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08/09/2023

Leito solitário

Aqui tão deitado te escrevo
Invicto, regalado, extremo
Neste idílio sonhado de lençóis
Onde mesmo só, conto-nos dois

Lá fora, sempre lá fora,
A vida parece de verdade
Quem não teme a senhora
Que se achega com a idade

Aqui repousando no leito
Com os pés descalços ao fundo
Tudo é diferente, irreal, porém

A cabeça procura o teu peito
E num suspiro vago, profundo
Regresso ao calor de uma mãe
 

09/02/2022

Viagem ao Oriente

Imagens que passais pela retina

Som vago de memória sem cor

Que a voz do ópio me ensina

Na lânguida fuga ainda indolor


Em que ilusões a viagem termina?

Na pálida foz, já escuto o clamor

Das praias onde minh'alma se fina

como um verme a sumir-se sem rumor


Nos primeiros passos da última curva

Onde o derradeiro semblante se turva

Na imagem da terra ainda a sofrer


Abro as portas brandas da vida futura

E sem pressentir a negra frescura

Fecho os olhos agoniados de ver

18/11/2021

O último discernimento

Serás tu ou eu? Pergunto, em grave momento,

Daqueles que abalam as traves da construção

Quem se fundirá primeiro no esquecimento?

Quem varrerá  as cinzas caídas  no chão?


Para tão magro destino, não haverá respostas

A não ser uma cisterna vazia, escancarada

Onde por detrás da porta, há mais mil portas

Por onde prosseguem as gerações em manada


Se resposta alguma houver, sabe-a o vento

Se alguém houver, que possa ouvir, traduzi-lo

Sob o ranger que os dentes fazem no desalento


Que deliberem as moiras o fatídico momento

Onde a alma inquieta que no meu corpo exilo

Tenha sobre a morte, o último discernimento


16/09/2021

Paciência

Tenham paciência: nada há de melhor

Agora que tenho uma estante para livros

posso enfim entender a paz interior

do poeta morto que aguarda os vivos 


Não gosto de gatos, gosto da Sissi

Nem de pessoas, mas do Raul Brandão 

Não me perguntem se gosto de mim

porque um homem raramente tem razão


Tem razões de um passado que  conspira

que incomoda, sussurrando entre dentes

que se enamora do que só havia antes


E só quando a nau contra a vaga  se vira

e  a paciência  se dissolve  na imensidão,  

a última pétala percebe que floresceu em vão