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24/08/2026

O rumor da cidade

Enquanto espero que o semáforo abra, os carros passam à minha volta. Passam, porém, tão longe de mim que nunca os vi assim: tão iguais, quase coisas teleguiadas, movendo-se num ritmo constante e maquinal. O asfalto molhado produz um efeito estranho, um rumor contínuo, semelhante ao zumbido das abelhas — provavelmente àquele que se escuta junto à porta das colmeias.

Apesar de tudo, é nas cidades que se nasce, vive e morre. Nas zonas mais populosas, as cidades encostam-se umas às outras, confundem-se, tornando difícil atribuir-lhes uma identidade exclusiva. Talvez porque cada cidade contenha outras, mais pequenas, lá dentro: ilhas de betão consolidadas, com aspecto e hábitos próprios. Distinguem-se pelas cores, pela volumetria, pela existência ou ausência de espaços verdes, públicos ou privados.

Pode-se — e deve-se — descansar no campo. Nem imagino, porém, o que será trabalhar por lá. Deve existir ali uma proximidade entre as pessoas difícil de encontrar na cidade, uma tendência para se organizarem em pequenos núcleos onde todos, de algum modo, se conhecem.

Ainda nos anos 80, as grandes avenidas de Lisboa pareciam, ao fim de semana, ruas de uma aldeia quase desabitada. Hoje é diferente. A cidade prolonga o dia pela noite dentro, enche os lugares que antes ficavam vazios e, cada vez mais, parece querer imitar a Big Apple, Nova Iorque, a cidade que nunca dorme.

13/08/2026

As termas de São Pedro do Sul

Passa, leve, o rio. As casas escadeiam a encosta das margens até ao horizonte. Ao meio, uma ponte, ao que parece romana, encavalita gentes e veículos. Intrépida diante dos tempos e das violências que estes trazem, e levam depois, ali está ela, memória surda e muda, à espera de que os seus intérpretes consigam escutá-la, imaginar as legiões romanas ou a artilharia bonapartista atravessando-a.

Por trás, o balneário romano, onde D. Afonso Henriques terá recuperado de uma fratura na perna, sequela de uma batalha em Badajoz.

As casas alinham-se como rostos. Olhando o Vouga, abrem-se as janelas como pálpebras e, por trás delas, erguem-se humanos como pupilas. A população, na sua maioria aparentemente sazonal, arrasta-se logo pela manhã das extremidades para o centro da vila. Vem à procura de uma vida social que surge timidamente nas esplanadas dos cafés.

O produto que mais vende por aqui é uma expectativa. Primeiro, a da saúde; depois, a da vida.

Talvez por isso o som de fundo seja o rio a desfolhar-se nas pedras, distribuídas no leito como teclas graníticas de um xilofone.



11/08/2026

Quando as montanhas nos abandonam


Portugal tem tantos lugares, rios, montanhas, praias — enfim, nada que outros países não tenham.
Para lá do que se vê, por detrás da superfície, o que existe de essencial?

 A língua e, através dela, uma forma de pensar. Mas, mais do que na língua, é no relevo, na orografia, ou mesmo na insularidade, que me parece desenhar-se a ideia de lugar.

Talvez por isso os filhos dos emigrantes (falantes de outras línguas) regressem de férias a estas aldeias no meio das montanhas e não me pareçam assim tão diferentes dos autóctones que nunca daqui saíram.

 Talvez sejam apenas um pouco mais desconfiados, carregando a falsa culpa de terem abandonado estas montanhas, quando, na verdade, foram as montanhas que os abandonaram.
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10/08/2026

Doce estilo lento


Doce e lenta a manhã.

Do bar, projeta-se um blues sem surpresas — vantagens da IA generativa.

Devo ao comprimido que tomei de madrugada, último recurso contra a insónia, parte desta calma, eu sei. Se houvesse um botão para deixar assim a realidade, em câmara lenta, carregava-o sem hesitar. Entalava-o depois com um palito, para que nunca mais a vida acelerasse.

Se Dante terá escrito no Dolce Stil Novo, eu escreveria no doce estilo lento. E cada ano seriam dez, cada torrada demoraria uma hora a dourar.

