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terça-feira, 27 de março de 2012

Bovary, um paradigma social



Um museu  sincroniza os seus utentes com o passado. Fá-lo através de artefatos, documentos e experiências.

A Cinemateca Portuguesa concretiza a sua aspiração de museu do cinema da melhor forma, ou seja, através das emoções, através de histórias de celulóide que nos revelam as culturas humanas. Não só as culturas atuais, como aquelas que surgiram antes do cinema. E esta é a "deixa" para falar-vos de "Madame Bovary" de Vicent Minnelli (1949) - filme a que assisti no passado Sábado nesta sala de espetáculos.

Este soberbo filme é um dos vetores de análise de um romance homónimo marcante da cultura ocidental. Ele demarca a transição do romantismo para o realismo, impondo-se assim como uma rutura epistomológica. A rutura coloca dois espaços em contato. E quando os espaços se encontram, nascem novas perguntas. E assim avançam as mentalidades de rutura em rutura, de pergunta em pergunta.

 Uma obra de arte que nos questiona, cumpre sempre bem a sua função. E a história de Emma Bovary mostra-nos o quão ténue é a linha que divide a culpado da vítima, e isso inquieta o espetador porque tem dificuldade em situar-se. Emma Bovary é uma mulher deslumbrada por um mundo de romances e revistas cor-de-rosa. Consequentemente esta mulher não consegue realizar-se no mundo real, sendo por isso vitima de um conjunto de personagens que gravitam em seu redor, e que se aproveitam da sua ingenuidade social. A conclusão realista de Gustave Flaubert, autor do romance, é  simples: A impossibilidade de viver o espaço dos sonhos na vida real, porque eles são uma representação onírica e subjetiva que não encaixa com a forte coação social que nos contextualiza.

Emma Bovary é felizmente uma mulher que viveu num mundo (Séc.XIX) onde a condição feminina estava ainda por se antecipar. Mas se que a figura  "Bovary" é  de facto História apenas, o paradigma "Bovary" está sempre latente na existência humana. E, por isso, nos fragiliza e, por isso, nos humaniza.

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