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domingo, 28 de março de 2021

Os três tipos de portugueses, segundo Fernando Pessoa

 Segundo o que Pessoa escreveu num ensaio chamado "Sobre o homem", há três tipos de portugueses:

O primeiro tipo de português apenas existe por existir e só por isso Portugal existe. Trabalha e vive de forma obscura e modesta; engrossou, qual iniciático inocente, as fileiras de infantes de Aljubarrota, acreditou que La Lys era o contra-ataque de Alcácer Quibir. É um homem que se irrita com a verdade, porque sabe que ela não existe, para além da ciência que ele não entende. Por isso, aguarda que uma mentira credível — ou simplesmente uma fantasia alternativa ao tédio em que caiu — o emocione e o faça agir. Porém ele apenas o fará quando todos os outros o fizerem. Porque este português que são muitos é só um apenas. É na sua génese um indivíduo coletivo que faz de conta que não sabe que a política é  uma mentira que nos projeta para um lugar diferente.   


O segundo tipo de português é o que não é português: começou com uma invasão mental por vontade do Marquês de Pombal. Quando viu que afinal estava enganado, fez aquilo a que se chama uma fuga para a frente com o constitucionalismo. Perdeu a razão com toda a euforia que a demência nos remete com a república. Está completamente divorciado do país que governa ou julga governar. É por sua vontade, parisiense, nova-iorquino, prussiano, bolchevique. E contra sua vontade é estúpido.


Por último há um terceiro que nasceu no reinado de Dom Dinis, momentos em que o império se esboçou. Foi-se embora para Alcácer Quibir onde morreu. Contudo, deixou parentes que continuam à sua espera. Esperam-no a ele, sabendo que com ele virá el-Rei Dom Sebastião, o verdadeiro último rei de Portugal.


Bibliografia: "Mensagem e outros poemas afins" de Fernando Pessoa - Ed. Europa América

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