Essa é a demanda aos 58 anos: empinar o tempo, olhar apenas o teto do quarto e sentir as horas atrasarem-se, coitadas, carregadas de um tédio tão vital como a clorofila de uma oliveira com dois mil anos.

Talvez seja isto envelhecer: descobrir que já não queremos que a vida nos leve para lugar algum. Queremos apenas que, por uma vez, tenha a caridade de ficar mais um pouco:

Lenta.

Doce.

Sem surpresas.

Piscina de Geirós, 10 de agosto de 2026

24/06/2026

Os carregadores do escudo

Hoje, devido ao cansaço acumulado, pensei não escrever, não pensar. Mas escrever não é um esforço mental; é mais uma conversa a dois entre mim e eu próprio, comigo a assistir a tudo isso.

Refugiu-me nos parques, esses restos de paisagem seminatural que ainda vemos plantados pela cidade, um aqui, outro acolá, como ilhas dispersas no deserto do betão.
Essa carapaça de cimento, essa casca de caracol invertida — porque não somos nós que a transportamos às costas; somos antes conduzidos pelos lugares onde ela nos permite andar. Dizem que não conseguimos viver sem ela, sem essa proteção que tem o seu preço. Carrega símbolos que os seus proprietários ostentam ao peito: brasões modernos, casarões, impérios imobiliários.

Ontem li que a vida dos caçadores-recolectores, há quinze mil anos, talvez não fosse tão dura quanto imaginamos. Em poucas horas por dia recolhiam o necessário para sobreviver, tinham uma dieta variada e permaneciam fisicamente ativos sem o saber. Procurar alimento, seguir rastos, fugir dos predadores — tudo isso exercitava o corpo de forma natural.

Quando olho o horizonte e regresso aos esforços que fiz ao longo da vida, percebo que muitos deles serviram apenas para sustentar a complexidade da cidade: as suas veias, os seus medos, os seus símbolos.

A sensação que me fica é a de ser um daqueles gauleses que,sobre o escudo, carregavam o chefe da aldeia para que a sua estatura parecesse maior. Como se os pequenos carregadores existissem apenas para elevar ainda mais quem já está no alto, servindo de penhor à sua ilusão de potência.

06/06/2026

O reencontro


Escreveu Alberto Caeiro que a poesia não era para ele uma forma de emancipação artística ou coisa do género, mas tão-só uma forma de estar sozinho. E estar sozinho não quer dizer estar num monólogo, não é isso. Quando escrevemos, somos nós a falar para nós próprios, connosco, ouvindo a conversa.


Entre os trinta e os quarenta e três anos, pouca poesia escrevi. Aliás, não sei que sonho, ou que sentimento de missão, me atirou para aquela quimera universitária e profissional tão prolongada. Quando esse projeto de ascensão profissional se desvaneceu, estava na puta da merda e tive de me reconstruir com os cacos.

Encontrei na religião algum conforto e algum sentido para o sofrimento; encontrei paz e recolhimento interior. Creio que ainda fui a tempo. Ainda assim, sinto que vivi demasiado tempo num presídio, cumprindo um destino que não escolhi.

Foi o que foi.

Talvez as trevas, ainda que travestidas por algumas lantejoulas, tenham-me dado o discernimento necessário para querer ser feliz, para ser professor, para voltar a escrever. Porém, o tempo dos homens é curto e nenhuma gota de rio passa duas vezes pelo mesmo sítio. E não é apenas uma impossibilidade espacial ou temporal, mas ambas em simultâneo, porque, mesmo que a gota voltasse a passar, as margens já teriam mudado.

Quando vou em busca do tempo perdido, recuo à infância e à primeira juventude. Esse tempo, sim, ficou registado na memória, de forma fantástica ou não, para sempre. Esse “sempre” arder, que é a vida de um homem.

11/04/2026

Felizes os que contemplam


Chegou a hora de partir da aldeia.
Mais uma vez me despeço desta terra da alegria — que, tendo tão pouco de alegre, conserva ainda o sortilégio de nos aliviar da guerra urbana, concedendo-nos uma breve licença para beijar a mão da natureza e escutar as histórias encriptadas no canto e no piar dos irmãos pássaros.

