Ontem caminhei com o meu amigo Pedro pela minha “Combray”*. Procurei mostrar-lhe as particularidades daquela Queluz antiga, essa parte da vila** que ainda carrega curiosidades históricas e naturais capazes de despertar a atenção de dois veteranos.
O Pedro, com os seus conhecimentos geológicos e botânicos, ajudou-me a compreender melhor aquilo que eu contemplava há décadas — agora de uma forma mais sustentada. As informações do foro racional não aumentaram, porém, o meu espanto; limitaram-se a explicar causas, a tipificá-las, a transformar o que era ímpar e exclusivo num fenómeno, no limite, semelhante a muitos outros.
Ainda assim, não conseguiram retirar às árvores, às rochas, aos rios e às casas antigas a intimidade que tenho com elas. A minha mãe e o meu pai serão dois seres genética e socialmente iguais a tantos outros; mas as minhas memórias unem-nos de forma inexplicável. É essa camada fina e transparente — a memória afectiva — que nos prende aos entes de um modo frágil, mas ainda assim vital.
Ontem, vadiando como um adolescente, contemplei, mais uma vez, a minha terra natal, agora acompanhado. E senti um prazer antigo, reconhecível, como se a idade me tivesse apenas ensinado a repetir o espanto.
*Combray é uma pequena cidade de província (ficionada mas com base real), inspirada sobretudo em Illiers (hoje Illiers-Combray), onde Proust passou a infância;
** Queluz na realidade foi elevada a cidade em 1997. Porém, gosto de vê-la e tratá-la carinhosamente por vila.
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| Bairro Chinelo (Queluz), fotografia editada |

1 comentário:
Luís,
teu texto é um exercício delicado de permanência. Caminhas pela terra como quem caminha pela própria memória, e consegues mostrar que o conhecimento explica, mas não substitui o vínculo. Há algo muito belo nessa distinção entre compreender as causas e preservar o espanto. A memória afetiva, como dizes, é essa camada quase invisível que dá intimidade ao mundo. Ler-te é acompanhar esse passeio lento, onde a idade não apaga o assombro apenas o torna mais consciente.
Abraço
Fernanda
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