29/08/2025
Diário impessoal - O sino
03/07/2024
O criador de peixes
Dou de comer aos peixes logo pela manhã. Trouxe-os outrora da loja, dentro dum saco que bem podia ser a Arca de Noé. Os lojistas sabiam exatamente a temperatura e a acidez adequada da água. Senti por isso que os expulsei do Paraíso. Agora estão por minha conta, sou a mão providencial que lhes sustenta a vida.
Nunca esperei deles qualquer tipo de veneração, duvido que a façam. Pelo contrário, sou eu que os contemplo com o calor distante de um Criador que tem tanto para fazer. A minha pequena magnitude deve tê-los feito ateus. Não lhes levo a mal a falta de fé.
Quando os sinos tocam, reúnem-se sempre esfomeados. Em vez de algumas palavras de conforto e hóstias, dou-lhes uma pequena porção de granulado verde.
Enquanto se agitam, devoradores, fico dez segundos a olhá-los ao longe. Depois viro-lhes as costas e pergunto-me o que pensaram eles desta nossa relação transcendental?
29/05/2024
A propósito de Nuno Júdice
Vou lendo os poetas que morrem. Não sei se se trata de uma homenagem inconsciente, de precoce saudade ou do inevitável remorso dos não ter lido em vida.
E se alguns deles não terei perdido grande coisa, de outros fico com a sensação que os deveria ter lido mais cedo, podendo mesmo ter-lhes dado os "Bons dias" se com eles me cruzasse numa rua em Lisboa.
Existe uma literatura indicada para cada idade, para cada estado de espírito: os "Sete" de Enid Blyton, para quando em pequenos sonhamos viver aventuras e resolver mistérios com os nossos imberbes amigos; o "Tarzan dos macacos" do Edgar Rice Burroughs, para quando nos descobrimos afinal sós e despidos na selva entre outras espécies que são afinal todas iguais e a mesma que a nossa.
Depois, fazemos hiperbólicas leituras que ora nos arremessam à estratosfera, ora nos atiram até à escuridão do centro da Terra, onde uma qualquer Eurídice tenha ali ficado à espera de ser resgatada numa tarde de meteorologia instável e pouco promissora.
Neste momento, leio os poemas do Nuno Júdice(1949-2024), como se caminhasse numa manhã fácil por uma avenida cheia de gente com destino e agenda marcada, onde as pastelarias limpas e bem recheadas se intervalam de 50 em 50 metros. E não consigo explicar a impressão que me fica dos seus poemas melhor do que isto.
Até sempre, professor.
15/10/2023
Louise Glück ( (1943 - 2023)
Morreu Louise Glück, poeta norte-americana. Tinha 80 anos. Foi Nobel da Literatura 2020.
Confesso que não consigo ganhar grande intimidade com poesia traduzida ou em inglês.
O seu poema, abaixo transcrito, foi extraído do livro "Averno" (Averno é o lugar por onde se desce ao reino dos mortos).
Revi-me no poema: sinto também uma guerra entre o corpo e alma, onde o primeiro tem levado a melhor. Não sei se é uma sensação de âmbito pessoal ou social. Provavelmente ambos.
Tentei colocar aqui apenas um excerto, mas este poema é um organismo vivo. Se lhe tiras um órgão, morre. Por isso meto o "animal" inteiro.
«LAGO NA CRATERA» - Louise Glück
Houve uma guerra entre o bem e o mal.
Decidimos que o corpo era o bem.
Isso fez da morte o mal.
E virou a alma
Inteiramente contra a morte.
Como um soldado raso desejoso
de servir um poderoso guerreiro, a alma desejou aliar-se ao corpo.
Virou-se contra as trevas,
contra as formas de morte que reconhecia.
De onde provém a voz
que diz: e se guerra for o mal? que diz:
e se foi o corpo que nos fez isto,
nos deixou com medo do amor?
.
.
Louise Glück in "Averno" / Trad. Inês Dias
19/05/2022
Maria dos Pombos
As manhãs pareciam-lhe agora, que fizera 50 anos, com pouco sentido. Apetecia-lhe dar, cuidar.
Porém, um não sei quê que pairava no ar fazia-a acreditar que a ternura, as isenções da bondade traziam consigo um comércio de espíritos, uma bolsa de valores demasiado popular, onde as ações humanas subiam e desciam, enriquecendo parentes longínquos, criando bolhas especulativas de amor, de atenção que mais tarde se transformariam em ódios, defaults e bancarrotas.
Preferia dar em segredo, fora do mercado dos afetos, que julgava cada vez mais falso.
Decidiu, por isso, dar a mão a quem não o revelasse a seguir, como fazia Cristo depois dos milagres.