A natureza renova-se a cada ciclo, com a segurança do eterno.
Os homens não: tornam-se grisalhos, perdem dentes, ou mesmo a vida. Outros nascem — ainda lácteos — e correm pelas ruas, pedindo água nos cafés, como outrora nos arrabaldes de Lisboa.

Uma velha economia resiste, escorando uma identidade de meados do século passado: algum gado, azeite e cortiça. Alguns pensionistas regressam à aldeia natal, na esperança de viver em paz os últimos anos.
Mas acreditam numa ilusão.
A paz transporta-se dentro do coração — tal como a guerra.
E a paz é, talvez, inversamente proporcional ao desejo.
Em mim, quando a imaginação desperta o desejo destrói a contemplação.
E então, como diz a minha sogra, vê-se o trigo crescer à noite.

A beleza, por aqui, não pertence a ninguém: está fora de portas.
E por isso se pode dizer: felizes os que contemplam.

29/08/2025

Diário impessoal - O sino

O sino da igreja toca agora as nove badaladas.

Assim o faz todas as manhãs, indiferente a quem o escuta.

Marca o tempo dos vivos, aguarda os vindouros, recorda os que descansam na paz eterna — ou, numa versão menos transcendente, na memória de quem os lembra.

Tudo é perecível, menos as ideias.
As rosas murcham e depois morrem, mas a palavra Rosa persiste intacta na ideia de quem a convoca para expressá-la aos outros.

Não há uma rosa: há A Rosa. Não há este sino que agora ressoa: há O Sino, igual em todos os campanários imaginados que tocam as nove horas pelo mundo fora.

Eu, porém, insisto na minha singularidade, em ser um ente com uma identidade exclusiva.
E, loucura das loucuras, alimento a esperança de torná-la imortal.

É esta mesma teimosia que me angustia: querer ser um corpo uno e indivisível, e não apenas um saco de moléculas preparando-se para se misturar na harmonia do cosmos.

Talvez a nossa ambição devesse ser apenas esta: sermos uma palavra.

E, aí sim, se não alcançássemos a eternidade, pelo menos existiríamos — como um cogumelo sem raízes — no mundo diáfano das ideias, ao lado de um simples sino ou de uma fresca rosa.


03/07/2024

O criador de peixes

 Dou de comer aos peixes logo pela manhã. Trouxe-os outrora da loja, dentro dum saco que bem podia ser a Arca de Noé. Os lojistas sabiam exatamente a temperatura e a acidez adequada da água. Senti por isso que os expulsei do Paraíso. Agora estão por minha conta, sou a mão providencial que lhes sustenta a vida. 

Nunca esperei deles qualquer tipo de veneração, duvido que a façam. Pelo contrário, sou eu que os  contemplo com o calor distante de um Criador que tem tanto para fazer. A minha pequena magnitude deve tê-los feito ateus. Não lhes levo a mal a falta de fé.

Quando os sinos tocam, reúnem-se sempre esfomeados. Em vez de algumas palavras de conforto e hóstias, dou-lhes uma pequena porção de granulado verde. 

Enquanto se agitam, devoradores, fico dez segundos a olhá-los ao longe. Depois viro-lhes as costas e pergunto-me o que pensaram eles desta nossa relação transcendental?

29/05/2024

A propósito de Nuno Júdice

Vou lendo os poetas que morrem. Não sei se se trata de uma homenagem inconsciente, de precoce saudade ou do inevitável remorso dos não ter lido em vida.

E se alguns deles não terei perdido grande coisa, de outros fico com a sensação que os deveria ter lido mais cedo, podendo mesmo ter-lhes dado os "Bons dias" se com eles me cruzasse numa rua em Lisboa.

Existe uma literatura indicada para cada idade, para cada estado de espírito: os "Sete" de Enid Blyton, para quando em pequenos sonhamos viver aventuras e resolver mistérios com os nossos imberbes amigos; o "Tarzan dos macacos" do Edgar Rice Burroughs, para quando nos descobrimos afinal sós e despidos na selva entre outras espécies que são afinal todas iguais e a mesma que a nossa.

Depois, fazemos hiperbólicas leituras que ora nos arremessam à estratosfera, ora nos atiram até à escuridão do centro da Terra, onde uma qualquer Eurídice tenha ali ficado à espera de ser resgatada numa tarde de meteorologia instável e pouco promissora.

