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quinta-feira, 17 de junho de 2021

Cuidados

Dizem que os ossos se desfazem,
quando as lágrimas sabem a sal.

Dizem que  sulcos  escavam a face,
quando a lava transborda do coração.

Dizem muita coisa da  ausência
e da infelicidade que o tempo acumula sobre móveis.


Talvez sejam apenas rumores,
 inquietações da fala.

Ainda assim, refugiu-me na ilusão, 
a estação seca dos olhos.

E encosto a porta para que possas entrar 
com um caldo quente que arrefeça sem magoar.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Um sol enganador

 Olhou para mim e deixou-se lacrimejar. Era um sinal de paixão contida. Gostaria de ter-lhe perguntado o porquê daqueles olhos húmidos, daquele sentimento que crescia no seu íntimo como um rio subterrâneo de onde apenas um fio de água alcança a superfície. Não sabia se estava triste por si, por mim ou por ambos através de uma visão refletida entre as nossas vidas. Revia-se em mim? A minha tristeza ecoava na sua e vice-versa?

Naquela manhã, eu acordara com uma lucidez nascida das sombras. Uma realidade trágica  emergira depois de uma noite mal dormida: a desesperança, as promessas tornadas condições materiais e por isso mesmo transformadas numa espécie de canga que colocamos nos animais para puxar as charruas, a velhice, a impotência que sempre existiu, mas que conseguimos esquecê-la durante grande parte da vida, as mentiras que contamos a nós próprios para viver, para sermos amados, as traições, os ódios, as invejas e tudo o mais com que um ser humano consegue envenenar a graça da vida. Tudo isto se tornou nítido naquela manhã de uma forma exponencial. À minha frente, quem me conhece desde as entranhas lacrimejava em silêncio e de mansinho, como se adivinhasse cada uma das conclusões  que eu havia encontrado naquela manhã de  um sol brilhante, e só por isso, enganador.

domingo, 13 de junho de 2021

Oração

    Gosto de caminhar por uma charneca existente junto à Estrada dos Salgados na Amadora. É um local ainda impoluto, onde se podem observar muitas espécies animais e vegetais. Por ali vou compondo alguns dos meus poemas nos últimos cinco ou seis anos. Desta vez à medida que encontrava alguma evidência que me sensibilizava, escrevia um destes versos que se iam perfilando em modo de oração. Confesso que os pirilampos são importados de passeios crepusculares, não estando assim em sincronia com o resto do poema. 

    Acredito que o futuro acentuará esta síntese entre a religião e a natureza, ou seja, entre o criador e a obra. Registei também fotograficamente alguns desses momentos que também aqui deixo.


Oração 

Nossa Senhora dos Fenos guia-nos pelos atalhos dos cavalos selvagens.

Nossa Senhora das Borboletas ensina-nos em que flores orar.

Nossa Senhora  dos Pirilampos alumia a noite dos enfermos.

Nossa Senhora dos Ribeiros sacia-nos a sede de infinito.

Nossa Senhora das Formigas ajuda-nos a carregar a culpa e o castigo.

Nossa Senhora das Carriças encaminha-nos  para o ninho.

Nossa Senhora das Trovões explica-nos as nuvens negras do caminho.











segunda-feira, 24 de maio de 2021

O diário que não escrevi

 Eu amava-a profundamente, ainda que este advérbio de modo não ajudasse a representar o meu sentimento por ela. O meu amor era de uma esfera mais elevada do que aquela onde as palavras significavam ideias convencionais. Por isso, quando ela me pedia para eu dizer-lhe explicitamente que a amava, recusava, evocando argumentos dúbios. Não era possível explicar-lhe a minha teimosia sem falar de magia, de mistério, de coisas apenas intuídas, mas que ainda não tinham para mim uma explicação inteligível. A mais humana das razões era o medo. O medo de nomear o meu sentimento numa camada mais baixa da existência do que aquela onde o meu desejo se havia estabelecido: etéreo, mas vivaz; mental, mas ardente.




domingo, 23 de maio de 2021

Aviso

 Aos meus filhos disse:

cuidado com os poemas

que queimam as pontas dos dedos

com ácido clorídrico

e desfazem pouco a pouco a traqueia

com o atrito daquelas partículas sintáticas

que ficam a mais nas esquinas dos versos.


