15/09/2026
Bem-vindo, outra vez
02/09/2026
A minha Tabacaria
01/09/2026
três minutos antes da tomada de Tróia
O azul ainda dorme e, ao longe, a manhã corre ao nosso encontro. Por detrás das tendas dos gregos, uma sombra vela e interpõe-se à maioridade da luz. A melodia pendular das coisas é apenas uma memória recente. Uma presença em ausência.
Podia voar, enlouquecer, se quisesse, mas prefiro descrever este ambiente, este frémito antes da batalha, sentado sobre o meu elmo, com a armadura peitoral por apertar, a espada por polir, inclinada sobre uma rocha cinzenta.
Não será covardia nem coragem, mas tão só uma vontade de não morrer nem matar. Antes ficar por aqui, a ouvir o tinir do aço, o relinchar dos ginetes, o movimento das tropas, os tambores, os gritos.
Ficar assim mesmo sem nada me incomodar mais do que esta mosca que insiste em pousar sobre o meu rosto, meio esfíngico, meio humano. Um rosto de quem, em vez de lutar, preferia conversar com um amigo sobre a transparência dos deuses e as múltiplas formas como estes se manifestam, em dias que se prometem sangrentos e históricos.
16/08/2026
A vitória dos pequenos
13/08/2026
InRIOtornável
16/07/2026
Enquanto Não É Meia-Noite.
09/07/2026
Metamorfose
14/04/2026
Paisagem para Fechar os Olhos
12/04/2026
O meu desassossego
18/03/2026
Dentro do carro
A chuva acentua a clausura, reduz sons, retira gente da rua. É um curto dilúvio, não redentor, mas paliativo. Os vidros esfumam-se, como pálpebras que se preparam para o sono.
Do outro lado, imaginas os campos, a ambição dos rios — ribeiras que acordam de súbito quando sentem os pingos frios sob a pele.
Antecipas o sol, o clamor esfomeado dos animais, a urgência das flores e das suas feromonas correndo pela charneca à procura das abelhas arregimentadas pela luz que regressará em força.
E tudo isto se repete, vezes sem conta, a partir da bolha que te enclausura o corpo e expande o que imaginas.
Amadora, 18 de Março de 2026
07/02/2026
Desejo e Razão
10/12/2025
Lugares comuns
Escondeste-te onde não há pão, muito menos vinho; onde palavras como espírito ou alma perderam qualquer sentido.
E, se saíres desse abrigo, sabes de antemão que derivas por aí em múltiplas diligências que te foram entregues como urgentes.
Talvez sintas, de forma superficial, que preparas a casa ou a enfeitas para um Natal distante, que navegas pelo mundo, quando apenas vais de estação em estação pela linha de Sintra.
Nada, porém, te faz erguer os olhos para o sol que renasce atrás da colina, para a jovem ave que pula de galho em galho, para a nuvem que se alonga e te revela a impossibilidade de ser teu o quer que seja.
E, ainda assim, tens a tentação de julgar definitivo o que é apenas fortuito, a audácia de te contares entre os vivos, mesmo que não saibas explicar porquê.
04/11/2025
Diário Impessoal - "O fio de Ariadne"
28/10/2025
Novembro
Era um dia qualquer, cinzento, perto de novembro. Os peixes cantavam o seu desenho de lua e mar. E também eu teria cantado, se não tivesse tantas contas para pagar, e outras obrigações que me fazem escravo da gleba, mujique russo do século XIX, soldado a quem, por prémio, deram um cárcere.
Nada acontece porque acontece. Deus não joga aos dados. Há de haver uma razão qualquer entre o primeiro e o último dia.
Depois do padre Vieira, num púlpito em São Roque, repetir dezenas de vezes o pulvis es, et in pulverem reverteris, o povo saía primeiro apressado da igreja, depois os nobres e os endinheirados, mais devagar, como quem seguisse debaixo de um pálio.
