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14/02/2025

A espera










SENHA 14 BALCÃO C

Talvez não tenhas percebido, mas o tempo parou e ninguém sabe  quando avançará de novo. Chamam-lhe paciência de doente, pausa de bêbedo que não se consegue levantar do sofá.

SENHA 2 BALCÃO B

Sem expectativas entre as personagens, a peça não arranca. Ficam ali a proferir teses, frases e aforismos de vão de escada até ao absurdo, até ao público perguntar: “Mas o que querem afinal estes gajos?”. 

SENHA 23 BALCÃO C

Agora és o público de ti mesmo, à espera de uma boa razão para teres saído de casa. “Que espectáculo é este?”, murmuras para o tipo do lado. E ficas a pensar que a récita parece um estendal de roupa molhada, num dia de chuva morrinha que não deixa secar nada.

SENHA 8 BALCÃO A

Como  chamam os filósofos ao tempo que para?  E como sabemos que está mesmo parado?  Talvez por que, em teu redor, os coxos avançam, os paralíticos quiçá, as crianças crescem e  parecem já homenzinhos atendendo pedidos de um corretor da bolsa. As flores rebentam, amarelecem com esplendor e morrem tolhidas pelo inverno, enquanto  continuas na sala de espera do consultório médico.

SENHA 14 GABINETE 3


06/01/2024

Simplicidade

A simplicidade não é fácil: discernir o que é demais, caminhar apenas na vereda do essencial, retirar os excessos do bloco de pedra até encontrar a escultura ideal são atos de sublimação, inteligência, muitas vezes de pura genialidade.

A tentação é sempre de acumular em vez de selecionar, deixar ficar porque "até fica bonito". No final, quem olha, quem lê, quem ouve perde-se nos detalhes, distraí-se com o supérfluo, sem conseguir concentrar-se no devia ser imprescindível.

O mundo está cheio de entretenimento para podermos enganar o tédio, esquecer a nossa condição de simples mortais.


27/08/2023

Escrever

 Assobia o vento na persiana. É o outono a chamar-nos, certamente.

Escrever parece ser uma luta contra a desilusão, uma tentativa para voltar a iludirmo-nos. Por momentos, resulta. 

Há um vislumbre de paz, a sensação que alguém nos ouve e afaga depois a cabeleira farta da nossa infância. 

O tempo passa, porém. Quando relemos meses ou anos depois o que havíamos escrito, tudo aquilo é estranho e estrangeiro.

Podemos ainda reconhecer, aqui ou além, um momento inspirado, um assomo de génio.  

Porém, a sensação que prevalece tem a frieza da leitura de uma lápide fúnebre: "Aqui jaz um sentimento intenso, mas fugaz. Que repouse em paz para todo o sempre (seja lá o que isso for)".


"Velho escrevendo" de Boris Dubrov


17/08/2023

Dos bloqueios literários



Às vezes, não sabemos como começar os poemas. Os dias são mais fáceis: começam sempre pela manhã. Silenciosas também, mas prometedoras.

O silêncio dos poemas é diferente. Se nascem calados, são quase nados-mortos. No mínimo, estrebucham alguns guinchos, tentando sem fé construir pequenas ermidas no alto da serra — daquelas que ninguém lá passa, a não ser na romaria anual.


O silêncio das manhãs promete mais. Há mesmo quem projete logo ali profícuas catedrais. Ainda que ao cair da noite tenham apenas, com quatro ou cinco tábuas mal pregadas, levantado um tosco confessionário, onde poderão deixar as culpas do dia para dormirem descansados.

29/05/2023

As pseudo sereias

 Há sereias que encantam os marinheiros contra os recifes.

Há marinheiros que engolem as sereias. E pensando depois possuir o mesmo encanto, afastam de si toda a criatura que os ouça cantar. 

Assim se conclui  que engolir sereias  não chega para encantar como elas.


Pintura: "Sereia" de John William Waterhouse (1900)
Pintura: "Sereia" de John William Waterhouse (1900)


14/04/2023

Escuta!

