17/02/2026

As coisas prenhes do passado

Tão prenhes de passado, as coisas.
É preciso regressar a elas de vez em quando,
perguntar-lhes como foi.
Caso contrário mudam de aspecto,
ou somos nós que lhes mudamos o aspecto.
E quando, então, lhes abrimos as páginas
para nos falarem da avó
ou da festa de aniversário
em que o tio se embebedou
e se fechou depois na casa de banho,
já se esqueceram de tudo.
E por mais que molhemos a madalena no chá,
não há anjo nem demónio
que nos convoque
para o almoço de domingo,
quando o pai nos falava de um amigo
que teve na tropa,
enquanto a mãe nos servia sopa de lentilhas.

16/02/2026

5 sentidos


Um eucalipto
(e o aroma que se desprende das folhas),
alguns raios de sol
sobre a pele ainda gelada,
quatro ou cinco pássaros
pretos de bico amarelo
pastando na erva da rotunda,
mais alguns que chegam
entretanto chilreando.

Que mais poderias querer?
Sobretudo se tudo isto acontece
quando acabaste de tomar
uma meia de leite
e uma torrada amanteigada.

12/02/2026

Mesmo assim, insistes em ver



Chove lá fora,

e pode ser a última vez;

mesmo assim, insistes em ver

as árvores quase gémeas

do outro lado da estrada,

as gotas correndo pelas vidraças,

a gata enrolada em si própria.

Do vento, nada.

Não há movimento aparente.

Apenas uma fogueira apagada,

restos de outono

que ficaram por apanhar

pelos serviços da câmara.


Ouves o ar a esfregar-se

nas tuas narinas,

as chaves do vizinho a rodar

no umbigo da porta.

Sons ínfimos e laterais,

sinais de gente.

Quando voltarão as andorinhas,

perguntas.

Que te importa isso,

se esta pode ser afinal

a única vez?