06/10/2026

Torga

Li alguns diários de Torga que me influenciaram bastante, confesso. A sua autenticidade serena toca-me.

Sempre quis ser como ele, ainda que me pareça estar nos antípodas da sua personalidade, sempre tão depurada, desabrida, destemida. O seu tempo, o seu espaço infantojuvenil, esculpiu-o de uma forma única.

A Torga é um magro arbusto, que nasce entre as pedras. Às vezes penso que, se o conhecesse, dificilmente conseguiria estreitar relações com ele. Ou talvez não. O meio literário não é fácil e nem vou explicar porquê.

Contou-me um primo do meu pai que, apesar dos estreitos laços que mantinha com o Torga, lhe pediu um dia uma dedicatória. Ao que o escritor respondeu: “Os livros são para ler, não são para escrever.”

Não é fácil viver sem máscaras. Exige muito treino e autovigilância. Acho que o escritor transmontano conseguiu-o.

Recomendo a leitura dos seus livros de contos, Os Bichos e Novos Contos da Montanha. Quando era jovem, lia tudo o que tinha lá em casa — pouca coisa, por sinal.
 
Aos dezoito anos trabalhava numa seguradora, onde uma senhora, sabe-se lá porquê, de nome Maria Amélia, ofereceu-me As Pedras Lavradas, de Torga.

Nesse tempo já tinha lido na escola obras como Os Maias, A Morgadinha dos Canaviais, As Aventuras de João Sem Medo.
 
Mas foi nos contos de Torga que percebi, pela primeira vez, o que era a literatura. Não era tanto o que se contava, mas como se contava.

A partir disso, nunca mais larguei o Torga.

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