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15/09/2026

Bem-vindo, outra vez

Começa hoje. Começa todos os dias. E recomeçar é uma graça divina, uma dádiva concedida a tão poucos, um reencontro com outra forma de manhã.

Talvez tudo tenha mudado muito pouco. Mas tu, caro amigo, mudaste tanto.

Passaram sobre as tuas retinas tantas imagens que depois se dissolveram: praias, rios, pessoas e até pequenos-almoços em esplanadas de província.

O comboio, coisa férrea por fora, tem um coração a bater por dentro. Tem pensamentos, grandes alegrias e expectativas. No entanto, quem o vê assim, à distância, parece ver apenas um corpo ressequido, sem viva alma, conduzido por carris que lhe retiram todo e qualquer livre-arbítrio.

Não há nada que possas mudar, caro amigo. A tua vida entrou também nos carris. As estações estão marcadas e as paragens têm horas certas.

E, mesmo que as pequenas charnecas te encantem, bem como o grito mais alto da pequena carriça, é no betão e no ferro forjado que ainda precisam de ti.

Fazes parte do refúgio, do tratamento, da panaceia, se quiseres.

Bem-vindo, rapaz. Bem-vindo ao mundo outra vez.

02/09/2026

A minha Tabacaria



Resta-me, e é muito improvável, refazer com restos. Quando tinha tudo, que era muito pouco, perdi-o numa noite deliciosa de casino, porém. Agora olho, invejoso, o que os outros construíram, mais ou menos determinados.

Em vão tenho viajado pelos arrabaldes das Índias e dos Brasis, multiplicados ao longo da linha do comboio suburbano que me segue desde a infância. Essa que liga a lei ao prazer, o dever ao direito, mas da qual apenas frequentei o apeadeiro de Santa Cruz de Benfica, onde os comboios paravam de vez em quando.

Claro que tudo me parece pouco, porque sonhei como um sultão, um rajá que tudo herdou e tudo perdeu para um ministro que, apesar de estúpido, o enganou.

O único luxo que tenho é o de saber de cor a Tabacaria, do Álvaro de Campos, e poder, ainda que sozinho, chorar e rir como aqueles — que são tantos — que não podem ser tantos.


01/09/2026

três minutos antes da tomada de Tróia




O azul ainda dorme e, ao longe, a manhã corre ao nosso encontro. Por detrás das tendas dos gregos, uma sombra vela e interpõe-se à maioridade da luz. A melodia pendular das coisas é apenas uma memória recente. Uma presença em ausência.

Podia voar, enlouquecer, se quisesse, mas prefiro descrever este ambiente, este frémito antes da batalha, sentado sobre o meu elmo, com a armadura peitoral por apertar, a espada por polir, inclinada sobre uma rocha cinzenta.

Não será covardia nem coragem, mas tão só uma vontade de não morrer nem matar. Antes ficar por aqui, a ouvir o tinir do aço, o relinchar dos ginetes, o movimento das tropas, os tambores, os gritos.

Ficar assim mesmo sem nada me incomodar mais do que esta mosca que insiste em pousar sobre o meu rosto, meio esfíngico, meio humano. Um rosto de quem, em vez de lutar, preferia conversar com um amigo sobre a transparência dos deuses e as múltiplas formas como estes se manifestam, em dias que se prometem sangrentos e históricos.



16/08/2026

A vitória dos pequenos

Fazes-me tanta companhia, como um relato de futebol, num domingo à tarde, há cinquenta anos.

Uma telefonia bastava para que nos sentíssemos acompanhados. Lembro-me como se fosse hoje: nesse dia ganhámos ao Benfica por um a zero.

 O Bento estava na baliza deles, e eu julgava-o inultrapassável. Mas o lateral-esquerdo, um negro barbudo chamado Alberto, lá me deu essa grande alegria.

Ao teu lado, gatinha, sinto o mesmo conforto que senti nesse golo marcado ao magnífico Benfica.

Chamemos-lhe a vitória dos pequenos

13/08/2026

InRIOtornável



Nada marcas do que se passa em teu redor.

Talvez saibas que o rio não retorna aqui. E mesmo que retornasse, não o reconhecerias, nem ele a ti.

Porque o tempo e o lugar são a mesma coisa, o mesmo encontro ou desencontro.

