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segunda-feira, 24 de maio de 2021

O diário que não escrevi

 Eu amava-a profundamente, ainda que este advérbio de modo não ajudasse a representar o meu sentimento por ela. O meu amor era de uma esfera mais elevada do que aquela onde as palavras significavam ideias convencionais. Por isso, quando ela me pedia para eu dizer-lhe explicitamente que a amava, recusava, evocando argumentos dúbios. Não era possível explicar-lhe a minha teimosia sem falar de magia, de mistério, de coisas apenas intuídas, mas que ainda não tinham para mim uma explicação inteligível. A mais humana das razões era o medo. O medo de nomear o meu sentimento numa camada mais baixa da existência do que aquela onde o meu desejo se havia estabelecido: etéreo, mas vivaz; mental, mas ardente.




domingo, 23 de maio de 2021

Aviso

 Aos meus filhos disse:

cuidado com os poemas

que queimam as pontas dos dedos

com ácido clorídrico

e desfazem pouco a pouco a traqueia

com o atrito daquelas partículas sintáticas

que ficam a mais nas esquinas dos versos.


Se querem ser poetas, meus filhos,

esqueçam  Kant, esqueçam Séneca

 e outros doutos cânones da razão.

Em vez disso, empreendam  sobretudo

uma melodia doida

saltando de galho em galho

pelo bosque naufrago dos moucos.


Em qualquer café da cidade, dir-vos-ão

que toda a poesia são diapositivos insanos

projetados em paredes rebocadas de lama e ilusão.


terça-feira, 18 de maio de 2021

A ruína

No cimo da escarpa avista-se  um castelo em ruínas. Suas torres e muralhas erguem-se agora caquéticas, como dentes espaçados e incompletos.  Ali, abandonado, o antigo bastião é um monumento à solidão. Ninguém lhe presta  já um carinho, uma breve homenagem sequer.  Apenas as cabras e as vacas lhe fazem companhia. Pela sua localização e envergadura, adivinha-se a importância de outrora.  

O castelo viu  partir os inimigos primeiro; os seus soldados com o último alcaide, tempos depois. Queixou-se a quem o ouvisse  da ingratidão  dos que o deixaram, apesar da sua inexpugnável solidez. 

Jamais assumiu  a sua inércia. Em vez disso, deu-lhe para culpar a história, as modas e a traição daqueles a quem dera boa guarida. Esquecera-se afinal  de mudar para continuar a fazer sentido.


Castelo de Peñafiel (Zarza La Mayor) 
Foto Fátima Rodrigues


segunda-feira, 17 de maio de 2021

A prenda

A caneta que me deste quase secou. Apenas escreve frases incompreensíveis e corruptas.
Quando me a ofereceste, escrevia de forma infinita e luzidia. Se   naquele tempo, a prenda selava a nossa amizade, agora julgo-a apenas uma daquelas cambalhotas que os periquitos fazem nos poleiros ou  uma teia de aranha para apanhar moscas. Infelizmente o tempo ora distorce a nossa percepção, ora a torna mais nítida. O que para o caso pouco importa.


Entre as poucas palavras que  ainda  escreve, todas me lembram que caminhamos  os dois, à semelhança da caneta,  para a inutilidade total.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Aguaceiro



 
O poeta transforma a realidade através do filtro da sua fantasia. Tudo em seu redor passa a ser um reflexo subjetivo de uma consciência onírica e fugaz. Pelo menos comigo, as coisas passam-se assim. Há um momento de criação que nasce e morre num curto espaço de tempo. Deixa para trás um cadáver ou uma semente: se for o primeiro caso, o poema desfazer-se-á com o tempo; caso contrário, crescerá como uma bela planta que dará cor, perfume ou sombra durante mais algum tempo.

Hoje de repente o céu enegreceu. Em meu redor, tudo tomou um novo sentido. Quem conhece a minha sala, entenderá melhor os elementos deste poema. Quem não conhece ainda, começará pelo fim, ou seja, pela realidade alterada. Depois a chuva começou a cair. Senti que precisava de escrever um poema para me abrigar ou desfrutar  daquele momento. Escrevi assim:

Chove lá fora
e dentro de mim.
O comboio leva e traz 
gente estática.
O peixe aguarda
no silêncio do tanque
uma fresta
que não se abre.
A gata acoita-se;
julga que a chuva 
se zangou com ela.
Recolho-me eu
no alpendre da poesia,
exercício vital
para a flutuação das pedras
em dia de aguaceiros.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Desesperança

Ó tamanha desesperança do mundo que em mim se fez porto de águas fundas, onde  navios chegam e partem mudos. No cais, sozinho, não espero mais que o fumo pode esperar, quando o vento o dispersa pela praia deserta.

Por lá brande, em meu redor, uma luz crepuscular, lembrando-me o vazio do que para trás ficou e o sofrimento em que se tornou  esta condenação de caminhar.



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