29/08/2025

Diário impessoal - O sino

O sino da igreja toca agora as nove badaladas.

Assim o faz todas as manhãs, indiferente a quem o escuta.

Marca o tempo dos vivos, aguarda os vindouros, recorda os que descansam na paz eterna — ou, numa versão menos transcendente, na memória de quem os lembra.

Tudo é perecível, menos as ideias.
As rosas murcham e depois morrem, mas a palavra Rosa persiste intacta na ideia de quem a convoca para expressá-la aos outros.

Não há uma rosa: há A Rosa. Não há este sino que agora ressoa: há O Sino, igual em todos os campanários imaginados que tocam as nove horas pelo mundo fora.

Eu, porém, insisto na minha singularidade, em ser um ente com uma identidade exclusiva.
E, loucura das loucuras, alimento a esperança de torná-la imortal.

É esta mesma teimosia que me angustia: querer ser um corpo uno e indivisível, e não apenas um saco de moléculas preparando-se para se misturar na harmonia do cosmos.

Talvez a nossa ambição devesse ser apenas esta: sermos uma palavra.

E, aí sim, se não alcançássemos a eternidade, pelo menos existiríamos — como um cogumelo sem raízes — no mundo diáfano das ideias, ao lado de um simples sino ou de uma fresca rosa.


Sem comentários: