28/09/2026

Submissão

Choveu e o melro voltou a cantar entre as canas.

O estribilho acrílico dos pardais modelou o fundo da banda sonora desta manhã.

A gata deita-se ao meu lado, lugar-tenente da minha solidão, aluna insubmissa, mas que chega sempre antes de todos para a lição.

Olho o céu e pergunto a Deus:

— O que queres de mim, Senhor?

Responde-me ele:

— Tu sabes, Miguel.

— A cruz está à minha espera, não é?

— Pois.

Lacónico, como é seu jeito.

— Mas, Senhor, é que eu queria ouvir a chuva, cheirar o aroma da terra molhada, aqui ao lado da gata.

— E os teus irmãos, Miguel.
Quantos não precisaram de ti?

— Estou cansado, Senhor.

— Estás vivo e isso nos basta.

— Não é bem assim, parece-me.

Hesito.

— Mas, se o dizes, Senhor, obedecerei. Que mais posso fazer?

— Confiar, criatura. Confiar.

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