O Natal ainda mal se avista. Da Páscoa nem vale a pena falar.
Um amigo lembrou-me ontem da sua tendência para escrever através de metáforas. "Podes ser um poeta, Pedro", pensei mesmo agora.
Deve ser constrangedor sermos uma coisa e, entretanto, reconhecidos por outra; e assim ser, dia após dia, a vida toda.
Fazem-me falta aquelas luzinhas de Natal a salpicar a casa, o presépio na sala ou, antes disso, aquela ansiedade feliz enquanto ainda não é meia-noite.
Um dos problemas da poesia, disse-me um dia um professor de filosofia, é dar ao texto a medida certa do detalhe. Ser vago quanto baste.
A luz definha dentro de casa apenas porque corremos as persianas. Lá fora, um sol aos berros seca as últimas ervas da charneca.
A gata segue os peixes do aquário com um olhar vigilante. Serão os peixes, para ela, os presentes do próximo Natal?
Talvez, se os tivesse entre as garras, os arrumasse por um canto, deixando assim, para mais tarde, essa fantasia demoníaca de brincarmos às escondidas com os mortos.
Amadora, 16 de Julho de 2026
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