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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A história de um cão que dava um pequeno conto de Natal

Conheço um cão há muitos anos, desde cachorro. É uma daquelas raças apuradas para amarem os homens. Não ladram aos ladrões, não mordem e por mais maltratados que sejam perdoam sempre. Ontem reencontrei esse cão. Estava sozinho em casa. Os donos separam-se. Cada um seguiu o seu caminho, os filhos cresceram e o cão ficou sem dono de verdade. Os donos alimentam-no , dão-lhe cuidados de supermercado, como ossos de substâncias processadas para os dentes, passeiam-no todos os dias, mas  é como  vos dizia, aquele cão pertence a uma raça apurada para amar o Homem. Se ele fosse um lobo, não teria hoje aquele problema da solidão, porque para um lobo a solidão às vezes faz sentido. Agora, para ele, não. Ele sofre de uma imensa solidão, porque quer amar e como cão que é, não consegue criar simulacros de amor, não consegue amar em abstrato, fazer poemas ou simplesmente escrever cartas de amor. Amar para aquele cão, é brincar, correr, tocar e cheirar coisas novas e surpreendentes. O amor para ele é abocanhar-nos os braços,  levar chapadas e ralharetes,  correr para apanhar o pau que lhe atirámos, mas passa os dias sozinho, a querer amar e não tem a quem. Ontem, depois de um passeio que fizemos, ele - que sempre mostra  aquele ar jovial, alegre, quase desmiolado - confessou-me a sua profunda solidão. Depois de umas correrias, fugas, mijadelas e caganças, o sol pôs-se. E como dois amigos, no final de uma aventura alucinante, ele encostou o seu focinho nas minhas pernas. Tinha por momentos recordado, o que é para ele o amor, a vida verdadeira, o que ele gosta mesmo de fazer. Ficou nostálgico, melancólico. Disse-lhe, olhos nos olhos  - os dele estavam cerrados, como quem lembra algo distante e ideal - que o entendia, que sentia a sua solidão como se fosse a minha, porque no fundo também eu era um animal ensinado para amar - é isso que recebemos dos nossos pais nos pueris anos da  nossa vida - mas que felizmente ainda me sentia amado. "Entendo-te", disse-lhe. "Entendo a tua profunda solidão". Ele ficou mais aliviado com a minha comiseração. Foi um momento intenso. Três segundos fortes. Depois brincámos mais um pouco. Ele foi buscar a bola. Eu atirei o pau para ele ir buscar mais duas ou três vezes. Depois fui-me embora. Fechei a porta do jardim. Se eu soubesse que ele se podia tornar outra vez um lobo, teria a deixado aberta, ainda que me seria difícil explicar aos donos a hipotética decisão. Mas eu sabia que ele jamais seria um lobo. Como eu jamais serei um homem incivilizado. Afinal nós que temos tanta coisa, amigo cão, é pena que nos falte, às vezes ou tantas vezes, o amor do outro e a floresta.

1 comentário :

Paris Toujours disse...

gostei tanto tanto deste conto.
um verdadeiro conto de Natal, com dois corações cheios de luz.

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