15/06/2026

Rezar, Escrever e Dormir

Restelo, 15 de junho de 2026

Estou cheio de sono. Acossado por uma consciência demasiado colada ao imediato: pequenas ameaças, imaginadas ou não, preocupam-me.
Porém, se não fossem estas, tenho a certeza de que outras encontraria para me afligir.

O mundo passa-me diante dos olhos aos solavancos e estremece-me os sentidos, como se viajasse por uma estrada esburacada, substrato fóssil das chuvas de inverno.

Talvez a melhor estratégia fosse rezar, acrescentar a mim essa disposição para aceitar, esperar, convocar os sentimentos capazes de conduzir à paz de espírito.

Por agora, porém, apenas precisava de dormir. Nada mais.

14/06/2026

Os sonhos

Os sonhos não são premonições. São fendas na parede por onde pássaros azuis escapam e nós, seduzidos ou curiosos, de qualquer forma sem remédio, corremos atrás deles. 

São Alice a entrar na toca do coelho, connosco pela mão. Depois o coelho desaparece e deixa-nos sozinhos naquele lugar, entre os nossos medos e as nossas ambições.

Nunca entendi porque chamamos sonhos às nossas aspirações mais auspiciosas. Não me lembro de ter um sonho desses. 

Os sonhos que conheço são cenários e guiões estranhos, por vezes inquietantes, e talvez seja por isso que me deixam uma sensação de asfixia lenta, mas constante, que só termina quando acordo.

06/06/2026

O reencontro


Escreveu Alberto Caeiro que a poesia não era para ele uma forma de emancipação artística ou coisa do género, mas tão-só uma forma de estar sozinho. E estar sozinho não quer dizer estar num monólogo, não é isso. Quando escrevemos, somos nós a falar para nós próprios, connosco, ouvindo a conversa.


Entre os trinta e os quarenta e três anos, pouca poesia escrevi. Aliás, não sei que sonho, ou que sentimento de missão, me atirou para aquela quimera universitária e profissional tão prolongada. Quando esse projeto de ascensão profissional se desvaneceu, estava na puta da merda e tive de me reconstruir com os cacos.

Encontrei na religião algum conforto e algum sentido para o sofrimento; encontrei paz e recolhimento interior. Creio que ainda fui a tempo. Ainda assim, sinto que vivi demasiado tempo num presídio, cumprindo um destino que não escolhi.

Foi o que foi.

Talvez as trevas, ainda que travestidas por algumas lantejoulas, tenham-me dado o discernimento necessário para querer ser feliz, para ser professor, para voltar a escrever. Porém, o tempo dos homens é curto e nenhuma gota de rio passa duas vezes pelo mesmo sítio. E não é apenas uma impossibilidade espacial ou temporal, mas ambas em simultâneo, porque, mesmo que a gota voltasse a passar, as margens já teriam mudado.

Quando vou em busca do tempo perdido, recuo à infância e à primeira juventude. Esse tempo, sim, ficou registado na memória, de forma fantástica ou não, para sempre. Esse “sempre” arder, que é a vida de um homem.