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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"A Moura" - algumas motivações e anotações

Cruzada das mulheres e crianças - Foto de Orlando Catarino



Transpor  um texto dramático para o palco é partilhá-lo com um coletivo de sensibilidades, histórias pessoais, esperanças e interpretações. É uma responsabilidade fabulosa a possibilidade de semear o espírito dos atores, encenadores, cenógrafos e figurinistas. E no final, entregar um espectáculo que pretende agradar ao público, tornando-o também mais sábio sobre as coisas da humanidade.  Este texto, onde o “drama”, como o género onde o Homem é fruto das suas paixões, se mistura com a “tragédia”, como o género onde o destino é ditado pela vontade divinal, nasceu há 20 anos atrás, depois do Teatro Passagem de Nível estrear a obra simbolista de António Patrício, “Pedro, o crú”. A iniciativa de o escrever foi uma tentativa de prolongar esse espectáculo onde participei e resolver eventualmente alguns conflitos interiores surgidos durante o estudo do papel de D.Pedro I que eu mesmo interpretei nessa altura (1995). Seguindo o mote das séries americanas, “A moura” é uma sequela ou uma segunda temporada de “Pedro, o crú” de António Patrício. Por essa razão, transparece aqui ou ali um pequeno travo de simbolismo requentado, dirão uns, ou ressuscitado, dirão outros mais benevolentes.

Porque me entusiasma a ideia de que o trabalho do autor se integre num grupo de atores, num contexto social e num determinado público, escrevi os restantes dois atos (Há 20 anos atrás a peça não ficou concluída) com o objetivo de ir ao encontro da estratégia da direção do TPN em ampliar o seu número de atores, associados e “companheiros de estrada” na cidade da Amadora. Não posso deixar de referir que as motivações estéticas e mesmo aquelas  que me levaram a optar pelo género histórico são devido à comunhão que existe entre mim e o Porfírio Lopes, encenador deste espetáculo, pelo teatro onde a “Palavra” assume o papel principal pela animação da consciência humana, refreando as últimas tendências de um teatro mais plástico, quase “facebookiano”, onde as palavras tem um papel e uma aparição minimal.

Baseei as personagens principais num conjunto de referências clássicas por estar convicto que  a dimensão temporal consegue distinguir o importante do acessório e  que o Homem tem qualidades intrínsecas comuns, quer ele seja uma personagem do século XIII, como uma personagem contemporânea. Fiz ainda questão que por entre os conflitos  da ambição e da inveja, da paixão jovem e da tardia, da vingança ou do perdão, se afirmasse o valor da fé e da crença intuitiva como forma de transformação histórica (Cruzada das mulheres e crianças) - não fossemos nós, os portugueses, um povo profundamente obstinado e corajoso nos momentos decisivos. Escreveu José Mattoso, no seu livro “Identidade Nacional”, que Portugal não se define apenas através de uma dimensão geográfica ou política, mas também por um conjunto de vontades, representadas pelas culturas dos mais diversos povos que se foram acumulando e relacionando neste pequeno rectângulo restringido pelo mar e pelos restantes povos ibéricos. “A moura” inspira-se num pequeno fragmento  dessa relação cultural e emocional tão diversa como é a nossa história.

Confesso que o primeiro nome da peça era “O primeiro milagre de Fátima” porque queria realçar a intervenção divina no desenlace desta estória. Em forma de contrapoder filosófico, apraz-me a ideia do deus ex machina das tragédias clássicas que altera definitivamente o destino das personagens, ainda que agora a sua ação seja levada à prática pela interpretação feita pelos mortais dos sinais revelados pela divindade (milagre). A intenção desta peripécia  é realçar o papel da fé e do destino como forma de combate a um pensamento dominante  demasiado lógico e cada vez mais niilista (carateristica de quem acredita que não existe um sentido na vida) que a meu ver é preciso balizar. Pois, o teatro, ainda que disfarçado pelas suas tramas  ou condimentado pelo género histórico, tem sempre o intuito de proporcionar ao espetador uma leitura social dos problemas da atualidade e humildemente apresentar ou dar contributos para uma solução.

Para finalizar, queria agradecer ao Domingos Galamba (dramaturgo), Alexandre Andrade (escritor), Miguel Gomes Marins (Historiador) e Catarina Belo (Filosofa) o seu apoio durante a escrita deste texto.
                                                           Amadora, 20 de dezembro de 2014

                                                           Luís Palma Gomes (autor)

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