Se querem ser poetas, meus filhos,

esqueçam  Kant, esqueçam Séneca

 e outros doutos cânones da razão.

Em vez disso, empreendam  sobretudo

uma melodia doida

saltando de galho em galho

pelo bosque naufrago dos moucos.


Em qualquer café da cidade, dir-vos-ão

que toda a poesia são diapositivos insanos

projetados em paredes rebocadas de lama e ilusão.


terça-feira, 18 de maio de 2021

A ruína

No cimo da escarpa avista-se  um castelo em ruínas. Suas torres e muralhas erguem-se agora caquéticas, como dentes espaçados e incompletos.  Ali, abandonado, o antigo bastião é um monumento à solidão. Ninguém lhe presta  já um carinho, uma breve homenagem sequer.  Apenas as cabras e as vacas lhe fazem companhia. Pela sua localização e envergadura, adivinha-se a importância de outrora.  

O castelo viu  partir os inimigos primeiro; os seus soldados com o último alcaide, tempos depois. Queixou-se a quem o ouvisse  da ingratidão  dos que o deixaram, apesar da sua inexpugnável solidez. 

Jamais assumiu  a sua inércia. Em vez disso, deu-lhe para culpar a história, as modas e a traição daqueles a quem dera boa guarida. Esquecera-se afinal  de mudar para continuar a fazer sentido.


Castelo de Peñafiel (Zarza La Mayor) 
Foto Fátima Rodrigues


segunda-feira, 17 de maio de 2021

A prenda

A caneta que me deste quase secou. Apenas escreve frases incompreensíveis e corruptas.
Quando me a ofereceste, escrevia de forma infinita e luzidia. Se   naquele tempo, a prenda selava a nossa amizade, agora julgo-a apenas uma daquelas cambalhotas que os periquitos fazem nos poleiros ou  uma teia de aranha para apanhar moscas. Infelizmente o tempo ora distorce a nossa percepção, ora a torna mais nítida. O que para o caso pouco importa.


Entre as poucas palavras que  ainda  escreve, todas me lembram que caminhamos  os dois, à semelhança da caneta,  para a inutilidade total.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Aguaceiro



 
O poeta transforma a realidade através do filtro da sua fantasia. Tudo em seu redor passa a ser um reflexo subjetivo de uma consciência onírica e fugaz. Pelo menos comigo, as coisas passam-se assim. Há um momento de criação que nasce e morre num curto espaço de tempo. Deixa para trás um cadáver ou uma semente: se for o primeiro caso, o poema desfazer-se-á com o tempo; caso contrário, crescerá como uma bela planta que dará cor, perfume ou sombra durante mais algum tempo.

Hoje de repente o céu enegreceu. Em meu redor, tudo tomou um novo sentido. Quem conhece a minha sala, entenderá melhor os elementos deste poema. Quem não conhece ainda, começará pelo fim, ou seja, pela realidade alterada. Depois a chuva começou a cair. Senti que precisava de escrever um poema para me abrigar ou desfrutar  daquele momento. Escrevi assim:

Chove lá fora
e dentro de mim.
O comboio leva e traz 
gente estática.
O peixe aguarda
no silêncio do tanque
uma fresta
que não se abre.
A gata acoita-se;
julga que a chuva 
se zangou com ela.
Recolho-me eu
no alpendre da poesia,
exercício vital
para a flutuação das pedras
em dia de aguaceiros.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Desesperança

Ó tamanha desesperança do mundo que em mim se fez porto de águas fundas, onde  navios chegam e partem mudos. No cais, sozinho, não espero mais que o fumo pode esperar, quando o vento o dispersa pela praia deserta.

Por lá brande, em meu redor, uma luz crepuscular, lembrando-me o vazio do que para trás ficou e o sofrimento em que se tornou  esta condenação de caminhar.



sexta-feira, 30 de abril de 2021

Vem como és

Hoje a canção "Come as you are" dos Nirvana faz 30 anos. Passadas três décadas, parece-me algo anacrónico pensar que ainda é vital estimular a consciência da liberdade individual como forma de reforçar a coesão coletiva.   Apesar dos recursos que a Globalização me trouxe, parece-me também  ter-se tornado num mecanismo de uniformização cultural, deixando o individuo demasiado condicionado a uma consciência universal e superficial. No horizonte político, notam-se também algumas nuvens autocráticas e despóticas, perspetivadas agora como um remédio amargo, mas eficaz para as nossas dores. A liberdade tem um preço. Primeiro é preciso encontrá-la num amontoado de liberdades prêt-à-porter - o que não é fácil - e depois ter coragem para pagar o seu preço.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Águas calmas

