13/07/2026

O que ficou do mar



É impossível lembrar-me agora

de todas as praias, de todas as vezes

em que as ondas se entrepunham,

mais ou menos redondas,

entre mim e o horizonte.


O que ficou

foi apenas a sensação gelada;

quanto muito,

o frescor dos salpicos,

o abraço que dei então ao mar,

como se ele fosse

um irmão

acabado de chegar

do outro lado do mundo.


11/07/2026

O limo

Às vezes, para relaxar,
penso que sou um limo estreito e comprido,
numa zona de maré.
  
​Ali, preso à rocha,
sabe-se lá como,
estendo o meu corpo
no sentido da corrente que passa.
Não lhe oponho qualquer força.
Não vale a pena.
  
​Assim, deixo-me ficar a tiritar,
na macieza possível da água salgada
durante toda a maré.
E se esta muda,
mudo com ela,
danço com ela,
naquela atmosfera muda e lunar
que tem o fundo do mar,
como um ator que a convoca
com a nitidez necessária
para nos fazer acreditar.

10/07/2026

O teu sortilégio

Tudo cai. 
Mas tu, não.
Andas sobre as águas, 
calça arregaçada,
molho de redes ao ombro, 
os peixes olhando de baixo para cima, 
o teu sortilégio. 

Perguntam entre os demais
como é possível haver um homem assim,
capaz de caminhar sobre a liquidez do lago,
sem espada nem lei, sem terra sequer. 

Como é capaz
um homem ser pobre por vontade própria?