Neste momento, leio os poemas do Nuno Júdice(1949-2024), como se caminhasse numa manhã fácil por uma avenida cheia de gente com destino e agenda marcada, onde  as pastelarias limpas e bem recheadas se intervalam de 50 em 50 metros. E não consigo explicar a impressão que me fica dos seus poemas melhor do que isto.

Até sempre, professor.


15/10/2023

Louise Glück ( (1943 - 2023)



Morreu Louise Glück, poeta norte-americana. Tinha 80 anos. Foi Nobel da Literatura 2020.

Confesso que não consigo ganhar grande intimidade com poesia traduzida ou em inglês.
 
O seu poema, abaixo transcrito, foi extraído do livro "Averno" (Averno é o lugar por onde se desce ao reino dos mortos).
 
Revi-me no poema: sinto também uma guerra entre o corpo e alma, onde o primeiro tem levado a melhor. Não sei se é uma sensação de âmbito pessoal ou social. Provavelmente ambos.
 
Tentei colocar aqui apenas um excerto, mas este poema é um organismo vivo. Se lhe tiras um órgão, morre. Por isso meto o "animal" inteiro.

«LAGO NA CRATERA» - Louise Glück

Houve uma guerra entre o bem e o mal. 
Decidimos que o corpo era o bem.
Isso fez da morte o mal.
E virou a alma
Inteiramente contra a morte.
Como um soldado raso desejoso
de servir um poderoso guerreiro, a alma desejou aliar-se ao corpo.
Virou-se contra as trevas,
contra as formas de morte que reconhecia.
De onde provém a voz
que diz: e se guerra for o mal? que diz:
e se foi o corpo que nos fez isto,
nos deixou com medo do amor?
.
.
Louise Glück in "Averno" / Trad. Inês Dias



19/05/2022

Maria dos Pombos

 As manhãs pareciam-lhe agora, que fizera 50 anos, com pouco sentido. Apetecia-lhe dar, cuidar.

 Porém, um não sei quê que pairava no ar fazia-a acreditar que a ternura, as isenções da bondade traziam consigo um comércio de espíritos, uma bolsa de valores demasiado popular, onde as ações humanas subiam e desciam, enriquecendo parentes longínquos, criando bolhas especulativas de amor, de atenção que mais tarde se transformariam em ódios, defaults e bancarrotas.

Preferia dar em segredo, fora do mercado dos afetos, que julgava cada vez mais falso.

Decidiu, por isso, dar a mão a quem não o revelasse a seguir, como fazia Cristo depois dos milagres.

Encaminhou-se para o supermercado e comprou um saco de amendoins para dar aos pombos que viviam perto da sua varanda.

Sentiu-se bem e — sem perceber, nem se questionar — continuou a fazê-lo todas as manhãs.

Agora quando chegava das compras, os pombos já a esperavam naquele caminhar engraçado de palhaços pobres calçando sapatos enormes.

Quando se distraiam com as horas, desciam à pressa e em bando para o varandim, como se fossem uma multidão de anjos, como se o céu descesse à terra.

Depois de lançar os bagos, sentava-se por detrás da janela. E ali ficava, a trabalhar no computador, contemplando os frutos da sua missão.

Alguns olhavam-na através dos vidros, bicando-os depois para a chamar. Esta, por sua vez, distraia-se com as estratégias deles, suas rivalidades, suas peripécias para comerem mais bagos. Não eram afinal muito diferentes dos humanos.

Via tudo aquilo entretida e remediada como se assistisse a um episódio da BBC Selvagem.

Era este o seu novo ritual: dar sem qualquer expectativa de receber, ainda que se sentisse de novo imensamente desejada e necessária pelos seus protegidos, os pombos.




27/08/2021

Meu querido mês de agosto: o regresso

Encontramos a cidade ainda meio adormecida. Os estacionamentos parecem bocas desdentadas. Para reiniciar as máquinas, basta carregar no botão. As pessoas têm uma matriz natural: espreguiçam-se, lavam os olhos, bocejam e tomam depois o primeiro café devagar a olhar o infinito interior. A cidade também regressa assim, aos solavancos, como um corpo que deixou os seus órgãos a funcionar apenas para se manter viva enquanto dorme.