Encaminhou-se para o supermercado e comprou um saco de amendoins para dar aos pombos que viviam perto da sua varanda.
Sentiu-se bem e — sem perceber, nem se questionar — continuou a fazê-lo todas as manhãs.
Agora quando chegava das compras, os pombos já a esperavam naquele caminhar engraçado de palhaços pobres calçando sapatos enormes.
Quando se distraiam com as horas, desciam à pressa e em bando para o varandim, como se fossem uma multidão de anjos, como se o céu descesse à terra.
Depois de lançar os bagos, sentava-se por detrás da janela. E ali ficava, a trabalhar no computador, contemplando os frutos da sua missão.
Alguns olhavam-na através dos vidros, bicando-os depois para a chamar. Esta, por sua vez, distraia-se com as estratégias deles, suas rivalidades, suas peripécias para comerem mais bagos. Não eram afinal muito diferentes dos humanos.
Via tudo aquilo entretida e remediada como se assistisse a um episódio da BBC Selvagem.
Era este o seu novo ritual: dar sem qualquer expectativa de receber, ainda que se sentisse de novo imensamente desejada e necessária pelos seus protegidos, os pombos.
27/08/2021
Meu querido mês de agosto: o regresso
Encontramos a cidade ainda meio adormecida. Os estacionamentos parecem bocas desdentadas. Para reiniciar as máquinas, basta carregar no botão. As pessoas têm uma matriz natural: espreguiçam-se, lavam os olhos, bocejam e tomam depois o primeiro café devagar a olhar o infinito interior. A cidade também regressa assim, aos solavancos, como um corpo que deixou os seus órgãos a funcionar apenas para se manter viva enquanto dorme.
Passo em revista as tarefas, as rotinas e os compromissos profissionais. Sinto-me um toureiro que antes da corrida espreita um a um os touros que vai lidar, com um misto de temor e desejo.
A respiração acelera. Recordo ainda o silêncio e as águas de agosto; as caminhadas; os passeios; as praias e os museus; as pessoas que conheci e que não sei se voltarei a ver.
«Parar, começar, parar, começar”, lembra-me o som de uma máquina a vapor. Tem ritmo. Tem vida. Vamos a ela, companheiros.
Fotografia de Frame Harirak em Unsplash
26/08/2021
Meu querido mês de agosto: o silêncio
"Preciso deste silêncio", pensei. Porquê este e não outro?
Os silêncios deviam ser todos iguais, mas não são.
Há o silêncio das trincheiras, precário, sujeito à vontade da artilharia, da nossa ou dos outros. Esse apenas dura o suficiente para recuperar da agitação que o troar dos canhões far-nos-á de novo sentir; assemelha-se à golfada de ar que o mergulhador vem receber à superfície antes de voltar a afundar-se nas águas turvas.
O silêncio da serra é diferente: faz parte dela; é a ausência que torna o restante mais presente.
Conhecem aquelas pessoas que através do olhar sabemos que falam verdade? Este silêncio é assim também; não sabe enganar; porque nos olha defronte nos olhos e isso basta para nos fazer acreditar nele.
23/08/2021
Meu querido mês de agosto: a água
Entre vales, fomos ao encontro da água que se ajuntava em açudes e pegos debaixo de frondosos carvalhos e amieiros. Descemos depois a serra, atravessámos a planície para nos banharmos no mar.
Em agosto, procuramos a água por instinto. Quando ela nos envolve sentimo-nos purificados, renovados. Talvez o calor, que nos estimula esta comunhão, seja apenas uma desculpa sensata para mergulhar.
A biologia e o mito explicam que viemos da água e somos também água. Ela representa o sagrado e o essencial para a vida. Os nossos poetas cantam-na: Pedro Homem de Mello escreveu "Povo que lavas no rio" para Amália cantar depois; Ruy Belo definiu que "Portugal é o que o mar não quer", ou seja aquilo que o oceano nos deixa usar.
Agosto traz um mar que nos leva os escolhos e lava as nódoas. E assim renascemos sem dar conta.
Porque não institucionalizamos o rito de mergulhar como os hindus realizam no Ganges? Porque se o fizéssemos, assumiríamos uma paixão, uma sujeição. E nós acreditamos cada vez mais na falácia que controlamos quase tudo. Eu, por mim, não resisto à água fresca em agosto.
Fotorafia de Jeremy Bishop em Unsplash
14/06/2021
Um sol enganador
Olhou para mim e deixou-se lacrimejar. Era um sinal de paixão contida. Gostaria de ter-lhe perguntado o porquê daqueles olhos húmidos, daquele sentimento que crescia no seu íntimo como um rio subterrâneo de onde apenas um fio de água alcança a superfície. Não sabia se estava triste por si, por mim ou por ambos através de uma visão refletida entre as nossas vidas. Revia-se em mim? A minha tristeza ecoava na sua e vice-versa?