Amadora, 28 de Outubro de 2025
01/10/2025
Luto e ressurreição
Queluz, 1 de Outubro de 2025
Se já não pertenço aqui, onde pertenço então?
A que morada celestial me levarão os anjos, os tronos, as potestades — toda essa hierarquia que esvoaça silenciosa por aí?
Se não os consegues ouvir, cala-te então.
Faz um jejum intermitente de pensamentos que nem chegam a sê-lo: talvez apenas zumbidos nos ouvidos, miados convulsivos, sinais sem significado.
O mais fácil é não ter morada certa: ser no mundo o cigano das feiras, o cão vadio assustado, pedindo com o rabo entre as pernas o osso buco que sobrou da véspera.
Longe está a casa da infância, a felicidade por provar da juventude, o apelo da selva, o tributo pago às convenções.
E agora, que me afastei, vejo toda a minha vida como uma paisagem distante.
Sou um vagabundo sem apegos, nem hábitos, a não ser o de procurar aquilo que finjo não saber o que é.
Tenho o destino tortuoso da semente voadora, que não sabe onde vai cair, nem o que germinará no final.
“O meu destino é a viagem”, deve ter escrito Pessoa.
“Navegar é preciso, viver não é preciso”, cantou o Chico mais de uma dúzia de vezes.
E nesta manhã feita de frases gastas que me cimentam a memória, descubro então que a minha vocação é desfazer-me para ficar inteiro.
27/09/2025
Porque eu, porque ele
Amadora, 27 de Setembro 2025
Amadora, 27 de Setembro 2025
Nuvens, pássaros, telhados. Por esta ordem alinha-se e prolonga-se a paisagem fora de mim.
Dentro, é diferente: um deserto minúsculo. Dou dois passos e já estou na juventude.
Mais dois, e entro na sala de aula, na profunda infância. O movimento é vertical, em queda.
Logo retorno aos sons e cheiros que já não existem. E por isso mesmo existem, mas agora através da sua ausência definitiva.
Não são apenas as pessoas que morrem à nossa volta. Morrem também os cheiros, os paladares, as sensações em geral.
Pergunto ao corpo pelo cheiro da cera no chão; pelo sabor do arroz de bacalhau; pela sinfonia romântica de uma manhã de nevoeiro em Peniche.
Mas pior do que isso é esquecer a cruz, os cravos a romper os tecidos da mão, os buracos das lanças no lombo,o pano encharcado em vinagre nas trombas.
Há pouca dor, muita distração e analgésicos.
É normal que prefiramos a anestesia. E depois…
Depois de nos aliviarmos da nossa dor, é natural que não suportemos a dos outros.
Amadora, 15 de setembro de 2025
18/09/2025
Manhã
29/05/2025
A razão da minha ansiedade
Tudo é lento e demorado: a construção dos ninhos, a floração das bétulas, o regresso completo das andorinhas.
Não me lembro de ansiedade nos outros animais; a não ser quando lutam por sobreviver, quando percebem que, apesar de tudo, ainda há uma pequena possibilidade de escapar à gadanha da velha ceifeira.
Enquanto eu, medida cheia de genes soberanos, anseio tantas vezes apenas por razões triviais. E porquê? Talvez porque o Homo sapiens imagina demais.
03/05/2025
Salva-me
Há na liberdade do Outro uma ressonância que me cria ansiedade: os peixes exigindo comida, a gata reivindicando a mesma brincadeira da manhã, a planta da cozinha que teima em morrer para meu desconsolo — muito menor do que o dela, presumo.
Todos me pedem o seu consolo, para meu desconsolo imediato. Eu que apenas pretendo escrever estas poucas linhas que agora ledes.
Temos a possibilidade da liberdade, seja por que nos foi concedida ou por nós conquistada; a possibilidade de aparecer ou não; de fazer ou não.
O que nos pesa, porém, é a consciência do Outro, essa voz forte e feroz que nos grita baixinho ao ouvido o refrão de uma velha canção: "Save me, save me, save me".