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17/07/2020

Porque escrevo?

O ato de escrever contém em si uma dupla ambiguidade: permite a ilusão de viver e a ilusão de não morrer. Ainda assim, ciente da fantasia, um ente acorda dentro de nós e recita-nos, uma a uma, as palavras. Transcrevemo-las como se fossem coisas reais por fora e abstrações convencionadas por dentro. Mas o enigma não fica por aqui. Outro mistério encerra esta prática: Para quem escreves? Para ti? Para eles? Para o infinito, consumando assim a tua intenção imortal?

A mente não se cala: fala-nos ininterruptamente. Podes ordená-la, colocá-la ao serviço de uma função, de um objetivo vital e concreto. Porém, ela ficará exausta e reduzida a esse altruísmo, utilidade social, a esse molde definido por outrem para ela. Por isso, pede ao corpo para parar, ir buscar um papel, uma caneta, acender um cigarro e escrever sem utilidade, nem público, num daqueles pequenos atos burgueses concedidos à plebe iletrada que nunca frequentou estudos clássicos, nem nada. Quer apenas recrear-se, confessar-se, transcender-se como um operário que passa todo o sábado na pesca mesmo sabendo que não apanhará nada. A mente quer voltar a inventar histórias, como aquelas que imaginou quando na infância colocamos os nossos brinquedos a conviver entre si. Ela quer outra vez brincar ao faz-de-conta, que é talvez o que fazemos a vida toda em negação. O escritor - e não importa a sua qualidade e reconhecimento público - apenas assume perante si e os demais: "Agora é a brincar", "Agora é a sonhar", "Agora é sem limites", "Agora é que pura e desinibida a minha voz falará","Agora é que as vozes em conflito que eu sou ganharão voz: os muitos serão um e vice-versa".

Às vezes, pergunto: Como é que escreve a minha gata? Os peixinhos do meu aquário? Como escreviam as pessoas antes da escrita? Porque me parece tremendamente injusto que alguém possa viver com o seu pensamento agrilhoado apenas à mecânica arte da sobrevivência.

22/06/2020

A beleza como elemento de perenidade cultural

Há uma tentativa biológica para a preservação de um código genético post mortem. Este artifício é comum à vida animal e vegetal. Porém, a humanidade agrega-se em torno de núcleos de informação constituída por uma linguagem simbólica que tende a tornar-se mais complexa ou a adaptar-se aos diferentes contextos históricos, sociais e geográficos. Também, a cultura aplica mecanismos de sobrevivência, onde o esforço tem como intuito a preservação de uma identidade colectiva ou individual.

A língua,  como mecanismo essencial para a manutenção de uma cultura no tempo, e os seus utentes, através dela, utilizam duas estratégias convenientes para a sua sobrevivência entre gerações e geografias diferentes: razão e beleza. Na primeira, a coesão da mensagem é garantida por uma lógica imanente aos pensamento humano e  também por uma oportunidade epistemológica. A beleza, suportada por convenções temporais, tem de encontrar um plano que lhe assegure a perenidade. Tratando de um conceito humano, ou pelo menos, utilizado nesse contexto, é nos elementos intrínsecos que ela se vale para sobreviver.

Para que o objecto, enquanto emissor cultural, se preserve tem de contornar padrões estéticos perecíveis e resultantes de diversas épocas e ficar fortemente dependente de um elemento mais estável e homogéneo do espírito humano: os sentimentos.

Os sentimentos, como resultado das emoções, tendem também a registar algum dinamismo no tempo e uma variação com origem no receptor. Cabe assim à beleza encontrar o menor divisor comum entre os receptores para manter-se perene e imaculada. 

