21/01/2026

Pequeno vencedor do tempo

Um quarto para as três da tarde, o comboio passa; não o vejo, mas escuto o seu rumor elétrico. O dia está cinzento; estou dentro da torre de Montaigne, do castelo de Hölderlin, nesses lugares onde podemos refugiar-nos do mundo — um luxo, afinal. Talvez por isso eles tenham ali permanecido meses ou anos, e eu, apenas uma quarta-feira chuvosa. Já não é mau, penso para mim mesmo, pequeno vencedor do tempo entre os meus camaradas de condição social.

Desde muito jovem, sempre me foi apetecível a condição de fantasma, invisível, translúcido, de preferência com asas, para me poder sentar a observar os mortais na borda dos prédios, como os anjos berlinenses de Win Wenders. Assim, poderia contemplar os outros — os contemporâneos e os antigos — através dos seus vestígios artísticos, de preferência; a linguagem da arte é do  melhor que humanidade  tem: aumenta a realidade, modela o pensamento em canções, a filosofia em poemas.

O que nos foi deixado para ler, ver e ouvir não tem fim — e isso alegra-me, pois impele-me a procurar, dentro das minhas escassas disponibilidades económicas e intelectuais, aquilo que, com toda a probabilidade, os outros desejaram legar-nos: uma vontade, talvez inconsciente, de quem se viu sub umbra mortis e quis, afinal, vencer o esquecimento, discursar mais um pouco no púlpito da cidade.

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