 As águas calmas da barragem fazem-nos cair num sono, numa miragem plácida, onde só o sossego parece prevalecer. Nas margens, o cheiro do poejo adoça-nos o palato através do seu odor. Alguns peixes assomam à superfície para caçarem os mosquitos que convivem em voos imprevistos e rasantes. O silêncio quebra-se de vez com o salto da carpa e o destino infeliz do insecto. São as águas calmas e opacas que nos tornam demasiado lentos e confiantes. Deixamos de fazer perguntas, porque ouvimos sempre as mesmas respostas. Não procuramos ver em profundidade. Queremos respostas rápidas, porque não podemos esperar. Preferimos não saber a verdade, ou seja, não nos apercebemos às vezes que a carpa se aproxima sorrateira para nos levar a luz e a liberdade.

Holiday

Íamos de férias para Sul. Estava sem emprego. Tinha-o perdido aos 50 anos, depois de 30 de carreira. Agora discutíamos com vigor e raiva sobre o melhor itinerário para chegar ao local do veraneio.  A discussão da rota era uma metáfora sobre as decisões da minha vida que me tinham levado a esta situação de precariedade. "Escolhes sempre estas estradas péssimas", acusou-me ela. 

Na rádio, como uma epifania, começou a tocar uma balada dos Scorpions, "Holiday": "Let me take you far away/ You'd like a holiday". Fiquei mais calmo. Ela também. Era como se Deus estivesse no banco de trás do carro a sintonizar o posto da rádio. Tudo havia de melhorar e melhorou de facto.



domingo, 18 de abril de 2021

À espera dos bárbaros

Enquanto os bárbaros não chegam, procuro o próximo brinquedo. Está demasiado calor para qualquer fantasia mais agitada do que o sono leve das manhãs de domingo. 

Aguardo o fuso horário do destino, com a mesma placidez de quem se senta à janela e espera a passagem de um cometa que se atrasou no caos sideral.

Olho a rua, as flores, os telhados defronte. Daquilo que partiu não consigo distinguir mais do que uma cadeia finita de longínquas imagens, recortes de uma revista velha que guardei na gaveta da cómoda por debaixo das meias.

No fundo da rua, pareceu-me ver  Jesus caminhando na minha direção. Seria uma alucinação? Que assim seja.

Enquanto os bárbaros não chegam, terei tempo para me barbear e procurar de novo os ninhos dos abelharucos. Quero entregar-me aos invasores com dignidade e com aquela esperança  instintiva que nos leva a fazer uma sopa apenas para a semana inteira.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

O Jantar da Raposa

 Uma aldeia é uma fábula de La Fontaine. A vida dos humanos e dos animais cruza-se com frequência.  Porque tudo ali é lento e previsível, vamos conhecendo os hábitos dos bichos — os seus trilhos, as suas manias. Depois das refeições guardávamos os restos de carne para entregar às raposas que rodeiam a aldeia. Durante uma semana, tentámos adivinhar os locais onde podíamos entregar-lhes o jantar. Nunca as vimos, porém. 

Mais tarde, um hortelão simpático informou-nos o lugar onde elas viviam. Lá fomos, nós com salsichas e entremeadas  matar a fome à família das raposinhas. Não encontrámos nenhuma. Deixámos lá o manjar e regressámos desiludidos. Já passava da meia da noite, quando decidimos lá voltar.  Qual não foi a nossa surpresa, quando, no improvisado comedor,  uma raposa abocanhava uma das salsichas. Valeu a persistência para vê-las e alimentá-las. Interpretei este sinal, como se o espírito da aldeia nos dissesse: "Nunca desistam de bem-querer.".



segunda-feira, 12 de abril de 2021

Reflexão: as caminhadas na aldeia

Saímos cedo para a caminhada em redor da aldeia. E logo nos assaltam os aromas, os sabores, a rugosidade das pedras. Cheiramos a hortelã e o poejo, comemos figos e amoras, tateamos o musgo sobre as rochas. Quando o sinal de rede enfraquece,  os sentidos da proximidade ganham vitalidade: o olfato, o paladar e o tato.  Já não há momentos isolados, apenas um mergulho caminhado, um ato continuo, completo e autêntico. Sem intermediação, a natureza  torna-se imersiva e cheia daqueles detalhes que ganham um novo sentido quando se juntam. Por ali, não encontramos vestígios de inocência, mas apenas uma essência modesta, que apenas se revela até ao limite necessário para viver.



