11/10/2026

A doença do azul

Cinzento, o céu promete chuva. Visto daqui, parece que há uma só nuvem a cobrir toda a Reboleira.

Ruy Belo era triste porque se lembrava da morte. O Nobre também, porque, de uma forma ou de outra, estava a morrer. Eu estou triste porque nasci mesmo assim: melancólico e sorumbático.

Contudo, quem me oiça pode achar-me até divertido, quanto baste. Alguns até dizem que tenho sentido de humor, sabe-se lá porquê. Acho que, se tinha alguma dessas qualidades, as fui perdendo com o tempo, nessa desesperança para a qual a vida nos atira, sem apelo nem recurso, a não ser o esquecimento. 

Mas, se esqueces, deixas de ser. É uma espécie de morte prematura.

Vai chover, mais tarde ou mais cedo. No fundo, até gosto de ver chover. Sinto que, finalmente, a minha temperatura, o meu modo de ser, se sintoniza com o mundo exterior.

No horizonte, porém, vejo uma aberta. O azul vai conquistando o cinzento como uma doença.

Vou ter de sorrir. Oh, merda!


Amadora, 11 de Outubro de 2026

06/10/2026

Torga

Li alguns diários de Torga que me influenciaram bastante, confesso. A sua autenticidade serena toca-me.

Sempre quis ser como ele, ainda que me pareça estar nos antípodas da sua personalidade, sempre tão depurada, desabrida, destemida. O seu tempo, o seu espaço infantojuvenil, esculpiu-o de uma forma única.

A Torga é um magro arbusto, que nasce entre as pedras. Às vezes penso que, se o conhecesse, dificilmente conseguiria estreitar relações com ele. Ou talvez não. O meio literário não é fácil e nem vou explicar porquê.

Contou-me um primo do meu pai que, apesar dos estreitos laços que mantinha com o Torga, lhe pediu um dia uma dedicatória. Ao que o escritor respondeu: “Os livros são para ler, não são para escrever.”

Não é fácil viver sem máscaras. Exige muito treino e autovigilância. Acho que o escritor transmontano conseguiu-o.

Recomendo a leitura dos seus livros de contos, Os Bichos e Novos Contos da Montanha. Quando era jovem, lia tudo o que tinha lá em casa — pouca coisa, por sinal.
 
Aos dezoito anos trabalhava numa seguradora, onde uma senhora, sabe-se lá porquê, de nome Maria Amélia, ofereceu-me As Pedras Lavradas, de Torga.

Nesse tempo já tinha lido na escola obras como Os Maias, A Morgadinha dos Canaviais, As Aventuras de João Sem Medo.
 
Mas foi nos contos de Torga que percebi, pela primeira vez, o que era a literatura. Não era tanto o que se contava, mas como se contava.

A partir disso, nunca mais larguei o Torga.

30/09/2026

O regresso da chuva

Chove.

Nunca choveu tanto para mim, apesar de ser miudinha. Mas era tanto o calor, tanta a secura, que, ao ver os pombos banharem-se outra vez nas poças, senti uma alegria tão subtil quanto inflamante.

Às vezes acredito que dançar à chuva — ai, pudesse eu, sem que me chamem louco — é como mergulhar no mar.

A chuva desperta os cheiros. Tudo se aproxima, afinal. Até os mesmos sons diluídos se tornam agora essenciais.

A gata reconhece os odores. Sobe ao parapeito. E o seu narizinho contorce-se, como um perdigueiro em caça.

Tinha saudades da chuva, confesso, e a ilusão de viver num país onde ela nunca cessasse.

Ainda assim a chuva parou.

E quando para, os pássaros saem dos abrigos num frenesim; piam, chilreiam e regateiam até. É a hora da refeição.

O céu, porém, continua encoberto. As nuvens não arredam pé. Quase se diria que não arredam asa.

E nós, aqui em baixo, a nascer, a crescer e a morrer, como palmeiras bravas.

Amadora, 30 de Setembro de 2026