Se, porém, a corrente fluísse da foz para a nascente,
verias, submersos e informes,
os corpos jazentes dos teus entes queridos,
regressando apócrifos.

Devias por isso guardar 
numa caixa de sapatos 
algumas fotografias antigas.

Talvez assim, 
tu e o rio se reconhecessem.

16/07/2026

Enquanto Não É Meia-Noite.


O Natal ainda mal se avista. Da Páscoa nem vale a pena falar.

Um amigo lembrou-me ontem da sua tendência para escrever através de metáforas. "Podes ser um poeta, Pedro", pensei mesmo agora. 

Deve ser constrangedor sermos uma coisa e, entretanto, reconhecidos por outra; e assim ser, dia após dia, a vida toda.

Fazem-me falta aquelas luzinhas de Natal a salpicar a casa, o presépio na sala ou, antes disso, aquela ansiedade feliz enquanto ainda não é meia-noite.

Um dos problemas da poesia, disse-me um dia um professor de filosofia, é dar ao texto a medida certa do detalhe. Ser vago quanto baste.

A luz definha dentro de casa apenas porque corremos as persianas. Lá fora, um sol aos berros seca as últimas ervas da charneca. 

A gata segue os peixes do aquário com um olhar vigilante. Serão os peixes, para ela, os presentes do próximo Natal?

Talvez, se os tivesse entre as garras, os arrumasse por um canto, deixando assim, para mais tarde, essa fantasia demoníaca de brincarmos às escondidas com os mortos.

Amadora, 16 de Julho de 2026

09/07/2026

Metamorfose

Deito-me na cama, fecho os olhos com força, enrolo-me em mim. Vêm-me à memória aquelas lapas que encontrava na foz do rio Mira, na maré baixa, encrostadas na rocha viva.

Posso, afinal, dizer, como elas: dificilmente me tiram daqui. Casca rija por cima, a velha crosta da Terra por debaixo. Tão segura ilusão...

As ondas são lençóis que sobem ou descem consoante as marés. Eu, molusco de mucosa húmida, informe, recolhendo-me e encolhendo-me diante do olhar guloso dos outros; distendendo-me depois, já morto, dentro da panela, com molhinho de alho e coentros a temperar-me o corpo, desalmado, porém.

14/04/2026

Paisagem para Fechar os Olhos

Pergunto-me: será normal apetecer-me fechar os olhos para estar de novo ali, numa estrada distante entre Portugal e Espanha, ladeado de cegonhas e prados, sob aquela luz morrente, acabada de escapar às nuvens baixas, com as vacas a pastar, o pueblo espanhol e as suas bebidas espirituosas, o pão branco, o modo determinado de ser daquela gente extremenha.

Como é eterno e breve este espaço onde guardamos as memórias. Felizmente, trouxemos queijos que perfumam a casa de salgado e leite de ovelha e cabra.
E assim convoco o espaço que deixei lá atrás na tal estrada distante.

É impossível não gostar da primavera quando ela se torna hegemónica — quase uma ditadura
que se impõe sem dar lugar à liberdade de mais nenhuma estação.

12/04/2026

O meu desassossego

Podia fazer-me de morto, podia — mas tenho tanto tempo para isso. Optei antes por fazer-me de moribundo, um semimorto: aquele que apenas escuta, contempla e reflete sobre as próprias sensações.

Não posso ter ilusões, porque conheço em demasia a teimosia das desilusões. Nem esperanças, porque o meu desejo é insaciável. E quando a esperança morre ao alcançar o que deseja, um novo barco parte em atividades exploratórias — por bairros, por pessoas a haver — à procura do acaso, do destino, do cruzamento, de uma volta de mar que me vire a vida do avesso.

Tenho porém tamanho lastro e tão curto velame no navio, sendo quase inevitável acabar fundeado a cem metros do porto, entre o cheiro do peixe vindo da docas e as correntes domésticas que passam, cordatas,
entre o pontão e a praia.

18/03/2026

Dentro do carro

A chuva acentua a clausura, reduz sons, retira gente da rua. É um curto dilúvio, não redentor, mas paliativo. Os vidros esfumam-se, como pálpebras que se preparam para o sono.


Do outro lado, imaginas os campos, a ambição dos rios — ribeiras que acordam de súbito quando sentem os pingos frios sob a pele.


Antecipas o sol, o clamor esfomeado dos animais, a urgência das flores e das suas feromonas correndo pela charneca à procura das abelhas arregimentadas pela luz que regressará em força.