Foto de Fátima Rodrigues

sexta-feira, 9 de abril de 2021

A morte do caixeiro viajante

Sempre que lá vou otimista

dizem-me que não chega ainda,

que a manhã já partiu

e a próxima só chega depois de mim.


"Foi por pouco", dizem-me,

"Tente de novo".


O sol já se abaixou demais.

Colhi e atei os raios que pude.

Guardei-os numa gaveta empenada de madeira.

Perguntei à minha mãe velhinha,

se  arrefeceriam eles?


Pelo olhar dela,

compreendi afinal para que serve a vida.

domingo, 4 de abril de 2021

Tempus fugit

 Idas as naturais sensações,

restavam-nos as palavras.

Apenas através delas acreditávamos,

mesmo sabendo-as impossíveis.


Para as pronunciar outra vez,

era preciso regressar

ao tempo que fugira

até um lugar irrepetível.


Nós não podíamos ir lá atrás.

Agora éramos dois grandes pinheiros

enraizados sobre a praia.



sábado, 3 de abril de 2021

A presença na ausência

 

Era Sexta-Feira Santa. Chegámos atrasados à missa. Devido aos constrangimentos da Covid-19, fomos desviados para o coro alto de onde tínhamos de assistir à missa. Subindo as escadas da igreja que davam acesso à varanda interior, fomos recebidos por um intransponível senhor de cabeça rapada. Tinha um metro e noventa e uma indumentária franciscana que deixava relevar um forte ascetismo e provavelmente uma ligação continuada aos mandamentos de humildade. Possuía uma cara séria e uma voz quase sussurrada que servia de contraponto com a sua massa muscular.  Segredava as ordens, devido ao espaço e ao início iminente da missa mais importante do ano litúrgico. Encaminhava as pessoas para os lugares previamente marcados com bolas brancas, fazendo gestos de polícia sinaleiro. Colocou-me na primeira fila. Ao sentar-me apercebi-me que não conseguia ver o altar, mas apenas Jesus na cruz que o sobrepunha. Tentei pedir ao arrumador para subir para uma fila mais alta. O pedido foi recusado com um “não” seco e um olhar desaprovador. “Não vejo nada daqui.”, justifiquei. “Não e não. Sente-se”, ordenou de novo. Sem argumentos, sentei-me. A minha mulher que ocupava um lugar numa fila mais alta, chamou-me para junto dela. Olhei de novo o arrumador e disse-lhe a ela que não podia. Ela insistiu. Eu resignado e frustrado virei-me para a frente firme, subjugado ao dever de cumprir as normas de segurança: tinha de aceitar a minha situação. Aceitar e compreender eram as únicas  atitudes capazes de lidar com a insatisfação. 

O padre e os acólitos entraram. A eucaristia ia começar. Levantei-me. Quando o padre Carlos começou a falar, conclui que devido a reverberação do som, não conseguia entender quase nada do que se dizia no altar e do coro. Apenas me chegavam algumas palavras e sons que pareciam por vezes desafinados. Um homem baixo que fora colocado ao meu lado, virou-se para mim e lamentou-se: “Não se consegue ver nada.”.  Na sua constatação, havia também um pedido de velado de insubordinação como se tivesse a aliciar-me para a formação de um movimento cívico que destituísse o arrumador ou outra ação semelhante capaz de nos fazer ver e ouvir a missa. Olhei para ele e encolhi os ombros. Tentei com o meu gesto, convencê-lo à resignação. As leituras, os cânticos, as liturgias seguiam sem freios e eu nada percebia e nada via, para além de algumas palavras soltas: “liberdade”, “Papa Francisco”, entre poucas outras. Aquele tempo privação, pôs-me a pensar em metáforas hipotéticas: o que significava a determinação do arrumador, a minha aceitação daquele lugar apesar das solicitações?  O que significaria  a incompreensão do que era dito ou feito lá em baixo no altar? Conclui que a aceitação é uma premissa religiosa; que por mais douto que me ache nas coisas de Deus, estou sempre muito aquém de um entendimento pleno dos mistérios e dos desígnios que atravessam os dois mil anos que me distanciam de Cristo e do momento da sua consagração. Mais uma vez estava a fazer a mesma pergunta que me seguia há semanas: o que podemos verdadeiramente conhecer? 

