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15/05/2022

O velho

 O velho que sozinho na praça

dava vivas à morte D'El Rei,

não sabia ainda que a República

caíra também há trinta e dois anos

às mãos das novas hordas mongóis.


Quando perguntou pelas horas

a um inominável rapaz,

agradeceu-lhe depois:

«Alegria, meu filho, 

agora podes viver em paz»


O jovem que só falava chinês,

agarrando no sabre,

montou o cavalo 

que lhe havia dado Kublai Khan

e galopou outra vez.


04/10/2021

De onde vem a História?

 Li algures nas "Viagens da minha terra" de Almeida Garrett que se conhecêssemos as verdadeiras razões históricas todos nos riríamos dos historiadores. Depois desta afirmação, nada mais diz o autor, deixando à imaginação do leitor a verdadeira natureza da história. Por isso, podemos imaginar que a História surja de um problema individual, de um sentimento pessoal, um complexo ou uma situação mal resolvida que transvaza primeiro para uma família, depois para uma aldeia e por fim para um povo. Talvez essa pequena história se replique centenas, milhares de vezes, dando lugar a uma grande mudança civilizacional.

"O último castro antes de Roma"*  é um relato possível deste processo de mudança que vai desde a instabilidade de um individuo até ao mundo inteiro. Se angústia significa falta de esperança, acalentar que qualquer um pode fazer mudar o mundo é um sinal de confiança na humanidade.

*"O último castro antes de Roma" é a próxima produção do Teatro Passagem de Nível a estrear ainda em 2021.

 

 

28/03/2021

Os três tipos de portugueses, segundo Fernando Pessoa

 Segundo o que Pessoa escreveu num ensaio chamado "Sobre o homem", há três tipos de portugueses:

O primeiro tipo de português apenas existe por existir e só por isso Portugal existe. Trabalha e vive de forma obscura e modesta; engrossou, qual iniciático inocente, as fileiras de infantes de Aljubarrota, acreditou que La Lys era o contra-ataque de Alcácer Quibir. É um homem que se irrita com a verdade, porque sabe que ela não existe, para além da ciência que ele não entende. Por isso, aguarda que uma mentira credível — ou simplesmente uma fantasia alternativa ao tédio em que caiu — o emocione e o faça agir. Porém ele apenas o fará quando todos os outros o fizerem. Porque este português que são muitos é só um apenas. É na sua génese um indivíduo coletivo que faz de conta que não sabe que a política é  uma mentira que nos projeta para um lugar diferente.   


O segundo tipo de português é o que não é português: começou com uma invasão mental por vontade do Marquês de Pombal. Quando viu que afinal estava enganado, fez aquilo a que se chama uma fuga para a frente com o constitucionalismo. Perdeu a razão com toda a euforia que a demência nos remete com a república. Está completamente divorciado do país que governa ou julga governar. É por sua vontade, parisiense, nova-iorquino, prussiano, bolchevique. E contra sua vontade é estúpido.


Por último há um terceiro que nasceu no reinado de Dom Dinis, momentos em que o império se esboçou. Foi-se embora para Alcácer Quibir onde morreu. Contudo, deixou parentes que continuam à sua espera. Esperam-no a ele, sabendo que com ele virá el-Rei Dom Sebastião, o verdadeiro último rei de Portugal.


Bibliografia: "Mensagem e outros poemas afins" de Fernando Pessoa - Ed. Europa América

05/11/2016

A culpa do ócio



Depois de um imposto lançado pelo Papa Júlio II, em 1510, para a construção da Basílica d,e São Pedro, alguns príncipes alemães revoltam-se. Encontram em Martinho Lutero, um argumento ideológico e iniciam um movimento de separação da Igreja Papal.

Mais a Norte, Suiça, Holanda e em parte da Inglaterra, outro movimento ganha corpo. Liderado, a partir de Genebra, por João Calvino, este movimento religioso defende a ideia da predestinação, onde a salvação está destinada à nascença e toda a riqueza é vista como um sinal da predestinação divina. Está lançada a ideologia, que permitirá a coexistência da riqueza e da salvação  divina. Ao contrário disto, os católicos advogam que a salvação atinge-se através dos atos praticados em vida. Mas as lutas políticas escoradas pela religião, continuam na Europa. Entre vários palcos, a Inglaterra  é onde esta luta ganha mais relevância e interesse histórico. A rainha Isabel I, envolvida numa guerra contra os católicos espanhóis, sai vitoriosa. Manda decapitar, Maria Stuart, princesa escocesa católica e pretendente ao trono inglês. Depois de o falecimento de Isabel I, sucede-lhe o filho de Maria Stuart, entretanto convertido ao Anglicanismo, Jaime I. Mais tarde, a coroa chega a Carlos I, filho de Jaime I, e que defende a aproximação do culto anglicano ao católico.

Os calvinistas, agora apelidados de puritanos, são perseguidos e partem em grande quantidade, 250.000 pessoas, para o novo mundo. A génese filosófica dos Estados Unidos está criada.