E tudo isto se repete, vezes sem conta, a partir da bolha que te enclausura o corpo e expande o que imaginas.


Amadora, 18 de Março de 2026


07/02/2026

Desejo e Razão

Parece que o mau tempo não abranda.
O vento vem de Espanha, assim parece,
tem um sotaque carregado,
tomando balanço nas planícies de Castela.

Sobre a refrega entre a razão e a energia,
escreveu Blake♤,
que são opostos no mesmo corpo:
a energia, desejo;
a razão, a circunferência que o cinge.

E se o desejo fôr por ventura o vento,
a circunferência não sei —
talvez as paredes altas,
as janelas fechadas por prudência,
essa qualidade
que tantas vezes disfarça o medo.


♤ Blake, William é o autor do livro "A união entre o céu e o inferno"

10/12/2025

Lugares comuns


Escondeste-te onde não há pão, muito menos vinho; onde palavras como espírito ou alma perderam qualquer sentido.

E, se saíres desse abrigo, sabes de antemão que derivas  por aí em múltiplas diligências que te foram entregues como urgentes.

Talvez sintas, de forma superficial, que preparas a casa ou a enfeitas para um Natal distante, que navegas pelo mundo, quando apenas vais de estação em estação pela linha de Sintra.

Nada, porém, te faz erguer os olhos para o sol que renasce atrás da colina, para a jovem ave que pula de galho em galho, para a nuvem que se alonga e te revela a impossibilidade de ser teu o quer que seja.

E, ainda assim, tens a tentação de julgar definitivo o que é apenas fortuito, a audácia de te contares entre os vivos, mesmo que não saibas explicar porquê. 



04/11/2025

Diário Impessoal - "O fio de Ariadne"

Amadora, 4 de Novembro 

A máquina de lavar está avariada.
Também eu estou. 
Já não funciono como dantes, e sinto-me melhor assim.

Agora existo quase apenas para contemplar as últimas coisas
com a consciência de as ter contemplado.
Parece fácil, mas não é.
Abandonar a vida para contemplar,
como os anjos berlinenses de Wim Wenders.

Somos, antes de mais, 
um projeto de sobrevivência em movimento.
Podemos fazer-nos de mortos,
mas não por demasiado tempo.

Como Ariadne no labirinto do Minotauro,
deixámos demasiadas pontas de novelo
para sairmos de lá vivos, inteiros.
Os nossos demónios, e os dos outros,
acabam sempre por encontrar algumas dessas pontas.

E quando, distraídos, nos encontramos em ascese,
em longínquas ruminações:
truz... truz,
chegam eles.

28/10/2025

Novembro



Era um dia qualquer, cinzento, perto de novembro. Os peixes cantavam o seu desenho de lua e mar. E também eu teria cantado, se não tivesse tantas contas para pagar, e outras obrigações que me fazem escravo da gleba, mujique russo do século XIX, soldado a quem, por prémio, deram um cárcere.

Nada acontece porque acontece. Deus não joga aos dados. Há de haver uma razão qualquer entre o primeiro e o último dia.

Depois do padre Vieira, num púlpito em São Roque, repetir dezenas de vezes o pulvis es, et in pulverem reverteris, o povo saía primeiro apressado da igreja, depois os nobres e os endinheirados, mais devagar, como quem seguisse debaixo de um pálio.

Corria  então um vento, uma brisa talvez, que levava esse pó e o espalhava pelos quatro encantos do mundo.

Amadora, 28 de Outubro de 2025

01/10/2025

Luto e ressurreição

Queluz, 1 de Outubro de 2025

Se já não pertenço aqui, onde pertenço então?

A que morada celestial me levarão os anjos, os tronos, as potestades — toda essa hierarquia que esvoaça silenciosa por aí?

Se não os consegues ouvir, cala-te então. 

Faz um jejum  intermitente de pensamentos que nem chegam a sê-lo: talvez apenas zumbidos nos ouvidos, miados convulsivos, sinais sem significado.

O mais fácil é  não ter morada certa: ser no mundo o cigano das feiras, o cão vadio assustado, pedindo com o rabo entre as pernas o osso buco que sobrou da véspera.

Longe está a casa da infância, a felicidade por provar da juventude, o apelo da selva, o tributo pago às convenções.

