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07/05/2022

Fantasmas




 Afinal, há fantasmas. E ainda bem. Vêm-nos buscar à porta quando chegamos cansados do trabalho a que nos submetemos — maldito século cheio de máquinas mais furiosas que trinta Godzillas irados no topo dos arranha-céus de Manhattan. 

Afinal, há fantasmas, passeando no hall, imperturbáveis no seu caminhar deslizante de passerelle. São nobres frágeis, espadachins assustados, os gatos. Mesmo mortos, continuam no mesmo passo e jeito a andar por aqui. Os seus espectros são, porém, mais reais que muitas outras coisas da casa.  Sofás, tapetes, armários, portas, janelas devem parte do seu significado a esses pequenos felinos. 

Deitam-se ao nosso colo e lambem-nos as feridas invisíveis. Assim escondidas, as feridas ganham uma intimidade connosco que pode durar anos, uma vida até. Se há palavra que os gatos percebem, é essa mesma: «Intimidade». Só mesmo eles — pacientes, compassivos — conseguem esperar que as nossas feridas difusas se revelem autênticas, sob a luz amarelenta de um candeeiro de cabeceira, para as lamber depois.



24/05/2021

O diário que não escrevi

 Eu amava-a profundamente, ainda que este advérbio de modo não ajudasse a representar o meu sentimento por ela. O meu amor era de uma esfera mais elevada do que aquela onde as palavras significavam ideias convencionais. Por isso, quando ela me pedia para eu dizer-lhe explicitamente que a amava, recusava, evocando argumentos dúbios. Não era possível explicar-lhe a minha teimosia sem falar de magia, de mistério, de coisas apenas intuídas, mas que ainda não tinham para mim uma explicação inteligível. A mais humana das razões era o medo. O medo de nomear o meu sentimento numa camada mais baixa da existência do que aquela onde o meu desejo se havia estabelecido: etéreo, mas vivaz; mental, mas ardente.