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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O bobo da corte

Às vezes, via a estrada, fechava os  olhos e fingia que partia. Mas uma curva apertada a uns cem metros de mim, toldava-me a visão e deixavam para a intuição o resto da vida. Ansiava por tomar aquele caminho incerto, mas não ousava, como uma mula adulta que não esquece a cama de feno que a espera no estábulo. Devia fechar os olhos e saltar, como um para-quedista se lança para um campo de guerra, mas negava o meu corpo às balas.

Cada mulher era a haste de uma videira. E a  vida um carreiro de formigas indeciso por não saber em qual delas estaria o cacho das uvas mais doces.

Havia o passado, esse lastro que garantia a estabilidade do navio, sem contudo o deixar navegar à velocidade desejada pela ambição desmedida. Havia as árvores que sabiam esperar as estações, de forma firme e curiosa. Havia os gatos que me seguiam com o olhar. Seriam eles deuses atentos ao destino das suas criaturas ou apenas pequenos mamíferos conscientes das suas fragilidades ?

Perguntava: Onde estaria a esperança? No ficar ou no partir? Talvez pudesse partir, ficando. Poderia fingir que era o bobo dos deuses: o único, que entre a corte do Olimpo, podia dizer ironias sobre o tempo e o espaço, como se a minha vontade fosse absoluta e eterna.



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