Fechei os olhos.  Estava agora a decifrar uma mensagem que seria impercetível se estivesse atento à mensagem de um emissor humano. As vozes continuavam incompreensíveis. O coro, os acordes do órgão pareciam agora bastante desarmónicos e desafinados. Aquela impressão e a altura em que me encontrava face ao lugar dos acontecimentos que decorriam lá em baixo fizeram-me colocar a possibilidade de também Deus não os entender. Mesmo que os entendesse vagamente, podia não se sensibilizar com as palavras cantadas à superfície da Terra. Assim, nem nós entenderíamos a palavra de Deus, nem  Ele a nós, levando-O a desprezar os nossos rogos, a não se emocionar com a tentativa daqueles que tentavam em vão evocar a beleza que Ele lhes inspirava. Na maior parte do tempo, não haveria ligação alguma entre os crentes e o criador: não entendíamos nós a sua palavra, ou aquela que a humanidade por via dos evangelistas, teólogos ou sacerdotes afirmava sê-la.

Fiquei a pensar que naquela missa, da qual nada  vi nem ouvi, a voz do Senhor revelou-me exatamente a importância  da sua ausência. O seu silêncio era a prova da sua existência. Porque em intensidade e momentos diferentes, todos temos saudades de Deus. E só temos saudades do que já tivemos.

Havia, contudo, uma esperança: no domingo de Páscoa, ele renasceria. E um cristão não pode perder a esperança. 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Amor distante

 Às vezes,

num certo instante,

num verso perdido,

num poema esquecido

 no bolso das calças

encontro sem querer

o amor distante.


Meto a mão no queixo

e penso depois o quanto 

há nesta ideia de redundante, 

porque o amor e a distância são causa e efeito,

e haverá uma ordem e haverá um proveito.


Mas que importância terá a ciência disto,

nos versos que Luiz  fez a Violante?


domingo, 28 de março de 2021

Os três tipos de portugueses, segundo Fernando Pessoa

 Segundo o que Pessoa escreveu num ensaio chamado "Sobre o homem", há três tipos de portugueses:

O primeiro tipo de português apenas existe por existir e só por isso Portugal existe. Trabalha e vive de forma obscura e modesta; engrossou, qual iniciático inocente, as fileiras de infantes de Aljubarrota, acreditou que La Lys era o contra-ataque de Alcácer Quibir. É um homem que se irrita com a verdade, porque sabe que ela não existe, para além da ciência que ele não entende. Por isso, aguarda que uma mentira credível — ou simplesmente uma fantasia alternativa ao tédio em que caiu — o emocione e o faça agir. Porém ele apenas o fará quando todos os outros o fizerem. Porque este português que são muitos é só um apenas. É na sua génese um indivíduo coletivo que faz de conta que não sabe que a política é  uma mentira que nos projeta para um lugar diferente.   


O segundo tipo de português é o que não é português: começou com uma invasão mental por vontade do Marquês de Pombal. Quando viu que afinal estava enganado, fez aquilo a que se chama uma fuga para a frente com o constitucionalismo. Perdeu a razão com toda a euforia que a demência nos remete com a república. Está completamente divorciado do país que governa ou julga governar. É por sua vontade, parisiense, nova-iorquino, prussiano, bolchevique. E contra sua vontade é estúpido.


Por último há um terceiro que nasceu no reinado de Dom Dinis, momentos em que o império se esboçou. Foi-se embora para Alcácer Quibir onde morreu. Contudo, deixou parentes que continuam à sua espera. Esperam-no a ele, sabendo que com ele virá el-Rei Dom Sebastião, o verdadeiro último rei de Portugal.


Bibliografia: "Mensagem e outros poemas afins" de Fernando Pessoa - Ed. Europa América

domingo, 21 de março de 2021

Conhecer

O que posso eu conhecer? Como? E o quê? 

Para além dos limites cognitivos impostos pelas dimensões do tempo e do espaço, as minhas emoções  condicionam-me  também o entendimento. 

