12/04/2026

O meu desassossego

Podia fazer-me de morto, podia — mas tenho tanto tempo para isso. Optei antes por fazer-me de moribundo, um semimorto: aquele que apenas escuta, contempla e reflete sobre as próprias sensações.

Não posso ter ilusões, porque conheço em demasia a teimosia das desilusões. Nem esperanças, porque o meu desejo é insaciável. E quando a esperança morre ao alcançar o que deseja, um novo barco parte em atividades exploratórias — por bairros, por pessoas a haver — à procura do acaso, do destino, do cruzamento, de uma volta de mar que me vire a vida do avesso.

Tenho porém tamanho lastro e tão curto velame no navio, sendo quase inevitável acabar fundeado a cem metros do porto, entre o cheiro do peixe vindo da docas e as correntes domésticas que passam, cordatas,
entre o pontão e a praia.

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