 Ligou o telemóvel a medo. A partir de agora, existia. Podia receber um convite para trabalhar noutro local do planeta, uma ameaça de extorsão, uma notícia má. 

Essas possibilidades deixavam-no aterrado. Preferia a dimensão oposta: isolar-se, caminhar por desertos conceptuais. Nesses espaços,  podia falar com Deus.

Somente quando falamos com o infinito, o absoluto ou  o omnisciente conseguimos ser nós próprios. Nesses momentos, despojamo-nos das roupagens necessárias para nos relacionarmos com os demais.

Com e para Deus, todas esses disfarces se tornam supérfluos, porque a inteligência Dele transcende o nosso auto-conhecimento. Diante da absoluta consciência de um ser eterno, nem sequer fará sentido falar-lhe ou orar-lhe ou qualquer outra diligência do género. Deus sabe de antemão as nossas palavras e  rogos. 

Não foi por acaso que antes de anunciar os seus dois mandamentos — "Ama a Deus e ao próximo como a ti mesmo" — Jesus pediu àqueles que o seguiam: "Escuta, Israel".

06/04/2023

O lugar certo

Às vezes, o tédio pode ajudar-nos a delinear melhor o que nos cerca, enquanto a tristeza pode soterrar-nos paixões, revelando a verdadeira forma das coisas.

Aos 55 anos, a vida já não é uma maratona, mas uma corrida de meio-fundo: 1500 metros que exigem estratégia, ritmo forte e eventuais sprints, para os quais já não temos tanto fôlego.

Descobri uma forma de aferir a felicidade: Se não te importas de passar o resto da vida fazendo exatamente o que fazes agora, então estás no lugar certo, a fazer a coisa certa.

 Esta conclusão pode ser considerada um achado arqueológico, um mandamento teológico ou até mesmo uma bússola existencial.

Experimenta pensar nisto e, eventualmente, verás como diante da encruzilhada da dúvida,  é possível reajustar o sentido da  tua vida.




06/09/2022

Âncora e amparo

 Uma prima que não vejo há muito — o tempo talvez seja desprezível quando se trata de empatia entre pessoas — ao ler os meus poemas, referiu-se à poesia como sendo "uma âncora e um amparo". 

Quando as palavras são certeiras ficam bem presas na memória:

ÂNCORA, porque nos prende ao mais íntimo de nós, ainda que esta ligação não deva ser obsessiva, nem centrada em nós próprios apenas. Deve também prender-nos ao melhor dos outros; ao melhor do mundo; à grata missão de participarmos nele; e à sábia e delicada tarefa de o contemplar; 

AMPARO, porque nada melhor que um poema para nos ouvir, compreender e aceitar-nos tal como somos. «Vinde cá, meu tão certo secretário/ dos queixumes que sempre ando fazendo,/ papel, com que a pena desafogo!», assim escreveu o príncipe dos vates, Luiz de Camões. Sabia ele melhor que ninguém que nas horas difíceis, tinha à distância de uma pena e de uma folha, a sua consolação, a sublimação dos dramas, maiores ou menores, que a vida  nos garante.

22/04/2022

Apenas o olhar



Pouco a pouco, as máscaras  desaparecem dos rostos. Os alunos ficam contentes.
  
Quanto a mim, confirmam-me sobretudo como um observador de olhares. Costumo encontrar neles a essência das pessoas, das emoções, dos sentimentos  — enfim, daquilo que será, para mim,  a sinceridade do outro. 

Sou daqueles que acreditam que os olhos não mentem.
A boca é diferente. Reage demasiado depressa, emite com frequência uma tentativa de ser, mas que ainda não o é em absoluto.

Em toda a minha vida, tem sido através dos olhares que avalio melhor as situações e os outros, que os reconheço às vezes muitos anos depois. Podem  engordar, envelhecer e o olhar, porém, permanece igual: a cor, a expressão da surpresa, da alegria, da graça, da atenção. 
Agora que as máscaras felizmente começam a cair, tenho já  saudades  dos olhos nos olhos, exclusivamente.





