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29/11/2024

Sobre o livro "Cálculo das impossibilidades", a opinião da poeta Graça Pires

A forma como Luís Palma Gomes escreve suscita-me outra linguagem, outras imagens, outras descobertas.
 
E, se como refere o poema “Bloqueio” na página 43, às vezes não se sabe como começar os poemas, sempre este autor é capaz de encontrar a voz que integra diferentes registos discursivos, num jogo de conceitos que distingue a sua fala de poeta dos outros poetas, sublimando as emoções no desenho das "sombras que inventa nas paredes das casas" (pág.26), mesmo presumindo que o "fim e o início são a mesma coisa" (pág. 26).
 
Porque a poesia é o espaço onde se pode ser tudo mesmo não tendo nada, transformando em realidade o que imaginamos. Por isso constitui a expressão mais viva da angústia humana cruzando de modo único a vida e a morte, mesmo quando "deus é levado pela leviandade do vento" (pág. 10), ou "o mundo muda sem nos avisar" (pág.17) e "nós somos apenas o que nos falta" (pag. 36).

Graça Pires






23/05/2023

"Calma é Apenas um Pouco Tarde - Resistência na poesia portuguesa contemporânea" de Maria Leonor C. Figueiredo

 "As três maiores batalhas da poesia de hoje", segundo a autora Maria Leonor Figueiredo são as que passo a transcrever: 

"A batalha contra uma aceleração que nos faz vítimas do compromisso impossível entre o desejo de excitação permanente e a vontade de recuperar do cansaço; 

A reivindicação da singularidade, em detrimento da massificação; 

O resgate de uma linguagem capaz de construir mundividências alternativas ao desvanecimento referencial produzido por um constante linguajar, no qual o valor das palavras é abastardado por um dizer e desdizer que neutraliza qualquer possibilidade de valoração;"




09/06/2020

A propósito do poema "Cerco Invisível"

Quando escrevo poesia fico sempre com a sensação de produzir coisas banais. Mas é assim. Acho que ensaiamos a vida inteira o mesmo poema. Contudo ele vai surgindo fraco, fragmentado, equívoco. 

Escrevi este poema, "Cerco invisível", para dizer que estou cercado pela minha condição de poeta. Tentei vários expedientes, atividades, ocupações mas todas elas eram afinal versos do mesmo poema. Talvez seja uma epopeia homérica ou um haicai, poema japonês com 17 silabas apenas. Não sei. Apenas sei que só existe o que tem nome e por isso este cerco de palavras que nos envolve. Algumas das minhas, vêm de não sei onde? Escrever poesia é uma espécie de transe, em que o pensamento fica tomado por uma vontade de encantar, sublimar, inovar a linguagem. 

Eu não tenho a certeza se quero ser poeta, mas é inevitável sê-lo. Nem que para compensar tenha de comer mais vegetais, correr todos os dias ou aprender matemática. E tudo isto porque ninguém pode ser absolutamente poético. Temos administrar a poesia, como fazemos com tudo o que é bom, mas arriscado na vida. Temos de escrever às escondidas, não mostrar ao chefe, nem aos amigos da bola. Criamos a nossa rede de cúmplices do crime poético. Lemo-nos uns aos outros e às vezes, sabe Deus, como um frete. Mas é um tributo que prestamos. E se de facto a poesia é, para alguns, um culto perverso, pergunto porquê? Talvez pensem que as palavras não devam dominar os homens, mas o inverso. Talvez temam perder essa luta com as palavras.  E que elas por fim os encantem, como fazem as sereias, e os atraiam para a desgraça de se tornarem prisioneiros da beleza ad eternum.

Tudo isto para me/te explicar o tal poema. Estou cercado pela poesia. Não tenho saída. Resta-me caminhar com cuidado e atenção para não me deixar submeter, como escreveu o Milan Kundera, à "insustentável leveza do ser".