Naquela manhã, eu acordara com uma lucidez nascida das sombras. Uma realidade trágica emergira depois de uma noite mal dormida: a desesperança, as promessas tornadas condições materiais e por isso mesmo transformadas numa espécie de canga que colocamos nos animais para puxar as charruas, a velhice, a impotência que sempre existiu, mas que conseguimos esquecê-la durante grande parte da vida, as mentiras que contamos a nós próprios para viver, para sermos amados, as traições, os ódios, as invejas e tudo o mais com que um ser humano consegue envenenar a graça da vida. Tudo isto se tornou nítido naquela manhã de uma forma exponencial. À minha frente, quem me conhece desde as entranhas lacrimejava em silêncio e de mansinho, como se adivinhasse cada uma das conclusões que eu havia encontrado naquela manhã de um sol brilhante, e só por isso, enganador.
30/04/2021
Vem como és
Hoje a canção "Come as you are" dos Nirvana faz 30 anos. Passadas três décadas, parece-me algo anacrónico pensar que ainda é vital estimular a consciência da liberdade individual como forma de reforçar a coesão coletiva. Apesar dos recursos que a Globalização me trouxe, parece-me também ter-se tornado num mecanismo de uniformização cultural, deixando o individuo demasiado condicionado a uma consciência universal e superficial. No horizonte político, notam-se também algumas nuvens autocráticas e despóticas, perspetivadas agora como um remédio amargo, mas eficaz para as nossas dores. A liberdade tem um preço. Primeiro é preciso encontrá-la num amontoado de liberdades prêt-à-porter - o que não é fácil - e depois ter coragem para pagar o seu preço.
03/04/2021
A presença na ausência
Era Sexta-Feira Santa. Chegámos atrasados à missa. Devido aos constrangimentos da Covid-19, fomos desviados para o coro alto de onde tínhamos de assistir à missa. Subindo as escadas da igreja que davam acesso à varanda interior, fomos recebidos por um intransponível senhor de cabeça rapada. Tinha um metro e noventa e uma indumentária franciscana que deixava relevar um forte ascetismo e provavelmente uma ligação continuada aos mandamentos de humildade. Possuía uma cara séria e uma voz quase sussurrada que servia de contraponto com a sua massa muscular. Segredava as ordens, devido ao espaço e ao início iminente da missa mais importante do ano litúrgico. Encaminhava as pessoas para os lugares previamente marcados com bolas brancas, fazendo gestos de polícia sinaleiro. Colocou-me na primeira fila. Ao sentar-me apercebi-me que não conseguia ver o altar, mas apenas Jesus na cruz que o sobrepunha. Tentei pedir ao arrumador para subir para uma fila mais alta. O pedido foi recusado com um “não” seco e um olhar desaprovador. “Não vejo nada daqui.”, justifiquei. “Não e não. Sente-se”, ordenou de novo. Sem argumentos, sentei-me. A minha mulher que ocupava um lugar numa fila mais alta, chamou-me para junto dela. Olhei de novo o arrumador e disse-lhe a ela que não podia. Ela insistiu. Eu resignado e frustrado virei-me para a frente firme, subjugado ao dever de cumprir as normas de segurança: tinha de aceitar a minha situação. Aceitar e compreender eram as únicas atitudes capazes de lidar com a insatisfação.
O padre e os acólitos entraram. A eucaristia ia começar. Levantei-me. Quando o padre Carlos começou a falar, conclui que devido a reverberação do som, não conseguia entender quase nada do que se dizia no altar e do coro. Apenas me chegavam algumas palavras e sons que pareciam por vezes desafinados. Um homem baixo que fora colocado ao meu lado, virou-se para mim e lamentou-se: “Não se consegue ver nada.”. Na sua constatação, havia também um pedido de velado de insubordinação como se tivesse a aliciar-me para a formação de um movimento cívico que destituísse o arrumador ou outra ação semelhante capaz de nos fazer ver e ouvir a missa. Olhei para ele e encolhi os ombros. Tentei com o meu gesto, convencê-lo à resignação. As leituras, os cânticos, as liturgias seguiam sem freios e eu nada percebia e nada via, para além de algumas palavras soltas: “liberdade”, “Papa Francisco”, entre poucas outras. Aquele tempo privação, pôs-me a pensar em metáforas hipotéticas: o que significava a determinação do arrumador, a minha aceitação daquele lugar apesar das solicitações? O que significaria a incompreensão do que era dito ou feito lá em baixo no altar? Conclui que a aceitação é uma premissa religiosa; que por mais douto que me ache nas coisas de Deus, estou sempre muito aquém de um entendimento pleno dos mistérios e dos desígnios que atravessam os dois mil anos que me distanciam de Cristo e do momento da sua consagração. Mais uma vez estava a fazer a mesma pergunta que me seguia há semanas: o que podemos verdadeiramente conhecer?
