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terça-feira, 9 de junho de 2020

A propósito do poema "Cerco Invisível"

Quando escrevo poesia fico sempre com a sensação de produzir coisas banais. Mas é assim. Acho que ensaiamos a vida inteira o mesmo poema. Contudo ele vai surgindo fraco, fragmentado, equívoco. 

Escrevi este poema, "Cerco invisível", para dizer que estou cercado pela minha condição de poeta. Tentei vários expedientes, atividades, ocupações mas todas elas eram afinal versos do mesmo poema. Talvez seja uma epopeia homérica ou um haicai, poema japonês com 17 silabas apenas. Não sei. Apenas sei que só existe o que tem nome e por isso este cerco de palavras que nos envolve. Algumas das minhas, vêm de não sei onde? Escrever poesia é uma espécie de transe, em que o pensamento fica tomado por uma vontade de encantar, sublimar, inovar a linguagem. 

Eu não tenho a certeza se quero ser poeta, mas é inevitável sê-lo. Nem que para compensar tenha de comer mais vegetais, correr todos os dias ou aprender matemática. E tudo isto porque ninguém pode ser absolutamente poético. Temos administrar a poesia, como fazemos com tudo o que é bom, mas arriscado na vida. Temos de escrever às escondidas, não mostrar ao chefe, nem aos amigos da bola. Criamos a nossa rede de cúmplices do crime poético. Lemo-nos uns aos outros e às vezes, sabe Deus, como um frete. Mas é um tributo que prestamos. E se de facto a poesia é, para alguns, um culto perverso, pergunto porquê? Talvez pensem que as palavras não devam dominar os homens, mas o inverso. Talvez temam perder essa luta com as palavras.  E que elas por fim os encantem, como fazem as sereias, e os atraiam para a desgraça de se tornarem prisioneiros da beleza ad eternum.

Tudo isto para me/te explicar o tal poema. Estou cercado pela poesia. Não tenho saída. Resta-me caminhar com cuidado e atenção para não me deixar submeter, como escreveu o Milan Kundera, à "insustentável leveza do ser".

2 comentários :

CÉU disse...

Luis,

Está "apanhadinho" pela Poesia, digo-lho eu, aliás, nota-se pelo teor dos seus textos.

Gostei muito do enredo deste texto, que é um desabafo bem sincero.

Dias felizes e poéticos.

Luís Palma Gomes disse...

Olá, Céu

Sim, é um facto. Fui apanhado por essa velha senhora: para o bem e para o mal.

Igualmente.

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