Passo em revista as tarefas, as rotinas e os compromissos profissionais. Sinto-me um toureiro que antes da corrida espreita um a um os touros que vai lidar, com um misto de temor e desejo.

A respiração acelera. Recordo ainda o silêncio e as águas de agosto; as caminhadas; os passeios; as praias e os museus; as pessoas que conheci e que não sei se voltarei a ver.

«Parar, começar, parar, começar”, lembra-me o som de uma máquina a vapor. Tem ritmo. Tem vida. Vamos a ela, companheiros.  

Fotografia de Frame Harirak em Unsplash 



26/08/2021

Meu querido mês de agosto: o silêncio

"Preciso deste silêncio", pensei. Porquê este e não outro?

Os silêncios deviam ser todos iguais, mas não são. 

Há o silêncio das trincheiras, precário, sujeito à vontade da artilharia, da nossa ou dos outros. Esse apenas dura o suficiente para recuperar da agitação  que o troar dos canhões far-nos-á de novo sentir; assemelha-se à golfada de ar que o mergulhador vem receber à  superfície antes de voltar a afundar-se nas águas  turvas.

O silêncio da serra é diferente: faz parte dela; é a ausência que torna o restante mais presente. 

Conhecem aquelas pessoas que através do olhar sabemos que falam verdade? Este silêncio é assim também; não sabe enganar; porque nos olha defronte nos olhos e isso basta para nos fazer acreditar nele.

23/08/2021

Meu querido mês de agosto: a água


Entre vales, fomos ao encontro da água que se ajuntava em açudes e pegos debaixo de frondosos carvalhos e amieiros. Descemos depois a serra, atravessámos a planície para nos banharmos no mar.

Em agosto, procuramos a água por instinto. Quando ela nos envolve sentimo-nos purificados, renovados. Talvez  o calor,  que nos estimula esta comunhão, seja apenas uma desculpa sensata para mergulhar. 

A biologia e o mito explicam que viemos da água e somos também água.  Ela representa o sagrado e o essencial para a vida. Os nossos poetas cantam-na: Pedro Homem de Mello escreveu  "Povo que lavas no rio" para Amália cantar depois; Ruy Belo definiu que "Portugal é o que o mar não quer", ou seja aquilo que o oceano nos deixa usar.

Agosto traz um mar que nos leva os escolhos e  lava as nódoas. E assim renascemos sem dar conta. 

Porque não  institucionalizamos o rito de mergulhar como os hindus realizam no Ganges?  Porque se o fizéssemos, assumiríamos uma paixão, uma sujeição. E nós acreditamos  cada vez mais na falácia que  controlamos quase tudo. Eu, por mim, não resisto à água fresca em agosto. 


Fotorafia de Jeremy Bishop em Unsplash

14/06/2021

Um sol enganador

 Olhou para mim e deixou-se lacrimejar. Era um sinal de paixão contida. Gostaria de ter-lhe perguntado o porquê daqueles olhos húmidos, daquele sentimento que crescia no seu íntimo como um rio subterrâneo de onde apenas um fio de água alcança a superfície. Não sabia se estava triste por si, por mim ou por ambos através de uma visão refletida entre as nossas vidas. Revia-se em mim? A minha tristeza ecoava na sua e vice-versa?

Naquela manhã, eu acordara com uma lucidez nascida das sombras. Uma realidade trágica  emergira depois de uma noite mal dormida: a desesperança, as promessas tornadas condições materiais e por isso mesmo transformadas numa espécie de canga que colocamos nos animais para puxar as charruas, a velhice, a impotência que sempre existiu, mas que conseguimos esquecê-la durante grande parte da vida, as mentiras que contamos a nós próprios para viver, para sermos amados, as traições, os ódios, as invejas e tudo o mais com que um ser humano consegue envenenar a graça da vida. Tudo isto se tornou nítido naquela manhã de uma forma exponencial. À minha frente, quem me conhece desde as entranhas lacrimejava em silêncio e de mansinho, como se adivinhasse cada uma das conclusões  que eu havia encontrado naquela manhã de  um sol brilhante, e só por isso, enganador.

