22/10/2026

Tristeza, como matéria e forma

Hoje, o Afonso, o meu barbeiro, relembrou-me que a professora de desenho lhe tinha dito: «Afonso, sabes o que te falta para seres artista? A tristeza.» Senti-me tão encorajado. Já não me falta tudo.

Gostava de saber inglês para entender The Waste Land, de T. S. Eliot, esse poema que nos mergulha na devastação e nos deixa diante da difícil possibilidade de renascer dela. E não é apenas Eliot. Se há uma linhagem de poetas que me fascina, é a de António Nobre, Camilo Pessanha e Ruy Belo. O que têm em comum? Muita coisa: a sonoridade, a nostalgia e, de uma forma ou de outra, a tristeza.

Em António Nobre, a nostalgia de um tempo perdido, talvez idealizado, e a infância como paraíso irrecuperável. Em Só, escreve:

«Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
À beira-mar.»

Em Camilo Pessanha, a dissolução, a evanescência, a música de tudo o que desaparece. Em Clepsidra, pergunta:

«Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?»

Em Ruy Belo, a consciência dolorosa do tempo, da morte e da fragilidade da existência. E a tristeza, mais do que um sentimento, como uma condição que é preciso aprender a habitar:

«Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.»

Os seus temas, grosso modo, são a fugacidade da vida, a impossibilidade de recuperar a felicidade de outros tempos, a melancolia que nasce da consciência das coisas. Três poetas, três maneiras de olhar para o que se perde e para o que, apesar de tudo, permanece: a música das palavras.

Mas não é necessariamente a tristeza que faz o poeta; é a capacidade de transformar a tristeza em conhecimento, música e linguagem.

E talvez seja isso que me importa nas palavras da professora de desenho: a tristeza como matéria, não como forma. Porque a forma é aquilo que o poeta constrói com ela.

18/10/2026

A paisagem romântica

O tempo mudou. Estou no campo, junto ao mar. Os pinheiros abrem a sinfonia como um naipe de violinos. Uma tábua solta nas traseiras bate sincopada nos estores, contrariando o compasso. As aves calaram-se.

Talvez tenha sido uma paisagem assim a inspirar os românticos. Imagino como seria viver, há dois ou três séculos, paredes meias com as outras espécies, em casas mais expostas aos humores do clima, sem a ilusão de que podemos manter o mundo à distância.

Apetece-me dizer a mim próprio: deixa acontecer. Acalma a tua ânsia de controlar tudo e todos. Isso mesmo: vicia-te no acaso. Quem sabe se nem acaso será, mas apenas uma ordem que não compreendes.

16/10/2026

A vinda anunciada



Os carros passam a ponte. Eu podia estar lá agora. Mas as quotidianas contingências tiraram-me de lá e puseram-me aqui, a olhar para ela.

A ponte assoma-se no ponto de fuga entre  duas correntezas de prédios cinzentos.

Sentia-me cansado, deprimido, e o meu corpo gritou-me por cafeína.

O meu passo fizera-se então aditivo, lembrando-me dos viciados que passam hipnóticos pela minha rua, a caminho do fornecedor — do passador, melhor dizendo.

Agora estou sentado na esplanada, bebendo o café de que precisava.

Lá na ponte, os carros continuam a circular, mantendo entre si uma distância e uma velocidade constantes. Daqui, tudo parece normalizado e predeterminado.

Ao contrário daquele tráfego amansado, espero aqui no café a vinda anunciada de Jesus à Terra, um cardume de orcas voadoras a sobrevoar estes prédios burgueses, ou simplesmente que se façam horas de ir à minha vidinha.