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14/02/2025

A espera










SENHA 14 BALCÃO C

Talvez não tenhas percebido, mas o tempo parou e ninguém sabe  quando avançará de novo. Chamam-lhe paciência de doente, pausa de bêbedo que não se consegue levantar do sofá.

SENHA 2 BALCÃO B

Sem expectativas entre as personagens, a peça não arranca. Ficam ali a proferir teses, frases e aforismos de vão de escada até ao absurdo, até ao público perguntar: “Mas o que querem afinal estes gajos?”. 

SENHA 23 BALCÃO C

Agora és o público de ti mesmo, à espera de uma boa razão para teres saído de casa. “Que espectáculo é este?”, murmuras para o tipo do lado. E ficas a pensar que a récita parece um estendal de roupa molhada, num dia de chuva morrinha que não deixa secar nada.

SENHA 8 BALCÃO A

Como  chamam os filósofos ao tempo que para?  E como sabemos que está mesmo parado?  Talvez por que, em teu redor, os coxos avançam, os paralíticos quiçá, as crianças crescem e  parecem já homenzinhos atendendo pedidos de um corretor da bolsa. As flores rebentam, amarelecem com esplendor e morrem tolhidas pelo inverno, enquanto  continuas na sala de espera do consultório médico.

SENHA 14 GABINETE 3


06/01/2025

Inverno na casa de verão


nem sei porque me trouxeram o inverno se já o tinha assente sobre as pernas

aqui   ali   sentado escrevendo   na casa de verão   nunca ninguém me disse

que eu tinha imaginação      mas imagino que a tenho       imaginando 

a plena infância     a juventude inventada agora   à pressa    on n'est pas sérieux 

quand on a 17 ans      imagino a ascendência e a decadência da dinastia de avis

o tédio e a euforia dos anos 70     a loucura bem disposta quando num dia de sol 

fomos comprar peixe à praça    o mergulho atlântico num rio que corre no meio

de portugal    a águia que às vezes me sobrevoava quando pioneiro  procurava

pepitas de ouro na meseta central     poder-vos-ia descrever toda a minha vida 

sofrível   palavra aprendida   quando a professora  ilídia classificou o meu teste 

de português    como se essa vida  tivesse sido uma aventura ao sol     perseguição 

a cavalo dos índios navajo  numa pradaria em braga     e tudo isto é triste 

e ao mesmo tempo ousado     sobretudo solitário    porque imaginamos   

sempre sozinhos    em contramão com a realidade   que nos toma  como um 

peixe  a respirar o vento que cruza     a casa de verão      neste dia invernoso



Aroeira, 5 de janeiro de 2025