30/04/2021

Vem como és

Hoje a canção "Come as you are" dos Nirvana faz 30 anos. Passadas três décadas, parece-me algo anacrónico pensar que ainda é vital estimular a consciência da liberdade individual como forma de reforçar a coesão coletiva.   Apesar dos recursos que a Globalização me trouxe, parece-me também  ter-se tornado num mecanismo de uniformização cultural, deixando o individuo demasiado condicionado a uma consciência universal e superficial. No horizonte político, notam-se também algumas nuvens autocráticas e despóticas, perspetivadas agora como um remédio amargo, mas eficaz para as nossas dores. A liberdade tem um preço. Primeiro é preciso encontrá-la num amontoado de liberdades prêt-à-porter - o que não é fácil - e depois ter coragem para pagar o seu preço.

03/04/2021

A presença na ausência

 

Era Sexta-Feira Santa. Chegámos atrasados à missa. Devido aos constrangimentos da Covid-19, fomos desviados para o coro alto de onde tínhamos de assistir à missa. Subindo as escadas da igreja que davam acesso à varanda interior, fomos recebidos por um intransponível senhor de cabeça rapada. Tinha um metro e noventa e uma indumentária franciscana que deixava relevar um forte ascetismo e provavelmente uma ligação continuada aos mandamentos de humildade. Possuía uma cara séria e uma voz quase sussurrada que servia de contraponto com a sua massa muscular.  Segredava as ordens, devido ao espaço e ao início iminente da missa mais importante do ano litúrgico. Encaminhava as pessoas para os lugares previamente marcados com bolas brancas, fazendo gestos de polícia sinaleiro. Colocou-me na primeira fila. Ao sentar-me apercebi-me que não conseguia ver o altar, mas apenas Jesus na cruz que o sobrepunha. Tentei pedir ao arrumador para subir para uma fila mais alta. O pedido foi recusado com um “não” seco e um olhar desaprovador. “Não vejo nada daqui.”, justifiquei. “Não e não. Sente-se”, ordenou de novo. Sem argumentos, sentei-me. A minha mulher que ocupava um lugar numa fila mais alta, chamou-me para junto dela. Olhei de novo o arrumador e disse-lhe a ela que não podia. Ela insistiu. Eu resignado e frustrado virei-me para a frente firme, subjugado ao dever de cumprir as normas de segurança: tinha de aceitar a minha situação. Aceitar e compreender eram as únicas  atitudes capazes de lidar com a insatisfação. 

O padre e os acólitos entraram. A eucaristia ia começar. Levantei-me. Quando o padre Carlos começou a falar, conclui que devido a reverberação do som, não conseguia entender quase nada do que se dizia no altar e do coro. Apenas me chegavam algumas palavras e sons que pareciam por vezes desafinados. Um homem baixo que fora colocado ao meu lado, virou-se para mim e lamentou-se: “Não se consegue ver nada.”.  Na sua constatação, havia também um pedido de velado de insubordinação como se tivesse a aliciar-me para a formação de um movimento cívico que destituísse o arrumador ou outra ação semelhante capaz de nos fazer ver e ouvir a missa. Olhei para ele e encolhi os ombros. Tentei com o meu gesto, convencê-lo à resignação. As leituras, os cânticos, as liturgias seguiam sem freios e eu nada percebia e nada via, para além de algumas palavras soltas: “liberdade”, “Papa Francisco”, entre poucas outras. Aquele tempo privação, pôs-me a pensar em metáforas hipotéticas: o que significava a determinação do arrumador, a minha aceitação daquele lugar apesar das solicitações?  O que significaria  a incompreensão do que era dito ou feito lá em baixo no altar? Conclui que a aceitação é uma premissa religiosa; que por mais douto que me ache nas coisas de Deus, estou sempre muito aquém de um entendimento pleno dos mistérios e dos desígnios que atravessam os dois mil anos que me distanciam de Cristo e do momento da sua consagração. Mais uma vez estava a fazer a mesma pergunta que me seguia há semanas: o que podemos verdadeiramente conhecer? 

