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domingo, 29 de dezembro de 2013

Aquilino, uma literatura bem temperada

Portão e Capela do Amparo da Casa Grande de Romarigães - Freguesia de Romarigães, concelho de Paredes de Coura


Já chega de comida sem sal e as palavras alinhadas tão comummente. Ler Aquilino Ribeiro é como saborear uma iguaria bem condimentada e única. Os seus temas coincidem com  um Portugal rural, interior e iniciático. Transportam-nos às raízes da cultura lusitana como os coentros ao sabor típico de alguns pratinhos da nossa cozinha. As suas personagens assumem de peito-feito as suas incoerências e são vertiginosamente sádias. Cada parágrafo de "A Casa Grande de Romarigães" é uma pincelada deliciosa de um grande fresco. Tanto assim é, que apetece copiá-lo como fazíamos na escola primária ou mesmo como faz um pintor-aprendiz diante de um fresco de Giotto ou de uma natural pintura renascentista. Leiam com atenção os primeiros parágrafos do romance:




"O  vento, que é um Pincha-no-Crivo devasso e curioso,  penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista !



Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balouçou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse. (...) 



Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono...»



Aquilino Ribeiro, A casa grande de Romarigães: crónica romanceada (1957). Lisboa : Bertrand, cop. 1985



Então, que dizem ? Genial, não é? Parece a "Génesis" bíblica à escala da paisagem minhota.

1 comentário :

Anónimo disse...

É sempre uma maravilha reler Aquilino. Li o livro há muitos anos e nunca o esqueci, embora já não tenha presentes os pormenores. E gostei tanto que quando tive oportunidade fui de propósito a Romarigães para ver a casa. Claro que tive uma desilusão. Falei mais tarde com alguém que me informou que a casa seria alvo de restauro, não sei se se concretizou. Abraço Maria Fernanda Pinto

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