Escreveu Alberto Caeiro que a poesia não era para ele uma forma de emancipação artística ou coisa do género, mas tão-só uma forma de estar sozinho. E estar sozinho não quer dizer estar num monólogo, não é isso. Quando escrevemos, somos nós a falar para nós próprios, connosco, ouvindo a conversa.
Entre os trinta e os quarenta e três anos, pouca poesia escrevi. Aliás, não sei que sonho, ou que sentimento de missão, me atirou para aquela quimera universitária e profissional tão prolongada. Quando esse projeto de ascensão profissional se desvaneceu, estava na puta da merda e tive de me reconstruir com os cacos.
Encontrei na religião algum conforto e algum sentido para o sofrimento; encontrei paz e recolhimento interior. Creio que ainda fui a tempo. Ainda assim, sinto que vivi demasiado tempo num presídio, cumprindo um destino que não escolhi.
Foi o que foi.
Talvez as trevas, ainda que travestidas por algumas lantejoulas, tenham-me dado o discernimento necessário para querer ser feliz, para ser professor, para voltar a escrever. Porém, o tempo dos homens é curto e nenhuma gota de rio passa duas vezes pelo mesmo sítio. E não é apenas uma impossibilidade espacial ou temporal, mas ambas em simultâneo, porque, mesmo que a gota voltasse a passar, as margens já teriam mudado.
Quando vou em busca do tempo perdido, recuo à infância e à primeira juventude. Esse tempo, sim, ficou registado na memória, de forma fantástica ou não, para sempre. Esse “sempre” arder, que é a vida de um homem.
1 comentário:
Qué prosa tan luminosa y expansiva, tan depurada e introspectiva. Pura poesía...
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