Se uma sinapse da rede neuronal  é ativada quando uma determinada carga elétrica a estimula, poderá o mesmo acontecer com o nosso grau de entendimento das coisas: a paixão ilumina-nos os mais crípticos  poemas da amor, a doença explica-nos a fragilidade humana e por esta via os caminhos da metafísica e do transcendente. 

Conhecer não está assim ao arbítrio absoluto do sujeito, mas também das suas circunstâncias. O primeiro passo é  de facto arbitrário e começa pelas perguntas : estou preparado para conhecer? encontro-me em condições  para conhecer? Estas premissas são definidas por: primeiro, uma atitude interior que permita aceitar o conhecimento sem baias; segundo, ter a certeza  que me é dado a conhecer a coisa na sua forma mais nítida, sendo esta claridade fruto da razão ou da experiência.

A tomada de consciência das circunstâncias mais imediatas ou próximas aumentará  a possibilidade para conhecer. Este novo conhecimento permitirá dar resposta imediata sobre o que é a minha realidade, porque o "eu" apenas o é num determinado espaço e tempo. Assim — e partindo desta primeira camada de conhecimento —    podemos progredir para  perguntas mais universais e cujo a grandeza  ultrapassa os limites possíveis  da nossa intimidade com as mesmas.


"Meditações sobre Quixote" - José Ortega y Gasset
"O que é a filosofia?" - podcast sobre  Immanuel Kant de António de Castro Caeiro

quinta-feira, 18 de março de 2021

Os anciões da Cinemateca

Três da tarde. Sala de espera da Cinemateca. Alguns idosos aguardam a sessão. Entreolham-se o mínimo possível. O que haveriam de dizer uns aos outros: banalidades, lugares comuns, tristezas sinceras ou falsas alegrias. Esperam que o filme comece. Na tela, ainda haverá  esperança: um início outra vez, um amor pungente, um final inesperado ou mítico, se o filme for daqueles que se tornara um clássico. Sento-me entre eles, como se estivesse entre grandes gatos: quietos, sonolentos, atentos apenas ao que realmente é diferente, ou seja, quase nada. Já viram a vida toda, os filmes preferidos várias vezes. 

Nunca tentei abordar nenhum deles. Quem ousaria roubar a palavra de um totem, de um altar? Ouve-se um trecho musical, anunciando que o filme vai começar. Parecem sinos chamando os fiéis. Levantam-se dos ruços e consoladores sofás. Dirigem-se para os lugares habituais na plateia ou no balcão. Todos devem ter uma tese sólida para aquela escolha e dedicação a um lugar, a uma zona da sala. O filme começa. Agora apenas contemplam, como folhas de árvore viradas para o Sol, ou como aqueles  grandes afloramentos de granito que rasgam as planícies da Beira. Tenho a certeza que muitos deles pensam ou murmuram mesmo entre dentes:  "Projecionista, o filme nosso de cada dia nos dai hoje ".




domingo, 14 de março de 2021

A gata comeu o Sol


Queria o Sol e a gata comeu-o.

Agora ando assim assim, tateando os móveis, desviando-me das formas esquinadas, vendo apenas o que a luz da Lua me deixa ver.

 Têm razão os soturnos, quando dizem que a penumbra tenuemente iluminada exagera os perfumes, os uivos, os passos, o ranger dos materiais,  transfigurando as coisas banais em visões fantásticas. 

Tenho saudades do Sol, mas confesso que aquela luz era demais. Cegava-me com excesso de coisas reais.

 A gata comeu o Sol. São muito inteligentes os animais.

sábado, 13 de março de 2021

Metafísica: um caso de estudo

  A tarde era de março, solarenga e chuvosa. Talvez porque a instabilidade dos elementos instigava à ação - ainda que esta pudesse ser apenas pequena e moderada – fugi dos caminhos alcatroados do jardim, desviando-me por um atalho pisado entre ervas que me levaram a uma ribeira. Devido às chuvas, a corrente pulsava nervosa e alegre entre as pedras que pontuavam um caminho entre as margens. Veio-me a vontade de atravessar ali mesmo. Tracei mentalmente uma rota possível pedra a pedra e lancei-me à empreitada. Já os pés saltitavam pelas primeiras pedras, quando me senti desequilibrado e hesitante sobre qual a pedra onde deveria pousar a próxima passada. A água trepava agora lentamente pelos ténis acima. Vislumbrei ao meu lado um caniço que se sobrepunha horizontal à ribeira. Era tão enfezado e quebradiço que tinha como única função servir de poleiro às toutinegras que caçavam mosquitos por ali. Ainda assim, com a mão direita agarrei-me a ele. Com surpresa, notei que aquele corpo estreito e frágil deu-me uma confiança inesperada. Senti-me seguro outra vez e sem mais delongas segui pedra a pedra até à outra margem sempre com o caniço dentro da mão.

