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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Ícaro-poeta

Se seguirmos a razão, encontramo-nos todos no beco da verdade. Quem já lá chegou, dali não passa. O que são os grandes clássicos mais do que estradas sem saída? Se tivermos asas de poeta, podemos pular, voar  dali para fora. Mas temos de aprender a cair e a descolar de novo, enquanto enxugamos as lágrimas do  rosto

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Entre poetas

Os poetas falam entre si como as árvores, ou seja, por debaixo da terra, onde as suas raízes se tocam e trocam cargas eléctricas de baixa potência. Nos dias de vento, generosos, lançam pólen pelo ar à espera de fecundarem um útero imaginoso, um óvulo lírico ou tão somente de perfumar o ar feliz de toda  gente. 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

O profeta

Andam sempre a mudar o nome às coisas.
É intemporal esta inquietude.
Antes quando alguém subia sozinho à montanha
ou atravessava o deserto sem propósito material
chamavam-lhe profeta.
Ele escutava e depois professava.
Agora chamam-te a ti.
E depois num subtil jogo de máscaras, 
num disfarçado discurso, 
pedem-te que reveles as palavras.
E tu respondes que "somos um animal sabedor da morte."

Compreendo, todos nós aliás, 
que seria ousadia
diante a periclitante situação do nosso pensamento, ousares dizer o que por lá  ouviste.

Mas aqui entre os dois 
podes segredar-me ao ouvido,
o que te disse afinal Deus?

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Porque escrevo?

O ato de escrever contém em si uma dupla ambiguidade: permite a ilusão de viver e a ilusão de não morrer. Ainda assim, ciente da fantasia, um ente acorda dentro de nós e recita-nos, uma a uma, as palavras. Transcrevemo-las como se fossem coisas reais por fora e abstrações convencionadas por dentro. Mas o enigma não fica por aqui. Outro mistério encerra esta prática: Para quem escreves? Para ti? Para eles? Para o infinito, consumando assim a tua intenção imortal?

A mente não se cala: fala-nos ininterruptamente. Podes ordená-la, colocá-la ao serviço de uma função, de um objetivo vital e concreto. Porém, ela ficará exausta e reduzida a esse altruísmo, utilidade social, a esse molde definido por outrem para ela. Por isso, pede ao corpo para parar, ir buscar um papel, uma caneta, acender um cigarro e escrever sem utilidade, nem público, num daqueles pequenos atos burgueses concedidos à plebe iletrada que nunca frequentou estudos clássicos, nem nada. Quer apenas recrear-se, confessar-se, transcender-se como um operário que passa todo o sábado na pesca mesmo sabendo que não apanhará nada. A mente quer voltar a inventar histórias, como aquelas que imaginou quando na infância colocamos os nossos brinquedos a conviver entre si. Ela quer outra vez brincar ao faz-de-conta, que é talvez o que fazemos a vida toda em negação. O escritor - e não importa a sua qualidade e reconhecimento público - apenas assume perante si e os demais: "Agora é a brincar", "Agora é a sonhar", "Agora é sem limites", "Agora é que pura e desinibida a minha voz falará","Agora é que as vozes em conflito que eu sou ganharão voz: os muitos serão um e vice-versa".

Às vezes, pergunto: Como é que escreve a minha gata? Os peixinhos do meu aquário? Como escreviam as pessoas antes da escrita? Porque me parece tremendamente injusto que alguém possa viver com o seu pensamento agrilhoado apenas à mecânica arte da sobrevivência.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

A crença

Acredito no que está depois e no que está antes.
Não acredito no presente.
Não passa de palha seca
para ser comida e defecada por grandes herbívoros.
O presente é o futuro do passado
e o passado do futuro.
E esse ponto de convergência, que sou eu agora,
é-me insustentável.

Não acredito no que se vê,
porque ninguém vê a mesma coisa.
Acredito apenas nas ideias que  ninguém viu.
Porque essas sim valem a pena perseguir.
E apenas se persegue algo em que se acredita.
Tudo o resto são sombras, efeitos ilusórios
de causas momentâneas.

Não, não acredito no que se vê.
Acredito apenas nos olhos,
como coisa que está antes e depois de ver.
O durante - esse presente que quando pensamos nele já não é -
é corruptível, efémero e indescritível.

Espaço e tempo não são sincronizáveis pelo olhar,
mas tão apenas pelo pensamento.

Não acreditam?
Olhem uma estrela que está a cinco mil anos luz.
Se calhar, já lá não está.