                                        Fotografia de Aditya Wardhana em Unsplash

24/05/2021

O diário que não escrevi

 Eu amava-a profundamente, ainda que este advérbio de modo não ajudasse a representar o meu sentimento por ela. O meu amor era de uma esfera mais elevada do que aquela onde as palavras significavam ideias convencionais. Por isso, quando ela me pedia para eu dizer-lhe explicitamente que a amava, recusava, evocando argumentos dúbios. Não era possível explicar-lhe a minha teimosia sem falar de magia, de mistério, de coisas apenas intuídas, mas que ainda não tinham para mim uma explicação inteligível. A mais humana das razões era o medo. O medo de nomear o meu sentimento numa camada mais baixa da existência do que aquela onde o meu desejo se havia estabelecido: etéreo, mas vivaz; mental, mas ardente.




21/04/2021

Águas calmas

 As águas calmas da barragem fazem-nos cair num sono, numa miragem plácida, onde só o sossego parece prevalecer. Nas margens, o cheiro do poejo adoça-nos o palato através do seu odor. Alguns peixes assomam à superfície para caçarem os mosquitos que convivem em voos imprevistos e rasantes. O silêncio quebra-se de vez com o salto da carpa e o destino infeliz do insecto. São as águas calmas e opacas que nos tornam demasiado lentos e confiantes. Deixamos de fazer perguntas, porque ouvimos sempre as mesmas respostas. Não procuramos ver em profundidade. Queremos respostas rápidas, porque não podemos esperar. Preferimos não saber a verdade, ou seja, não nos apercebemos às vezes que a carpa se aproxima sorrateira para nos levar a luz e a liberdade.

15/04/2021

O Jantar da Raposa

 Uma aldeia é uma fábula de La Fontaine. A vida dos humanos e dos animais cruza-se com frequência.  Porque tudo ali é lento e previsível, vamos conhecendo os hábitos dos bichos — os seus trilhos, as suas manias. Depois das refeições guardávamos os restos de carne para entregar às raposas que rodeiam a aldeia. Durante uma semana, tentámos adivinhar os locais onde podíamos entregar-lhes o jantar. Nunca as vimos, porém. 

Mais tarde, um hortelão simpático informou-nos o lugar onde elas viviam. Lá fomos, nós com salsichas e entremeadas  matar a fome à família das raposinhas. Não encontrámos nenhuma. Deixámos lá o manjar e regressámos desiludidos. Já passava da meia da noite, quando decidimos lá voltar.  Qual não foi a nossa surpresa, quando, no improvisado comedor,  uma raposa abocanhava uma das salsichas. Valeu a persistência para vê-las e alimentá-las. Interpretei este sinal, como se o espírito da aldeia nos dissesse: "Nunca desistam de bem-querer.".



12/04/2021

Reflexão: as caminhadas na aldeia

Saímos cedo para a caminhada em redor da aldeia. E logo nos assaltam os aromas, os sabores, a rugosidade das pedras. Cheiramos a hortelã e o poejo, comemos figos e amoras, tateamos o musgo sobre as rochas. Quando o sinal de rede enfraquece,  os sentidos da proximidade ganham vitalidade: o olfato, o paladar e o tato.  Já não há momentos isolados, apenas um mergulho caminhado, um ato continuo, completo e autêntico. Sem intermediação, a natureza  torna-se imersiva e cheia daqueles detalhes que ganham um novo sentido quando se juntam. Por ali, não encontramos vestígios de inocência, mas apenas uma essência modesta, que apenas se revela até ao limite necessário para viver.



Foto de Fátima Rodrigues

03/03/2021

Reflexão: A primeira aula

Caminhamos até ao limite da aldeia. Nos últimos candeeiros públicos, os morcegos em voos irregulares caçam traças atraídas pela luz. Ouvem-se os cães a ladrar: um aqui, outro acolá ao longe. Mas foram outras luzes que  nos  trouxeram aos arrabaldes.  Viemos ver o céu  estrelado: galáxias, planetas, estrelas.