Fechei os olhos.  Estava agora a decifrar uma mensagem que seria impercetível se estivesse atento à mensagem de um emissor humano. As vozes continuavam incompreensíveis. O coro, os acordes do órgão pareciam agora bastante desarmónicos e desafinados. Aquela impressão e a altura em que me encontrava face ao lugar dos acontecimentos que decorriam lá em baixo fizeram-me colocar a possibilidade de também Deus não os entender. Mesmo que os entendesse vagamente, podia não se sensibilizar com as palavras cantadas à superfície da Terra. Assim, nem nós entenderíamos a palavra de Deus, nem  Ele a nós, levando-O a desprezar os nossos rogos, a não se emocionar com a tentativa daqueles que tentavam em vão evocar a beleza que Ele lhes inspirava. Na maior parte do tempo, não haveria ligação alguma entre os crentes e o criador: não entendíamos nós a sua palavra, ou aquela que a humanidade por via dos evangelistas, teólogos ou sacerdotes afirmava sê-la.

Fiquei a pensar que naquela missa, da qual nada  vi nem ouvi, a voz do Senhor revelou-me exatamente a importância  da sua ausência. O seu silêncio era a prova da sua existência. Porque em intensidade e momentos diferentes, todos temos saudades de Deus. E só temos saudades do que já tivemos.

Havia, contudo, uma esperança: no domingo de Páscoa, ele renasceria. E um cristão não pode perder a esperança. 

18/03/2021

Os anciões da Cinemateca

Três da tarde. Sala de espera da Cinemateca. Alguns idosos aguardam a sessão. Entreolham-se o mínimo possível. O que haveriam de dizer uns aos outros: banalidades, lugares comuns, tristezas sinceras ou falsas alegrias. Esperam que o filme comece. Na tela, ainda haverá  esperança: um início outra vez, um amor pungente, um final inesperado ou mítico, se o filme for daqueles que se tornara um clássico. Sento-me entre eles, como se estivesse entre grandes gatos: quietos, sonolentos, atentos apenas ao que realmente é diferente, ou seja, quase nada. Já viram a vida toda, os filmes preferidos várias vezes. 

Nunca tentei abordar nenhum deles. Quem ousaria roubar a palavra de um totem, de um altar? Ouve-se um trecho musical, anunciando que o filme vai começar. Parecem sinos chamando os fiéis. Levantam-se dos ruços e consoladores sofás. Dirigem-se para os lugares habituais na plateia ou no balcão. Todos devem ter uma tese sólida para aquela escolha e dedicação a um lugar, a uma zona da sala. O filme começa. Agora apenas contemplam, como folhas de árvore viradas para o Sol, ou como aqueles  grandes afloramentos de granito que rasgam as planícies da Beira. Tenho a certeza que muitos deles pensam ou murmuram mesmo entre dentes:  "Projecionista, o filme nosso de cada dia nos dai hoje ".




13/03/2021

Metafísica: um caso de estudo

  A tarde era de março, solarenga e chuvosa. Talvez porque a instabilidade dos elementos instigava à ação - ainda que esta pudesse ser apenas pequena e moderada – fugi dos caminhos alcatroados do jardim, desviando-me por um atalho pisado entre ervas que me levaram a uma ribeira. Devido às chuvas, a corrente pulsava nervosa e alegre entre as pedras que pontuavam um caminho entre as margens. Veio-me a vontade de atravessar ali mesmo. Tracei mentalmente uma rota possível pedra a pedra e lancei-me à empreitada. Já os pés saltitavam pelas primeiras pedras, quando me senti desequilibrado e hesitante sobre qual a pedra onde deveria pousar a próxima passada. A água trepava agora lentamente pelos ténis acima. Vislumbrei ao meu lado um caniço que se sobrepunha horizontal à ribeira. Era tão enfezado e quebradiço que tinha como única função servir de poleiro às toutinegras que caçavam mosquitos por ali. Ainda assim, com a mão direita agarrei-me a ele. Com surpresa, notei que aquele corpo estreito e frágil deu-me uma confiança inesperada. Senti-me seguro outra vez e sem mais delongas segui pedra a pedra até à outra margem sempre com o caniço dentro da mão.

Quando lá cheguei, perguntei-me: se não foi a solidez do caniço que me garantiu a estabilidade durante a travessia, o que foi? Tinha sido algo de imaterial, um sentimento, uma aliança entre as forças invisíveis que me habitavam e rodeavam. Creio que é a isto que os filósofos chamam de metafísica.