Talvez tudo tenha mudado muito pouco. Mas tu, caro amigo, mudaste tanto.
Passaram sobre as tuas retinas tantas imagens que depois se dissolveram: praias, rios, pessoas e até pequenos-almoços em esplanadas de província.
O comboio, coisa férrea por fora, tem um coração a bater por dentro. Tem pensamentos, grandes alegrias e expectativas. No entanto, quem o vê assim, à distância, parece ver apenas um corpo ressequido, sem viva alma, conduzido por carris que lhe retiram todo e qualquer livre-arbítrio.
Não há nada que possas mudar, caro amigo. A tua vida entrou também nos carris. As estações estão marcadas e as paragens têm horas certas.
E, mesmo que as pequenas charnecas te encantem, bem como o grito mais alto da pequena carriça, é no betão e no ferro forjado que ainda precisam de ti.
Fazes parte do refúgio, do tratamento, da panaceia, se quiseres.
Bem-vindo, rapaz. Bem-vindo ao mundo outra vez.
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