O estribilho acrílico dos pardais modelou o fundo da banda sonora desta manhã.
A gata deita-se ao meu lado, lugar-tenente da minha solidão, aluna insubmissa, mas que chega sempre antes de todos para a lição.
Olho o céu e pergunto a Deus:
— O que queres de mim, Senhor?
Responde-me ele:
— Tu sabes, Miguel.
— A cruz está à minha espera, não é?
— Pois.
Lacónico, como é seu jeito.
— Mas, Senhor, é que eu queria ouvir a chuva, cheirar o aroma da terra molhada, aqui ao lado da gata.
— E os teus irmãos, Miguel.
Quantos não precisaram de ti?
— Estou cansado, Senhor.
— Estás vivo e isso nos basta.
— Não é bem assim, parece-me.
Hesito.
— Mas, se o dizes, Senhor, obedecerei. Que mais posso fazer?
— Confiar, criatura. Confiar.
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