Mostrar mensagens com a etiqueta antropologia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta antropologia. Mostrar todas as mensagens

13/08/2015

O que faz sorrir o Hassan ?

Hassan é um marroquino com vinte e poucos anos, com estudos secundárias e uma conversa interessante e inteligente. Hassan trabalha como caseiro de uma propriedade perto de El-Jadida e a 80 Km de Casablanca. Apesar da solidão do seu trabalho, da provável falta de boas condições remuneratórias, de viver num regime absolutista em termos políticos e de o futuro não lhe reservar provavelmente nenhuma melhoria destas condições, o Hassan tem um sorriso verdadeiro, constante e luminoso. Mais do que um sorriso, ele parece feliz - quase diria com toda certeza que o é, na medida possível.

É este o grande mistério que me ocupa o espírito: O que faz sorrir o Hassan ?


20/03/2013

Carta Aberta ao cronista do Expresso, Henrique Raposo, a propósito da sua crónica "Quinto Império entre maquises"

Caro Henrique,

Li a sua crónica do Expresso e gostei. Declaro de antemão que vivo numa casa com marquise defronte do Quinto Império da Reboleira. Por esta razão, sou testemunha que a existir Quinto Império , e eu acho que ele existe, ele vive por estes meandros de subúrbio, onde Portugal se mistura com as pessoas de um mundo cujas origens remontam às paragens que outrora ligámos nesse processo conhecido como "Os Descobrimentos". 

Acredito numa tese lusitana para juntar as pessoas através da fraternidade e construir um imenso império da humanidade. Creio mesmo que o catolicismo, atacado por dentro e por fora, será uma via favorável para esse efeito. Não percebo porquê o medo de palavras como "velho" ou "pobre" ou "caridade". Não temos afinal de nos aceitar para aceitarmos o Outro ? Quando eu for velho quero que me chamem velho, quando eu for pobre quero que me chamem pobre e quero dar e receber, apenas porque gosto de mim assim.

O Quinto Império é o império do outro, do diferente. Não tenho a utopia do multicultarismo urbano, porque isso não seria honesto. Quero apenas dizer que, na medida do possível  as pessoas devem poder viver na Amadora como vivem numa África Europeia. Sou favorável ao gueto cultural (possível), não ao gueto marginal. Não devemos impor, mas sim convencer, dar espaço, respeitar e provavelmente chegaremos a um consenso. Essa será a nossa força: A diplomacia do amor - esses coloridos afluentes que tantas vezes desaguam no grande rio da miscigenação.


Se quer apreciar, como eu aprecio, até chegar quase a uma ligeira comoção, desloque-se domingo ou sábado à noite ao Dolce Vita Tejo. A paisagem urbana daquele espaço é um salmo ao " Quinto Império das marquises". Ainda que aquele templo seja dedicado ao deus menor do consumo, prova-nos que havendo um deus e gente comungando uma crença fundamental, o quinto império pode ser mais do que uma utopia quinhentista.


Cumprimentos deste seu leitor. Leio-o sempre. Nem sempre concordo. Julgo que estas diferenças, devem-se a sermos de famílas políticas diferentes - com todas as diferenças que habitualmente as nossas opções políticas acarretam se forem tomadas em consciência com o nosso passado e com as nossas expetativas para o futuro. Mas esta crónica do "Quinto Império entre marquizes" foi na moche, caro Henrique, foi na moche.



26/02/2012

Raça e História



Acabei de ler um livro que, depois da Bíblia e do "Discurso do Método", mais respostas fornece sobre a história das mentalidades: "Raça e História" de Claude Leví-Strauss. Este livro, encomendado e publicado pela Unesco, em 1952, tem como objetivo acelerar um novo ciclo de relações entre o Velho e o Novo Mundo (Pós-Colonial). Em suma, e a apesar do título, é intenção do autor desabilitar o conceito de Raça (Os europeus ainda se refaziam nesta altura do trauma do Holocausto Nazi) e promover o argumento cultural no seu lugar.

A obra inicia um périplo de 10 capítulos bem definidos, evocando a supremacia das culturas sobre as raças - que segundo Levi-Strauss são muito poucas relativamente às primeiras(Culturas). Este ponto de partida é prolifero e esperançoso e arruma com as teses racistas e geneticistas.

Abordar todos os capítulos do livro era demasiado exigente para a natureza de um blog. Acrescento apenas um corolário ao capítulo 7 - "Lugar da Civilização Ocidental", onde o autor demonstra que a aculturação ocidental do resto do mundo, levada em grande parte pelo processo de industrialização, é forçada. Os povos não-ocidentais foram forçados à "Ocidentalização" das suas culturas pelos países da Europa Ocidental ( e EUA) que tinham uma estratégia para esse efeito.

Existe contudo uma réstia da cultura pré-ocidental nos povos aculturados. Levado ao limite (eis o corolário!), este conceito transforma, cada ser humano, num missionário que leva dentro de si uma micro-cultura  disponível a conquistar o possível.

16/06/2008

Rabo de Peixe - a vila das crianças


Acabo de entrar no quarto do hotel, vindo da vila piscatória de Rabo de Peixe( S.Miguel – Açores). Ligo e desligo de imediato a televisão. Fecho os olhos, tentando reter as imagens que trouxe da visita. Apesar dos problemas sociais da vila, a visita foi enriquecedora. As ruas estavam repletas de crianças felizes e livres. No porto, jogavam “à-bola” num jogo de quinze contra quinze com mais trinta a assistir, enquanto outros, mais dados aos prazeres da água, banhavam-se nas translúcidas águas do cais. Nas ruas, debruçavam-se aos magotes pelas pequenas janelas quando uma zaragata entre homens colocou a vila em efervescência. Depois quando as coisas acalmaram, olhavam com curiosidade os adultos ou os estranhos como eu.

Cada casal tem muitos filhos – nove, dez ou mesmo mais. Esta maré-cheia de crianças torna a vila surreal. Positivamente, surreal. As crianças correm com a alegria estampada no rosto. Nunca tinha visto tão grande liberdade – apesar do conservadorismo latente nas relações sociais e familiares. Se a rapariga começa a namorar, o noivo obriga-a a deixar a escola, as pequenas raparigas quando se banham no porto, têm de fazê-lo de t-shirt e calções. E meios contraceptivos são duas palavras vãs.
Nunca tinha visto nada assim. Quando o meu sogro me falava das multidões de crianças correndo ruas durante a sua infância numa aldeia beirã, eu achava o facto irrepetível . Em Rabo de Peixe, viajei no tempo. Porém, ainda não decidi qual o sentido da viagem: Para o passado ou para o futuro ?