22/01/2026

A bússola

Sempre que posso, venho embuscar-me num estacionamento junto à estrada. Escrevo dentro do carro. O sol espreita por detrás do monte e reajusta a minha bússola interior. Refaço na alma os pontos cardeais.

O monte está igual há décadas — é a fotografia dos avós pousada numa cómoda ao sábado à tarde. A nostalgia da natureza invade-me: ferida que não sara.

Preciso do campo mais do que nunca. O inverno ensaia a sua dança entre o frio e o sol — como nenhuma estação sabe fazê-lo. A pele oscila entre o arrepio e o raro calor de uma manhã iluminada.

As ervas, as canas, os arbustos silvestres — tudo aqui ainda mexe. Jóias que subsistem apesar do nosso desejo de conquistar, controlar, pôr a render.

Atrás de mim, carros passam. Ninguém parece perguntar pelo sentido da vida; seguem com a vontade animal da sobrevivência. Pode ser que seja melhor assim, aceitar sem questionar, como dizem os pseudoestóicos. Não sei. Talvez fosse melhor lutar — ainda que parando.

Amadora, 22 de janeiro de 2026

21/01/2026

Pequeno vencedor do tempo

Um quarto para as três da tarde, o comboio passa; não o vejo, mas escuto o seu rumor elétrico. O dia está cinzento; estou dentro da torre de Montaigne, do castelo de Hölderlin, nesses lugares onde podemos refugiar-nos do mundo — um luxo, afinal. Talvez por isso eles tenham ali permanecido meses ou anos, e eu, apenas uma quarta-feira chuvosa. Já não é mau, penso para mim mesmo, pequeno vencedor do tempo entre os meus camaradas de condição social.

Desde muito jovem, sempre me foi apetecível a condição de fantasma, invisível, translúcido, de preferência com asas, para me poder sentar a observar os mortais na borda dos prédios, como os anjos berlinenses de Win Wenders. Assim, poderia contemplar os outros — os contemporâneos e os antigos — através dos seus vestígios artísticos, de preferência; a linguagem da arte é do  melhor que humanidade  tem: aumenta a realidade, modela o pensamento em canções, a filosofia em poemas.

O que nos foi deixado para ler, ver e ouvir não tem fim — e isso alegra-me, pois impele-me a procurar, dentro das minhas escassas disponibilidades económicas e intelectuais, aquilo que, com toda a probabilidade, os outros desejaram legar-nos: uma vontade, talvez inconsciente, de quem se viu sub umbra mortis e quis, afinal, vencer o esquecimento, discursar mais um pouco no púlpito da cidade.

20/01/2026

Um caldo morno, por favor.

Estou dormente.

Uma dormência dos ossos
à pele, ao peitoril dos lábios.
As palavras evitam sair-me do corpo
depois das oito da noite,
a hora da sopa,
onde mergulho pedacinhos de pão
e histórias antigas,
tão distantes.

Estou demasiado cansado
até para não querer nada:
não querer 
exigiria de mim
uma força que não tenho,
quanto mais ter 
os sonhos todos do mundo.

Quero apenas uma sopa, já disse,
e uma carcacinha velha
para se desfazer em caldo morno.