Tudo isto é imenso, um mar de probabilidades, um infinito mistério.  A primeira aula de teologia devia ser sobre astronomia. 


                                        Fotografia de  Mike Setchell em Unsplash

26/02/2021

Reflexão: um pacto nobre

Foto de Fátima de Castro em Salvaterra do Extremo

Por detrás das quelhas, velhos muros de granito, distribuem-se os animais domesticados: ovelhas, cabras, porcos e cavalos. Meia dúzia de cães guardam-nos, cumprindo o ofício. Ao passarmos, os herbívoros correm ao nosso encontro. Esperam guloseimas que por hábito lhes levamos: restos de fruta, ervinhas tenras e, com sorte, uma ou outra cenoura. Os eleitos deste ano foram dois cavalos. Guardados longe da aldeia ainda não percebemos quem os cria e por quê?

 Os cavalos foram símbolos de poder durante muito tempo. Agora, já pouco dizem ao homem urbano. A sociedade troca de símbolos de vez em quando. Os sinais são mais perenes: um grito ainda é um grito e um trovão, um trovão. Os cavalos, como símbolos de poder, tornaram-se miniaturas prateadas numa famosa marca de automóveis. Os equídeos de carne e osso são mais discretos ou raros. Lembram-nos porém um pacto nobre que fizemos há muito com eles. 

23/02/2021

Reflexões na aldeia: o caos e o cosmos

O rio vai calmo, quase estagnado. O verão é lento e manso. Só percebemos que o rio passa porque leva uma folha côncava a fazer de caravela

Quando as águas passam, entendemos que já não voltam. Olhamos depois para montante — e vendo já as vindouras — verificamos que tudo se renova: aos nossos pés, temos as águas presentes, que nos banham,  refrescam ou arrefecem mesmo se o banho se demora. Parece falta de visão, mas, frágeis e erráticos, aprendemos a contar apenas com "aqui e o agora". 

Será tudo resto incerteza ou distância? O rio parece dizer-nos que a nossa vida é um cosmos, e não um caos como às vezes parece. Se assim pensarmos ficamos menos ansiosos, mais disponíveis para aceitar as águas que foram e as que ainda aí vêm.

Rio Erges (1º afluente do Tejo) - Salvaterra do Extremo


16/02/2021

Reflexões na aldeia: a viagem vertical

Ao longe uma chilreada de estorninhos deleita-nos os ouvidos. Mais perto, as cabras roem algumas cascas de troncos de oliveira. As ovelhas aninham-se entre si como se fossem uma família terna. O sino marca mais meia hora. 

Porque será  que vemos uma paisagem  monótona vezes sem conta e nos parece sempre interessante? Porque tudo aquilo que se torna sagrado  ganha profundidade, na razão inversa em que perde superficialidade. E apenas o que é profundo permite o mergulho, a tal viagem vertical. Se o mergulho se prolongasse, haveríamos de nos maravilhar boquiabertos com uma simples gota de orvalho.


Casa Pinheiro - Salvaterra do Extremo(Idanha-a-Nova)


20/11/2020

Reflexões pelo bosque afora

 I 

Li a história de um cão pisteiro de lobos que trabalhava apenas para que o dono lhe atirasse uma pequena bola no final da tarefa. Também na minha infância, nos intervalos das aulas, eu perseguia feliz e recompensado uma bola de borracha. Era tribo contra tribo: sentimento de pertença e adrenalina. Mais umas gotas de dopamina quando marcávamos um golo. Isso me bastava.

Agora preparo-me para a eternidade possível. Tento escrever, porque me parece que os pensamentos não morrem. Leio e vejo clássicos, também e sempre que posso. Tento aprender latim com o Frederico Lourenço, preparando-me, como posso, para visitar os mortos.