Quando lá cheguei, perguntei-me: se não foi a solidez do caniço que me garantiu a estabilidade durante a travessia, o que foi? Tinha sido algo de imaterial, um sentimento, uma aliança entre as forças invisíveis que me habitavam e rodeavam. Creio que é a isto que os filósofos chamam de metafísica.    

sexta-feira, 12 de março de 2021

Mais um poema (Versão XL)

 Ao professor António Castro Caeiro


É só mais um poema.
Há tantos que não pode haver tantos que o sejam.
Então o que é? De onde chegam? 
Qual a natureza desta embriaguez lúcida que me toma?

Onde mora o centro fértil desta harmonia?
Fora ou dentro?
Será um  coito ou uma afirmação desabrigada da loucura? 

Os pássaros respondem a todas estas perguntas. 
Não os entendo, porém.
Talvez seja isso mesmo um poema, 
uma tentativa mais para entender a fala dos anjos 
ou dialeto interior dos pássaros que fomos ou seremos, 
porque o presente não existe.
É um tempo demasiado puro e escasso
para a imperfeição dos sentidos.

Onde ia eu? Ah, sim, o poema...

Dizia então que o poema não é o que parece ser,
porque nunca havemos de chegar à essência  das coisas.
É o que a ciência dos computadores chama de firewall humana.

Mais um poema

É só mais um poema.

Há tantos que não pode haver tantos que o sejam.
Então o que é? De onde chegam? 
Qual a natureza desta embriaguez lúcida que me toma?

Onde mora o centro fértil dessa harmonia?
Fora ou dentro?
Será um  coito ou uma afirmação desabrigada da loucura? 

Os pássaros respondem a todas estas perguntas. 
Não os entendo, porém. 
Talvez seja isso um poema, 
uma tentativa mais para entender a fala dos anjos.

sábado, 6 de março de 2021

Não olhes para trás

À tua frente, Eurídice,

as cotovias cair-te-ão aos  pés,

desenhando pelo deserto

um maná de rosmaninho e penas.


Não olhes, Eurídice,

para o falaz atalho da memória.

Nem os corpos, nem as palavras

são coisas repetíveis.


Mesmo as leitosas nascentes da tua infância

eram poças secas de barro preto.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Reflexão: A primeira aula

Caminhamos até ao limite da aldeia. Nos últimos candeeiros públicos, os morcegos em voos irregulares caçam traças atraídas pela luz. Ouvem-se os cães a ladrar: um aqui, outro acolá ao longe. Mas foram outras luzes que  nos  trouxeram aos arrabaldes.  Viemos ver o céu  estrelado: galáxias, planetas, estrelas.

Tudo isto é imenso, um mar de probabilidades, um infinito mistério.  A primeira aula de teologia devia ser sobre astronomia. 


                                        Fotografia de  Mike Setchell em Unsplash

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Reflexão: um pacto nobre

Foto de Fátima de Castro em Salvaterra do Extremo

Por detrás das quelhas, velhos muros de granito, distribuem-se os animais domesticados: ovelhas, cabras, porcos e cavalos. Meia dúzia de cães guardam-nos, cumprindo o ofício. Ao passarmos, os herbívoros correm ao nosso encontro. Esperam guloseimas que por hábito lhes levamos: restos de fruta, ervinhas tenras e, com sorte, uma ou outra cenoura. Os eleitos deste ano foram dois cavalos. Guardados longe da aldeia ainda não percebemos quem os cria e por quê?