07/10/2019

As visões do invisível

Parece-me evidente que cada cultura cria a sua visão de Deus. Esta visão, tendo um primado teológico, cresce em todos os vetores artísticos: na música sobretudo,  mas também na pintura, na arquitetura,  escultura, literatura - em suma numa camada estética que nos aproxima da presença
do sagrado.
Vivaldi, compositor não reconhecido durante a sua vida, compõe "Nisi dominus" como se quisesse provar que os critérios dos homens e de deus são tão díspares no que diz respeito ao reconhecimento.

19/09/2016

"O Passado Já Não Se Encontra Atribuído" de Vanda Palma

Cheguei a Castro Verde e logo soube do trabalho da ceramista Vanda Palma. Pensei tratar-se de mais uma ceramista de inspiração tradicional ou folclórica de índole conservadora- dado o espaço cultural onde ela se integra. Na verdade, somos preconceituosos por natureza. É a nossa forma de sobreviver, julgar e tomar decisões em tempo útil. Não devemos envergonharmo-nos de sermos assim. É humano.

Todo este intróito, para tentar explicar uma das facetas da arte: A surpresa. Sempre que alguém surpreende, renovando ou acrescentando à estética uma nova perspetiva, a arte agradece. Agradecemos todos, porque, "a tradição só sobrevive porque muda"(1). 

A ceramista Vanda Palma surpreendeu-me com estilo e arrojo. O titulo da sua exposição ""O Passado Já Não Se Encontra Atribuído""  a decorrer na CM Serpa até dia 8 de outubro de 2016 é uma espécie de síntese, em jeito de pregão, desta renovação. Jorge Luis Borges, ficionista e poeta argentino, escreveu "Nós somos os mortos", ainda, acrescento eu, que agora eles estejam com uma nova roupagem e novos objetivos de vida. 

O trabalho de Vanda Palma é essa ruptura para a continuidade. O seu trabalho é essa destruição que salva o "mundo", sendo neste caso o mundo da tradição ceramista do sul de Portugal. Lembrei-me da Rosa Ramalho (ceramista minhota), mas agora dando à cerâmica de cariz popular uma nova consciência nacional.


Ligação: Exposição em Serpa




(1)  "Um mapa para pensar a tradição",  Alfredo Teixeira, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2015, pp. 44-47 
Publicado em 18.09.2016

08/10/2015

Slava

Sabemos que estamos na presença de um grande palhaço quando, durante o seu desempenho, alternamos entre a vontade de chorar e de rir.

Slava






02/07/2014

O jardim dos mortos felizes

Pintura: "Jardim dos mortos felizes"  de Friedrich Hundertwasser


Esta pintura do artista e arquiteto austríaco Friedrich Hundertwasser propõe um cemitério onde sobre cada campa fosse plantada uma árvore e desta forma reciclar os corpos mortos numa segunda vida de orientação mais perene e ecológica.

04/02/2014

Para que serve a arte ?

"Arte persuade-nos a afastar da mecânica, para nos aproximarmos do milagre. A chamada inutilidade da arte capacita-a  do seu poder transformador. A arte não é parte da máquina. Ela pede-nos para pensar de forma diferente, ver de maneira diferente, ouvir de forma diferente e, finalmente, a agir de forma diferente – onde reside afinal a força moral. Ruskin estava certo, embora pelas razões erradas, quando ele falou sobre a arte como uma força moral. A arte não é o  bom comportamento -Quando foi a última vez  que viu um milagre  comportar-se bem? A arte torna-nos pessoas melhores, porque eleva-nos no sentido da nossa plena humanidade, e a humanidade é, ou deveria ser, o oposto polar do meramente mecânico. Nós não fazemos parte da máquina, mas nos esquecemos disso. A arte é a memória - o que é bem diferente de história. A arte pede que nos lembremos de quem somos, e, geralmente essa pergunta surge como uma provocação - é por isso que ela quebra as regras e os tabus, e ao mesmo tempo é uma força moral."

