02/09/2026

A minha Tabacaria



Resta-me, e é muito improvável, refazer com restos. Quando tinha tudo, que era muito pouco, perdi-o numa noite deliciosa de casino, porém. Agora olho, invejoso, o que os outros construíram, mais ou menos determinados.

Em vão tenho viajado pelos arrabaldes das Índias e dos Brasis, multiplicados ao longo da linha do comboio suburbano que me segue desde a infância. Essa que liga a lei ao prazer, o dever ao direito, mas da qual apenas frequentei o apeadeiro de Santa Cruz de Benfica, onde os comboios paravam de vez em quando.

Claro que tudo me parece pouco, porque sonhei como um sultão, um rajá que tudo herdou e tudo perdeu para um ministro que, apesar de estúpido, o enganou.

O único luxo que tenho é o de saber de cor a Tabacaria, do Álvaro de Campos, e poder, ainda que sozinho, chorar e rir como aqueles — que são tantos — que não podem ser tantos.


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