Fechei os olhos. Estava agora a decifrar uma mensagem que seria impercetível se estivesse atento à mensagem de um
emissor humano. As vozes continuavam incompreensíveis. O coro, os acordes do órgão
pareciam agora bastante desarmónicos e desafinados. Aquela impressão e a altura em
que me encontrava face ao lugar dos acontecimentos que decorriam lá em baixo
fizeram-me colocar a possibilidade de também Deus não os entender. Mesmo que os entendesse vagamente, podia não se
sensibilizar com as palavras cantadas à superfície da Terra. Assim, nem nós entenderíamos a palavra de Deus, nem Ele a nós, levando-O a desprezar os nossos rogos, a não se emocionar com a tentativa
daqueles que tentavam em vão evocar a beleza que Ele lhes inspirava. Na maior parte do tempo, não haveria ligação alguma entre os crentes e o criador: não entendíamos nós a
sua palavra, ou aquela que a humanidade por via dos evangelistas, teólogos ou sacerdotes afirmava
sê-la.
Fiquei a pensar que naquela missa, da qual nada vi nem ouvi, a voz
do Senhor revelou-me exatamente a importância da sua ausência. O seu silêncio era a prova da sua existência. Porque em intensidade e momentos diferentes, todos temos saudades de Deus. E só temos saudades do que já tivemos.
Havia, contudo, uma esperança: no domingo de Páscoa, ele renasceria. E um cristão não pode perder a esperança.
18/03/2021
Os anciões da Cinemateca
Três da tarde. Sala de espera da Cinemateca. Alguns idosos aguardam a sessão. Entreolham-se o mínimo possível. O que haveriam de dizer uns aos outros: banalidades, lugares comuns, tristezas sinceras ou falsas alegrias. Esperam que o filme comece. Na tela, ainda haverá esperança: um início outra vez, um amor pungente, um final inesperado ou mítico, se o filme for daqueles que se tornara um clássico. Sento-me entre eles, como se estivesse entre grandes gatos: quietos, sonolentos, atentos apenas ao que realmente é diferente, ou seja, quase nada. Já viram a vida toda, os filmes preferidos várias vezes.
Nunca tentei abordar nenhum deles. Quem ousaria roubar a palavra de um totem, de um altar? Ouve-se um trecho musical, anunciando que o filme vai começar. Parecem sinos chamando os fiéis. Levantam-se dos ruços e consoladores sofás. Dirigem-se para os lugares habituais na plateia ou no balcão. Todos devem ter uma tese sólida para aquela escolha e dedicação a um lugar, a uma zona da sala. O filme começa. Agora apenas contemplam, como folhas de árvore viradas para o Sol, ou como aqueles grandes afloramentos de granito que rasgam as planícies da Beira. Tenho a certeza que muitos deles pensam ou murmuram mesmo entre dentes: "Projecionista, o filme nosso de cada dia nos dai hoje ".
13/03/2021
Metafísica: um caso de estudo
A tarde era de março, solarenga e chuvosa. Talvez porque a instabilidade dos elementos instigava à ação - ainda que esta pudesse ser apenas pequena e moderada – fugi dos caminhos alcatroados do jardim, desviando-me por um atalho pisado entre ervas que me levaram a uma ribeira. Devido às chuvas, a corrente pulsava nervosa e alegre entre as pedras que pontuavam um caminho entre as margens. Veio-me a vontade de atravessar ali mesmo. Tracei mentalmente uma rota possível pedra a pedra e lancei-me à empreitada. Já os pés saltitavam pelas primeiras pedras, quando me senti desequilibrado e hesitante sobre qual a pedra onde deveria pousar a próxima passada. A água trepava agora lentamente pelos ténis acima. Vislumbrei ao meu lado um caniço que se sobrepunha horizontal à ribeira. Era tão enfezado e quebradiço que tinha como única função servir de poleiro às toutinegras que caçavam mosquitos por ali. Ainda assim, com a mão direita agarrei-me a ele. Com surpresa, notei que aquele corpo estreito e frágil deu-me uma confiança inesperada. Senti-me seguro outra vez e sem mais delongas segui pedra a pedra até à outra margem sempre com o caniço dentro da mão.
Quando lá cheguei, perguntei-me: se não foi a solidez do caniço que me garantiu a estabilidade durante a travessia, o que foi? Tinha sido algo de imaterial, um sentimento, uma aliança entre as forças invisíveis que me habitavam e rodeavam. Creio que é a isto que os filósofos chamam de metafísica.