Chegou a hora de partir da aldeia.
Mais uma vez me despeço desta terra da alegria — que, tendo tão pouco de alegre, conserva ainda o sortilégio de nos aliviar da guerra urbana, concedendo-nos uma breve licença para beijar a mão da natureza e escutar as histórias encriptadas no canto e no piar dos irmãos pássaros.
A natureza renova-se a cada ciclo, com a segurança do eterno.
Os homens não: tornam-se grisalhos, perdem dentes, ou mesmo a vida. Outros nascem — ainda lácteos — e correm pelas ruas, pedindo água nos cafés, como outrora nos arrabaldes de Lisboa.
Uma velha economia resiste, escorando uma identidade de meados do século passado: algum gado, azeite e cortiça. Alguns pensionistas regressam à aldeia natal, na esperança de viver em paz os últimos anos.
Mas acreditam numa ilusão.
A paz transporta-se dentro do coração — tal como a guerra.
E a paz é, talvez, inversamente proporcional ao desejo.
Em mim, quando a imaginação desperta o desejo destrói a contemplação.
E então, como diz a minha sogra, vê-se o trigo crescer à noite.
A beleza, por aqui, não pertence a ninguém: está fora de portas.
E por isso se pode dizer: felizes os que contemplam.
Sem comentários:
Enviar um comentário