A chuva acentua a clausura, reduz sons, retira gente da rua. É um curto dilúvio, não redentor, mas paliativo. Os vidros esfumam-se, como pálpebras que se preparam para o sono.
Do outro lado, imaginas os campos, a ambição dos rios — ribeiras que acordam de súbito quando sentem os pingos frios sob a pele.
Antecipas o sol, o clamor esfomeado dos animais, a urgência das flores e das suas feromonas correndo pela charneca à procura das abelhas arregimentadas pela luz que regressará em força.
E tudo isto se repete, vezes sem conta, a partir da bolha que te enclausura o corpo e expande o que imaginas.
Amadora, 18 de Março de 2026
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