa verde.
O ruído da mota lá atrás, a paisagem que vibra,
ora perto, ora longe, sempre em movimento,
num vaivém expandindo-se 
em direções simultâneas e opostas,
como as peles de cobra onde escreviam os antigos,
palavras que se desenrolam como ondas de mar
rebentando na praia,
ao pé dos ouvidos, da boca,
ou apenas da memória,
essa praia de sedimentos que se acumulam,
moldados como castelos de areia entre o ir e vir de uma maré.