01/04/2026

A lição

Já vieste ver as andorinhas a rasar o prado?

Lembra-te do que o mestre Cesário nos ensinou: 
Para escrever poesia, não é preciso ser cego.

Nem idiota, acrescentaria Antero.


Moral pública

Às vezes
não se ouve voz alguma.

Branco.
Branco.
Branco.

O roncar dos motores.
Uma luz fria
na coluna
onde escreveram a lei.
O mito
que nos obrigaram a subscrever.

Em silêncio
em silêncio
podes asfixiar alguém.

Em público, porém,
achas bárbaro
matar uma galinha.

27/03/2026

O faquir do Restelo



Sentaste na cama de pregos,
como um sufi recém-convertido,
à espera do autocarro.

Ali, ao sol,
deixas de sentir
a ilusão mendicante.

Os melros aproximam-se,
e até os cães se chegam, curiosos,
como se revisitassem Diógenes de Sinope
dentro da sua pipa,
séculos depois.

A vida continua em redor:
as pessoas partem para o trabalho,
tomam café
neste bairro chique da cidade.

E tu, pobre dos pobres,
semi-deitado nas escadas de pedra,
esperas o chamamento de Deus —
que por instantes confundes
com o lastro rugido de um avião
a atravessar o céu,
em direção a lugares
tão santos como este,
onde estendes as pernas
e comes um naco de pão.