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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Domingos Galamba - Vida e Obra incompletas

Domingos Galamba e Leonor Galamba


O sócio número um do Teatro Passagem de Nível, o nosso caro amigo Domingos Galamba, nasceu na Aldeia Nova de São Bento, agora com a pomposa promoção a  vila, mas para o Domingos será sempre a Aldeia, a sua aldeia do concelho de Serpa. Ele por lá nasceu há 54 anos atrás, no seio de uma família de 6 irmãos. Em 1975, muda-se como muitos outros alentejanos para a cidade da Amadora, onde se instala na Rua da Reboleira na Falagueira, bem perto da antiga casa de pasto do Pedro dos Coelhos - não sei  se ele ainda tinha esperanças de encontrar por lá o Eça de Queiroz ou o Urtigão ? Para trás fica a infância, as árvores, os pássaros, essa memória que se agarra aos poetas e não só e nunca mais larga. Creio mesmo que foi em jeito de catarse dessa ilusão que foi Lisboa que escreveu:

"Se hoje penso
à beira dos caminhos
que me levam à cidade
é com uma fúria
de atirar pedras ao vento
para pedir juros
o meu tempo
perdido em tanto
contratempo
nas curvas
que me roubaram
a verdade."

Mas a capital e a Amadora não foram apenas nostalgias. Em 1981 ajuda a criar o Teatro Passagem de Nível e conhece a sua actual companheira Matilde Matos ( eu prefiro o su apelido de Cañamero, é mais giro). Ambos se envolvem como atores e produtores e tudo o que havia para fazer num teatro amador onde todos fazem um pouco de tudo. Em 1982, regressa ao Alentejo, para cumprir o serviço militar.


Talvez por lá escreva o poema “Cante”:

"Foi do silêncio da terra
Que arrancaste a tua voz
Para iluminares o caminho.

Como és generoso
Achaste mas honroso
Não a cantares sozinho.

E como te brotou
Em forma de lamento sem choro
Projectaste-a em coro.

Contra o dia."


Em Lisboa, entra para a equipa de cenografia do São Carlos e inicia a sua carreira profissional. Apetece-me chamar-lhe,  como se chamava aos canteiros que esculpiam a pedra das igrejas na idade média, mestre imaginário. E foi essa imaginação que levou a escrever  muitos poemas, dos quais alguns agora repito, contos e sobretudo peças de teatro, porque é como dramaturgo que Domingos Galamba tem se revelado mais no panorama cultural. Continua os seus estudos no Cacém, onde priva com o seu amigo e poeta Izidro Alves:


"Ao Izidro

Tu sabias velhos truques
Para nos defender do mundo
Palavras simples para nos abrigar da solidão
Algumas alegrias para tudo sonhar.

Caminhávamos
Como se semeássemos poemas
Agricultores da cidade
Que não floriu
Repetindo pedras de calçada
Por tantas ruas.

E ainda temos a alma em branco
Das ilusões que rebentam
Na primavera que não chega."

Há sempre na sua voz um homem que foi à infância e voltou de lá com histórias e poemas. Histórias como o “Livro da ilusão”  ou aquelas que traz  do Alentejo, onde encontra sempre refúgio e novas histórias para nos contar quando regressa. Ainda que esse Alentejo da infância se encontre cada vez mais só. A sua aldeia encolheu de tal forma, que Domingos em 2013/2014 escreve a peça “Aldeia vende como nova”, uma comédia onde se tenta vender a parte da aldeia desabitada aos chineses,  aos árabes, aos africanos…enfim a quem queira gostar dela como ela é, ou seja, atualmente muita pouca gente:


"Duas ruas
Desertas
Por um
Caminho
De pó.

Um monte
De portas
Abertas.

Um sobreiro
Só."

Um dos poemas que mais me toca na sua poesia é aquele que sacraliza a despedida do seu avô de quem tanto gostava. Perdoa-me, Domingos, esta inconfidência, mas acho-a tão bonita que tenho de a partilhar.  O avô, ao morrer-lhe o último amigo, decidiu deitar-se e esperar que a morte viesse busca-lo. Eu acho que o Domingos partilha o mesmo amor pelos amigos.

Janeiro e o meu avô

"Sempre te deste mal
com o mês de Janeiro.
Ou ele contigo
guerras antigas
vocês é que sabiam...
Era ruim, chuva e frio
que até geavam os ossos.
Isso tu aguentavas bem
mas estragar-te a sementeira
e trazer-te algumas fomes à boca
deve ter sido a mágoa maior
que nunca lhe perdoaste.
Depois de mais de noventa
Janeiros no Alentejo
sabias que ele te espreitava.
Mas não tinhas medo.
Acendias um lume
cada dia maior e esperavas.
Quando ele partia
vinhas na pressa serena
do teu cajado à minha procura
com uma alegria mais nova do que eu.
Já não morro este ano
dizias com uma certeza
maior do que o sol.
Eu ficava contente
mas não acreditava.
No fim de um Dezembro escuro
mandaste chamar-me
para a despedida.
Abalaste com esse Janeiro.
Vocês tinham muitas contas para acertar. "


A vida é aquilo que acontece enquanto nós fazemos planos. E na vida do Domingos surgiram os seus filhos, a Leonor e o Miguel. Talvez nestes três versos, ele fale deles sem saber:

"Por nunca buscar horas maduras
Só nos verdes momentos
Provei o sabor dos dias."

Mas como todo o bom português, o Domingos esteve sempre à altura dos obstáculos naturais da vida. Bem  conheço a sua frontalidade, sentido de humor e autenticidade. Sempre se desenrascou como aqueles  alentejanos que foram nas caravelas e ninguém como eles houve para desbravar o caminho das matas virgens:

"Junto
Às mágoas
Dorme
O sonho.
Amanhã
Pela manhã
Virão
Os olhos acordar-me.

O resto Invento."

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