 Os cavalos foram símbolos de poder durante muito tempo. Agora, já pouco dizem ao homem urbano. A sociedade troca de símbolos de vez em quando. Os sinais são mais perenes: um grito ainda é um grito e um trovão, um trovão. Os cavalos, como símbolos de poder, tornaram-se miniaturas prateadas numa famosa marca de automóveis. Os equídeos de carne e osso são mais discretos ou raros. Lembram-nos porém um pacto nobre que fizemos há muito com eles. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Reflexões na aldeia: o caos e o cosmos

O rio vai calmo, quase estagnado. O verão é lento e manso. Só percebemos que o rio passa porque leva uma folha côncava a fazer de caravela

Quando as águas passam, entendemos que já não voltam. Olhamos depois para montante — e vendo já as vindouras — verificamos que tudo se renova: aos nossos pés, temos as águas presentes, que nos banham,  refrescam ou arrefecem mesmo se o banho se demora. Parece falta de visão, mas, frágeis e erráticos, aprendemos a contar apenas com "aqui e o agora". 

Será tudo resto incerteza ou distância? O rio parece dizer-nos que a nossa vida é um cosmos, e não um caos como às vezes parece. Se assim pensarmos ficamos menos ansiosos, mais disponíveis para aceitar as águas que foram e as que ainda aí vêm.

Rio Erges (1º afluente do Tejo) - Salvaterra do Extremo


Eles

Onde eles começam,

acabo eu.

Onde eles acabam,

eu começo.

Quem são eles?

Eles são eles.

Estão do lado de fora dentro de mim.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Reflexões na aldeia: a viagem vertical

Ao longe uma chilreada de estorninhos deleita-nos os ouvidos. Mais perto, as cabras roem algumas cascas de troncos de oliveira. As ovelhas aninham-se entre si como se fossem uma família terna. O sino marca mais meia hora. 

Porque será  que vemos uma paisagem  monótona vezes sem conta e nos parece sempre interessante? Porque tudo aquilo que se torna sagrado  ganha profundidade, na razão inversa em que perde superficialidade. E apenas o que é profundo permite o mergulho, a tal viagem vertical. Se o mergulho se prolongasse, haveríamos de nos maravilhar boquiabertos com uma simples gota de orvalho.


Casa Pinheiro - Salvaterra do Extremo(Idanha-a-Nova)


Black hole

Dizer.

O que é preciso dizer ?

O que é preciso fazer

nem os meus nem os teus lábios dizem.



Lisboa, 1995

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Perdidos

 A obsessão das águas

incendiando as formas

as nossas formas turvas

de aves sem paraíso



Lisboa, 1995

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Éden

 Verde

diz-se traição

no olhar da serpente.

Mas o nosso olhar

não se diz, nem existe.

Porque é fluído e nosso,

e nós traímos

a vã tradição de existir.


Queluz, junho de 1992

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Invenção

Ontem

fingi um céu

para que os poemas que te escrevi

pudessem voar.

Resolvi não dizer-to.

Alguém me disse que em segredo

voam melhor.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Fertilidade

Dorme,

semente incauta,

um sono de gente nua

no ventre

da última primavera. 


Aguarda

sobre o sexo da terra

que a humidade  da noite

e o feitiço do corpo

te façam mulher outra vez.




Julho, 1992

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Resumo

Agora e sempre

a noite a seguir ao dia

mesmo que ao lar

não regressemos,

mesmo que se quebre

o fio de agua que nos prende.




Belas, agosto de 1993

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Horas marcadas

Não procures mais. 

As horas estão marcadas.

Escorregamos para elas, centrípetos. 

Um camisa apertada

impele-nos para o ralo

que nos chupa e cuspe depois

para  a insónia

de uma noite sábia.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Mau tempo

Por enquanto, a gata naufraga  num refugo de Sol. Insolente, desperdiça a vida, vivendo-a. Saberá ela que tem sete?

Uma cerca de nuvens conspira a restauração da sombra. O vento ladra nas persianas. Os pássaros leram nas folhas dos ulmeiros a tempestade. E partiram aos bandos para o azul mais alto que há nos primeiros quadros de um pintor esquecido. 

Quando pressentes a noite ao meio-dia, já sabes, que é inverno. E mesmo que, em pijama, te banhes numa caneca de chá e te seques depois na margem dos biscoitos, o mau tempo recorda-te que és carbónico e pouco mais do que isso.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Sacerdote pessoal

Tinha medo de morrer

e de viver.

Acordava morno.

Bebia sempre leite com café pela manhã.

E quando as aves partiam para sul,

recolhia aos aposentos.

Sentado nas memórias,

ligava a TV

para ver os vivos e os outros.


Quando as aves regressavam,

acendia o fogareiro.

Depois chamava Neptuno e as Bacantes

e oferecia-lhes a imolação da prata

que havia nas escamas das sardinhas.

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