 A condenação do ócio e a sacralização do trabalho, a par de a perspetiva de que a riqueza e a pobreza são, respetivamente,  uma graça ou uma condenação de Deus, ainda hoje marcam a sociedade ocidental.  A par de outros sentimentos de culpa que fomos adquirindo ao longo dos tempos, oriundos de uma consciência religiosa alimentada desde tempos remotos, o sentimento de culpa relativa ao ócio é uma das últimas aquisições da consciência ocidental cristã.

Schwanitz, Dietrich - "Cultura da Idade Moderna à Idade Contemporânea" - Coleção Expresso

Wikipédia Inglesa - Artigo sobre "Carlos I de Inglaterra", "Puritanos" e "Peregrinos".

13/10/2015

Santo Condestável


Corajoso, brandiu a espada e conquistou a terra. Agora, sentado e humilde, repousa o olhar num livro de horas, para ganhar o céu.




02/04/2013

A Páscoa na Beira-Baixa

Tempo de Páscoa significa tempo de renascimento (ou ressurreição). A festa religiosa que celebra a paixão, crucificação e ressuscitação  de  Jesus entrelaça-se com o deslumbre pagão da chegada da primavera, do rebentar das folhinhas e do acasalamento das aves. E a vida, que à semelhança da mensagem pascal do "Novo Testamento", regressa depois da escuridão invernal (mortal).

Para contemplar ambos os fenómenos - o cristão e o pagão - escolho sempre uma aldeia profunda da Beira-Baixa, onde a natureza tem um esplendor tremendo nesta época do ano e as celebrações católicas são muito rigorosas, antigas e caraterísticas.

Por estes lugares, passou a história de Portugal: dos castros lusitanos ao romanos, dos castelos templários às invasões francesas. E há muitos apontamentos patrimoniais a toda estes lugares da história por toda a aldeia.

Uma verdade é para mim absoluta e tirânica: Salvaterra do Extremo (Idanha-a-nova, Castelo Branco) tem magia.

Aqui deixo algumas fotos que tirei durante a última semana.

Quelha de Segura - Percurso pedonal (1,5 km) - Propriedade Casa Pinheiro (?)

Quelha de Segura - Percurso pedonal (1,5 km)

Rio Erges (Afluente do Tejo) no Vale de Idanha, no sentido montante

Rio Erges (Afluente do Tejo) no sentido jusante.
 No cimo da elevação ao fundo, está edificada  Salvaterra do Extremo

21/11/2012

Um chapéu imenso



Alguém perguntou ao Abraham Lincoln, no início da sua carreira de advogado, onde o podiam encontrar. Ele respondeu: ”No meu escritório.”


Espantado, o outro retorquiu  ”Mas aonde é o teu escritório?”.

Ele respondeu: ”Debaixo do meu chapéu.”



Conclusão: Há coisas que parecem pequenas, mas são enormes.

26/02/2012

Raça e História



Acabei de ler um livro que, depois da Bíblia e do "Discurso do Método", mais respostas fornece sobre a história das mentalidades: "Raça e História" de Claude Leví-Strauss. Este livro, encomendado e publicado pela Unesco, em 1952, tem como objetivo acelerar um novo ciclo de relações entre o Velho e o Novo Mundo (Pós-Colonial). Em suma, e a apesar do título, é intenção do autor desabilitar o conceito de Raça (Os europeus ainda se refaziam nesta altura do trauma do Holocausto Nazi) e promover o argumento cultural no seu lugar.

A obra inicia um périplo de 10 capítulos bem definidos, evocando a supremacia das culturas sobre as raças - que segundo Levi-Strauss são muito poucas relativamente às primeiras(Culturas). Este ponto de partida é prolifero e esperançoso e arruma com as teses racistas e geneticistas.

Abordar todos os capítulos do livro era demasiado exigente para a natureza de um blog. Acrescento apenas um corolário ao capítulo 7 - "Lugar da Civilização Ocidental", onde o autor demonstra que a aculturação ocidental do resto do mundo, levada em grande parte pelo processo de industrialização, é forçada. Os povos não-ocidentais foram forçados à "Ocidentalização" das suas culturas pelos países da Europa Ocidental ( e EUA) que tinham uma estratégia para esse efeito.

Existe contudo uma réstia da cultura pré-ocidental nos povos aculturados. Levado ao limite (eis o corolário!), este conceito transforma, cada ser humano, num missionário que leva dentro de si uma micro-cultura  disponível a conquistar o possível.

06/01/2012

Aprender com a História





Passados alguns anos do início da revolução francesa (1789-1799), Napoleão Bonaparte desalentado, relatou numa carta:"Nada mais interessa do que dinheiro e poder. Dinheiro e poder.".
A fraternidade, a igualdade e a liberdade eram apenas slogans revolucionários em que já ninguém acreditava. Tinha terminado um pacto social denominado Antigo Regime e começava outro regime. Mas os fundamentos da mudança tinham tido uma vida curta. 
Curta demais.

18/12/2011

A dupla medida de um homem


"Ainda jovem, fiquei absolutamente espantado, quando soube que Napoleão, no cerco de Toulon, tremia como uma vara. Um oficial que estava perto dele, disse-lhe:"Mas estás a tremer de medo!". Napoleão respondeu-lhe: "Se tivesses o medo que eu tenho já terias fugido a sete pés daqui".


Roberto Rossellini - Realizador