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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Um dia na aldeia

Obrigo-me a escrever o meu dia na aldeia. E se o escrevo com melancolia, em vez de astuta leveza, é apenas por tique urbano e nada mais.

Começo o pequeno-almoço com o toque a finados, como paisagem sonora. Ao qual se juntam, o chilrear das andorinhas e as vozes na rua. Estas últimas, despertam-me a tentação de ser humano. Ainda assim resisto, enquanto barro a manteiga no pão.

Avança um carro pela rua abaixo. Rezo alguns estribilhos para que não seja dos funerários. Afinal não era. Ficaram as andorinhas barradas de manteiga branca e  uma crença estranha que salvamos a alma se comermos este pão espanhol tão branco, imaculado.

Aqui o vento imita o tráfego das grandes cidades. Percorre as ruas, conflui, dispersa-se, apita amiúde, num sopro sibilante. À semelhança do roncar dos motores das grandes avenidas, se  incomoda, fecha-se a porta. Que importa. Dentro de casa, com portas e janelas fechadas, o exterior é uma abstração, um reflexo de  realidade, uma construção  com alicerces de experiências passadas e com paredes pintadas de ilusão. Por agora, deixo Platão para mais tarde. Afinal, pensar é estar doente dos olhos, como escreveu o mestre Caeiro.

Desço barbeado à escarpa altaneira num ritual que cumpro há anos. O lugar chama-se o Salto da Cabra. Foram os contrabandistas que puseram o nome. Levo um manto branco sobre os ombros, uma mitra(1) escarlate na cabeça e carne antiga numa bandeja de prata para as rapaces (2).

No Salto da Cabra, fico a sós com as terras a perder de vista. Ali, julgo-me  um sacerdote, um xamã(3), um homem do lixo, sei lá...Fecho os olhos, como há pouco fechava as portas e janelas, e deixo de ser uma coisa individual. Agora faço parto do todo, como se não morresse nunca, como se fosse uma personagem bíblica ou um pequeno cristal incrustado ao granito.

Volto a casa por uma estrada feita por mãos e pés invisíveis. Depois escrevo tudo isto como uma fotografia tremida.

O almoço estende-se como uma pequena praia entre a infância e a adulta idade do vinho. Adormeço depois sobre o clamor de uma aguardente de medronho - o sabor mais verídico que conheço da terra.

À tarde, desço ao cemitério, para sentir quem morreu nos últimos mil anos. Pedir aos céus, que eles descansem em paz nesta aldeia, é redundante.

No cimo de um barranco, afago a penugem da pedra. Chamam-lhe líquenes, quase todos. Sinto a terra excitada, húmida. É primavera. Fico embevecido, vencido neste jogo antigo. Vergo-me de novo diante a paisagem: cansaço ou veneração ?

Rudeza e ternura são as duas palavras que encontro no bolso roto das calças para escrever esta sublimação que me aflora os olhos, seca a garganta e de, sangue novo, me enche o coração.

À noite, a escuridão vira o mundo do avesso e só vejo o forro das coisas. A aldeia abre-se como um livro de mistérios, e vou desfolhando as suas  páginas feitas de ardósia e musgo.

Adormeço, convencido pelo piar da coruja que alguém o guardou dentro da torre sineira.


Salvaterra do Extremo, Páscoa de 2014

(1)  Chapéu cerimonial do bispo.
(2)  Aves carnívoras , de garras potentes e bico robusto em forma de gancho
(3) Feiticeiro indígena nas culturas ameríndias



Fotografias de Duarte Belo extraídas do livro "Terras templárias da Idanha" - Edt. Assírio e Alvim

Ligação:www.duartebelo.com

Salvaterra do Extremo (2005)

Salvaterra do Extremo (2005)

Salvaterra do Extremo - Torre medieval (2005)


Salvaterra do Extremo - Rio Erges (2005)











1 comentário :

Encantadora Lusitana disse...

Texto belo. Tenho lágrimas nos olhos.

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