Chove.
Nunca choveu tanto para mim, apesar de a chuva ser tão escassa. Era tanto o calor, tanta a secura, que, ao ver os pombos banharem-se nas poças, sinto uma alegria subtil, mas inflamante.
Às vezes acredito que dançar à chuva — ai, pudesse eu, sem que me chamem louco — é como mergulhar no mar às três da tarde, à hora em que o banho mais apetece e a temperatura da água se aproxima da do corpo.
A chuva faz crescer a intensidade dos cheiros. Tudo se aproxima, até os sons. Talvez porque, ao recolherem-se as pessoas, sobrem apenas os ruídos inevitáveis: os sons essenciais.
A gata é a primeira a reconhecer a novidade dos odores. Sobe ao parapeito e o seu narizinho move-se, contorce-se sozinho, como um perdigueiro à procura de um coelho.
Tinha saudades da chuva, confesso.
Alimento a ilusão de poder viver num país onde ela nunca cessasse. Às vezes pergunto-me a razão de tamanha atração e imagino-me no deserto, à procura de um oásis onde a água corra e esverdeie a paisagem, os palmeirais, e avermelhe as flores — que presumo serem ali as mais belas, por terem tudo: luz e água.
A chuva parou.
Quando a chuva para, os pássaros saem dos abrigos num frenesim; piam e chilreiam, avisando os outros de que é hora de mais uma refeição. E que se apressem, não vá a chuva recomeçar.
O céu, porém, continua encoberto. As nuvens não arredam pé. Quase se diria que não arredam asa.
E nós, aqui em baixo, a nascer, a crescer e a morrer, como palmeiras bravas.
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