E agora, que me afastei, vejo toda a minha vida como uma paisagem distante.

Sou um vagabundo sem apegos, nem hábitos, a não ser o de procurar aquilo que finjo não saber o que é.

Tenho o destino tortuoso  da semente voadora, que não sabe onde vai cair, nem o que germinará no final.

“O meu destino é a viagem”, deve ter escrito Pessoa.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, cantou o Chico mais de uma dúzia de vezes.

E nesta manhã feita de frases gastas que me cimentam a memória, descubro então que a minha vocação é desfazer-me para ficar inteiro.


27/09/2025

Porque eu, porque ele

Amadora, 27 de Setembro 2025


Amadora, 27 de Setembro 2025


Nuvens, pássaros, telhados. Por esta ordem  alinha-se e prolonga-se a paisagem fora de mim.

Dentro, é diferente: um deserto minúsculo. Dou dois passos e já estou na juventude.

Mais dois, e entro na sala de aula, na profunda infância. O movimento é vertical, em queda.

Logo retorno aos sons e cheiros que já não existem. E por isso mesmo existem, mas agora através da sua ausência definitiva.

Não são apenas as pessoas que morrem à nossa volta. Morrem também os cheiros, os paladares, as sensações em geral. 

Pergunto ao corpo pelo cheiro da cera no chão; pelo sabor do arroz de bacalhau; pela sinfonia romântica de uma manhã de nevoeiro em Peniche.

Mas pior do que isso é esquecer a cruz, os cravos a romper os tecidos da mão, os buracos das lanças no lombo,o pano encharcado em vinagre nas trombas.

Há pouca dor, muita distração e analgésicos.

É normal que prefiramos a anestesia. E depois…

Depois de nos aliviarmos da nossa dor, é natural que não suportemos a dos outros.


Amadora, 15 de setembro de 2025


18/09/2025

Manhã

"Nunca houve uma igual
a mim
como hoje."

Solange Firmino


Os comboios passam e não ouvem ninguém. Estranhas e úteis lagartas, levando e trazendo os deserdados do teletrabalho.

 Há um prenúncio de chuva na forma triste das nuvens, enquanto a gata espera, atenta e paciente, pela nossa brincadeira.

Não há paz que sempre dure, nem guerra, felizmente. 

“Lar, doce lar”, casca de caracol, frágil e quebradiça se um pé gigante se lembrar de por aqui passar.



29/05/2025

A razão da minha ansiedade

Tudo é lento e demorado: a construção dos ninhos, a floração das bétulas, o regresso completo das andorinhas.

Não me lembro de  ansiedade nos outros animais; a não ser quando lutam por sobreviver, quando percebem que, apesar de tudo, ainda há uma pequena possibilidade de escapar à gadanha da velha ceifeira. 

Enquanto eu, medida cheia de genes soberanos, anseio tantas vezes apenas por razões triviais. E porquê? Talvez porque o Homo sapiens imagina demais.

03/05/2025

Salva-me


Há na liberdade do Outro uma ressonância que me cria ansiedade: os peixes exigindo comida, a gata reivindicando a mesma brincadeira da manhã, a planta da cozinha que teima em morrer para meu desconsolo — muito menor do que o dela, presumo.

Todos me pedem o seu consolo, para meu desconsolo imediato. Eu que apenas pretendo escrever estas poucas linhas que agora ledes.

Temos a possibilidade da liberdade, seja por que nos foi concedida ou por nós conquistada; a possibilidade de aparecer ou não; de fazer ou não.

O que nos pesa, porém, é a consciência do Outro, essa voz forte e feroz que nos grita baixinho ao ouvido o refrão de uma velha canção: "Save me, save me, save me".

21/04/2025

A derrota das canas




Cortaram as canas no baldio das minhas traseiras. E com elas, as urtigas, as malvas e as papoilas.

Não tardam e voltaram a crescer, porém. Os pombos varrem agora esse campo de batalha entre a Terra e os homens. 

Todos os anos por decisão camarária, a natureza perde. Mas cá no fundo sei, sabemos, que se trata apenas de uma escaramuça, reminiscências de eleitores que ainda confundem a espontaneidade da vida com desordem ou sujidade.

Mas cá no fundo, sei, sabemos, que os tigres e as gazelas passearão tranquilas nos jardins de Versalhes. 

Amadora, 20 de Abril de 2025