                                    De Jeanette Winterson || Tradução livre de Luís Palma Gomes 

A escritora Jeanette Winterson



05/01/2014

Brincar com os clássicos



O meu amigo e colega (informático) Ricardo Simões continua a brincar aos clássicos. Primeiro foi o Wagner e agora o Dali. Obviamente ele não é Dali. É de Setúbal. Mas tem também a sua dose de criatividade e humor. 

Este sublime (como hei-de chamar-lhe) trocadilho com o pintor, o seu bigode e a gravidade faz me lembrar um verso do José Gomes Ferreira (o poeta, não o jornalista da SIC):"Os pássaros quando morrem caem no céu." Por que mudando um elemento ( posição da foto ou "do" pelo "no"), tudo continua a fazer sentido - um sentido mais reforçado.

 Acho que a foto do Ricardo Simões é uma espécie de contra-ataque, no confronto com o Salvador Dali, que deu golo.

16/12/2012

As idades do mar




A exposição pictórica  "Idades do Mar" na Fundação Gulbenkian entrega o visitante a um conjunto de perspectivas possíveis na grandiosidade do mar: o mito, o poder, o trabalho, a tempestade, o efémero e o infinito. Foram reunidas dezenas de obras cuja origem atravessam séculos e as melhores coleções. Podem-se apreciar quadros desde  Mestre da Lourinhã, da escola denominada "os primitivos portugueses", até ao impressionismo de Monet ou ao pós-modernismo de Vieira da Silva.

Numa época em que a sociedade (numa atitude distante, como é habitual nas nossas elites  e demasiado retórica) insistem na importância do mar, esta exposição é mais uma manifestação dessa tendência de início de milénio que se acentua com a urgência de encontrarmos novos paradigmas económicos.

08/08/2011

Rinoceronte de Dürer

Passear pelos Jardins da Fundação Gulbenkian é um momento de prazer seguro. "Pastando" na relva, quem eu vi lá ? O Rinoceronte do Dürer. Tirei um quarto de hora do almoço e fiz um esboço.



Albrecht Dürer é uma dos mais relevantes personalidades do Renascimento. Este alemão, filho de um ourives, foi desenhador, pintor, matemático e filósofo. Uma personalidade multifacetada como outras desta época (Da Vinci). Pintou o Rinoceronte, oferecido pelo Dom Manuel I ao Papa Leão X, que tanto furor fez na Europa Seiscentista. O extraordinário é que Dürer nunca viu o Rinoceronte e, ainda assim, efectuou este magnifico desenho - um colosso de imaginação, técnica e criatividade quando comparado com outras representações destes animais naquela época:


05/08/2011

Espaços vazios



Percorrendo o clássico livro  de desenho para iniciantes "Drawing on the rigth side of the brain", aprende-se o valor dos espaços vazios (Negative spaces - na tradução do citado livro) que envolvem as figuras que desejamos desenhar, ou melhor, realçar. Na verdade, ao desenhamos as margens dos espaços vazios, estamos a desenhar a figura envolvida neles. 


Também na música, os silêncios são determinantes e sobretudo marcam o ritmo. 


Na poesia, as quebras dos versos deixam-nos saborear o que acabámos de ler e permitem que as palavras ganhem fôlego para o próximo verso.

Talvez seja por isso, ou também por isso, que quem já viu o deserto diz que é uma paisagem e sensação inesquecíveis.

Como escreveu o dramaturgo irlandês Samuel Beckett: "Nothing is more real than nothing".

19/06/2009

Desenhos do quotidiano


A era do digital fez crescer exponencialmente o numero de fotos que quase todos registamos. Banalizou a imagem. As imagens sentem-se pouco admiradas e acarinhadas. É preciso perder tempo com elas (imagens). Observá-las e desenhá-las devagar.

Nos tempos recentes, várias publicações e blogs sobre "desenhar o quotidiano" têm surgido num esforço de resistência histórica e sentimental.

Deixo-vos um blog importante para iniciarem a navegação nesta matéria: Diário Gráfico de Eduardo Salavisa, autor de Diários de Viagem