Encolheste as paredes da sala,
os votos livres e sinceros
que fazes sempre no início de cada ano.
Leste livros antigos,
demasiado antigos, diria,
poemas que não lembram ao diabo,
quanto mais às pessoas simples
com quem querias, quiçá, conviver um dia.
“Já leu os clássicos”, perguntava o Adelino,
quando queria colocar alguém
no seu devido lugar.
Mas para que te serve agora lê-los
se te arrumam depois na prateleira
onde foste buscá-los.
O mundo afunilou, sentes-te de novo
confortável a brincar com os legos
sobre a alcatifa do quarto.
Esperas confiante que um fantasma
te chame e sirva o almoço já pronto.
E ali ficas, deserdado do tempo,
olhos virados do avesso,
mãos incapazes do tacto,
pés que se recusam a partir outra vez.
E a pergunta que salta entre gerações
assoma-te mais uma vez:
“Afinal o que ficou, quando já não és?”
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