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quinta-feira, 18 de março de 2021

Os anciões da Cinemateca

Três da tarde. Sala de espera da Cinemateca. Alguns idosos aguardam a sessão. Entreolham-se o mínimo possível. O que haveriam de dizer uns aos outros: banalidades, lugares comuns, tristezas sinceras ou falsas alegrias. Esperam que o filme comece. Na tela, ainda haverá  esperança: um início outra vez, um amor pungente, um final inesperado ou mítico, se o filme for daqueles que se tornara um clássico. Sento-me entre eles, como se estivesse entre grandes gatos: quietos, sonolentos, atentos apenas ao que realmente é diferente, ou seja, quase nada. Já viram a vida toda, os filmes preferidos várias vezes. 

Nunca tentei abordar nenhum deles. Quem ousaria roubar a palavra de um totem, de um altar? Ouve-se um trecho musical, anunciando que o filme vai começar. Parecem sinos chamando os fiéis. Levantam-se dos ruços e consoladores sofás. Dirigem-se para os lugares habituais na plateia ou no balcão. Todos devem ter uma tese sólida para aquela escolha e dedicação a um lugar, a uma zona da sala. O filme começa. Agora apenas contemplam, como folhas de árvore viradas para o Sol, ou como aqueles  grandes afloramentos de granito que rasgam as planícies da Beira. Tenho a certeza que muitos deles pensam ou murmuram mesmo entre dentes:  "Projecionista, o filme nosso de cada dia nos dai hoje ".




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