Como poderia eu assim acreditar?

domingo, 12 de julho de 2020

Coração

Se outrora o poeta escreveu "Não posso adiar o coração", também eu não posso adiar o meu.
Quando descobri a finitude entra as datas da hagiografia de São Francisco, decidi enterrá-lo, esperando que o sortilégio do Sol, ao cozinhar a terra, faça nascer, crescer e florir uma árvore cardíaca. 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Ex-amigos

Éramos bons amigos.
Fomos tentados pelo poder,
cada um à sua maneira, peso e medida.
Inventámos narrativas para nos justificar,
cada uma delas tinha a sua forma de iludir.
Matámos uma longa amizade.
Tudo morre, antes ou depois, afinal o que importa?
Agora somos surdos-mudos entre nós.
O que resta?
Uma lembrança frágil dessa amizade
que estas palavras tentam sem esperança edificar.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A respiração do universo

Lembrei-me que a expansão do universo pode ser devida a uma inspiração do mesmo. E quando ele espirar, tudo regressará à origem, ao antigo monólito que unia toda a matéria antes do Big Bang.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O dilúvio

Dizem que anda um vírus no ar. Daqui para acolá. Explorando narizes, gargantas áureas, o forro das mãos e jardins felizes.

Quiçá a cigarra que canta a cegarrega do Estio já o viu a esquivar-se para o turno da noite?
Ou foi aquele pardal sadio que lançou o boato?

As televisões agigantam-se: será verdade que o maligno soprou seu canto de sereia ao ouvido do Criador, adormecendo-O um século apenas, deixando o mal plantando na cidade inventada sobre um velho bosque natural?

E agora senhores quem acorda Deus se as preces se rezam rasteiras tão presas aos lábios que nem as teias de aranha se mexem com o vento das palavras ?

Todas as noites, na hora do telejornal, cada pergunta acumula novas respostas e o que era irmão  e pessoal se torna viral, mundano, habitual.

Habituados ao terror, os animais tentam nadar sob os pingos cheios do dilúvio. Alguns alcançam a arca, outros nem tanto.

Mais tarde, muito mais tarde chegará a pomba e o pequeno rebento da oliveira, que cresceu durante este tempo longínquo, quintal da Terra repetidamente prometida.






Fogo

Querido fogo,
vem aquecer as memórias dos primeiros natais.

Arder a lenha da história que nos atravanca o caminho.

Acender-me o coração,
antes que se apague a lembrança da primeira paixão.

domingo, 5 de julho de 2020

Os móveis

Há pessoas que não param.
Não se deixam desenhar. 
São alvos imprecisos do olhar dos outros,
impossibilidades estáticas, 
sombras esquivas do sol,
filhos deserdados 
da imortalidade dos traços. 

Água

Querida água,
queria pedir-te que matasses a sede da gazela.

Lava-lhe ainda aquelas feridas que não saram.

E  quando partires outra vez para a foz, 
leva contigo o brilho fugaz dos peixes que subiram à montanha.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Ar

Querido ar,
hoje queria voar contigo até às andorinhas.

Planar sozinha por dentro de nuvens cheias de mar.

Acender o Sol,
para aquecer o pequeno-almoço aos malmequeres.


PS. Porque ela me confessou que preferia o "Ar" em lugar da "Terra", escrevi este poema. Realmente Ar e Terra, se complementam. Façam-se as bodas. Convide-se a "Água" e o "Fogo" para a festa do absoluto.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Terra

Querida Terra,
às vezes apetecia-me dormir contigo ao relento.

Tapar-me com um lençol de terra fina.

E apagar a Lua,
depois de arrumar o livro no arbusto junto à cabeceira.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Os destituídos da globalização

 Os destituídos da globalização - os que já tiveram e perderam e não os que nunca tiveram - encontram, em alguns momentos políticos distribuídos pelo Ocidente, o "canto do cisne" de um paradigma passado. Não há espaço num pequeno artigo de opinião para discutir: "o quê", "quem", "onde" e "porquê" perdeu ou ganhou. Os privilegiados calam-se, os prejudicados protestam, agem. No Ocidente, a maioria das pessoas perdeu condições, por via do nivelamento económico Ocidente-Oriente. O processo continua. A história não pára nunca, ainda que Francis Fukuyama tenha escrito, em 1992, o livro "O fim da história e o último homem", retratando o capitalismo como o derradeiro sistema económico da humanidade.  Falta porém uma dimensão espiritual mais profunda ao sistema capitalista. Há coisas que os racionalistas não conseguem bem explicar: a ética como forma estética da alma, a metafísica, a arte enquanto representação de um ideal platónico.

As pessoas andam desorientadas: em França, o eleitorado muda de opinião de eleições em eleições. Nos EUA, idem, ainda que o espectro político seja mais pobre que o francês. Ninguém tem muitas certezas. As pessoas andam à deriva. Os livros sapienciais da humanidade tornam-se cada vez menos populares ou interpretados de forma errada.

A história avança num processo de tese, antítese e por fim de uma síntese que se tornará depois nova tese, criando um ciclo contínuo. Tenho a sensação que a nova antítese será de natureza mística, ou seja, somos todos um. A vitória dos Verdes nas autárquicas francesas prenuncia essa perspetiva. Ou seja, apesar das nossas diferenças e interesses díspares, algo nos une. A Terra, por exemplo.

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